29 de junho de 2007

O Coque resiste!

A história que passo a narrar está no blog do Samarone, http://estuariope.blogspot.com. Aconteceu na sexta-feira, antes do São João. Mas acontece todos os dias, sem que ninguém fique sabendo. Desta vez, a vítima foi Procópio, morador do Coque. Um cidadão que ousa resistir à falta de expectativas, à violência, ao tráfico. Que ousa criar uma alternativa de cidadania para sua comunidade: o Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis- MABI. Que ousa falar em cultura, livros, conhecimento, para um bairro cuja realidade é a violência e o abandono. Pior: ousa montar uma biblioteca para essa gente - alugar casa, pintar, refazer o telhado e conseguir a doação de livros.
Pois bem, foi esse cidadão que, como tantos outros, se viu refém no dia 23 de junho da truculência policial, que atinge cotidianamente quem é pobre, negro e vive nas periferias do Recife. Enquanto Procópio e vários amigos se divertiam, defronte de casa, duas viaturas da Rádio Patrulha chegaram. Colocaram todos contra a parede. Coisa comum para quem vive no Coque. Impensável para quem mora em Boa Viagem, Espinheiro ou Casa Forte.
Então Procópio ousou abrir a boca: pediu para baixar o som, porque não estava escutando o que os policiais queriam. Foi a deixa que esperavam. O tenente foi o primeiro a empunhar o cassetete. E, aí -que ousadia! - Procópio tentou agir como cidadão: disse que aquilo era abuso de poder. A Polícia entrou em sua casa, quebrou objetos. Com tudo isso, o ousado Procópio não se deixou abater: disse que eles não podiam entrar sem um mandado judicial. Apanhou muito. Ao ser algemado, a mãe, temendo o pior, perguntou para onde seriam levados. A resposta foi a de sempre: "Procure". Procópio e mais quatro jovens foram levados em um camburão para destino incerto. Algemados, ficaram mais de duas horas à mercê dos policiais, antes de chegarem à delegacia de Santo Amaro.
Felizmente, o final da história foi menos triste do que o de tantos outros que acontece todos os dias. Procópio é um cidadão consciente, tem amigos, conhece seus direitos. As advogadas da ONG Auçuba interromperam os festejos e foram à delegacia. O comissário saiu rapidinho e veio conversar com elas. Disse que já estava tudo sendo resolvido, que não precisava de advogado, porque era apenas "desacato à autoridade". Diante da insistência, a resposta do comissário foi simbólica. Disse apenas o seguinte:"Então, vai ser pior".Em minutos, apareceram três papelotes de maconha nas coisas de Procópio. A advogada conseguiu evitar um desastre que arrasa a vida de tantos jovens da periferia. Procópio resiste.
No próximo sábado, às 9 horas, será inaugurada a Biblioteca do Coque. Quem quiser ajudar de alguma forma, pode mandar email para o Procópio: coquevive@gmail.com. Valeu, Samarone, por tornar pública esta história.

1 comentários:

Samarone Lima disse...

Ops, vim dar um pulinho aqui.
Beijos,
Samarone

 

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