15 de junho de 2007

Sua bênção, mestre Ariano

Quando peço a bênção ao mestre Ariano, estou, em verdade, pedindo a bênção a todos os mestres de nossa cultura popular. Pois a obra de nosso romanceiro Suassuna não é só sua. Sua voz, como a de nossos poetas populares, carrega em si tantos ecos que não é justo falar de um autor só, mas de uma teia de autores. Sem desmerecimento a qualquer um deles.
Nos cantos e letras destes artistas, a noção de autoria perde sentido, vira letra morta, conceito burguês. Nosso povo, pelo contrário, é simultaneamente criador e criatura. Assim como nosso Ariano. Seus personagens são seus, é verdade. Mas não só. Vem de outras histórias, têm vida própria, mesmo quando os nomes diferem.
E isso é o que mais amo nessa nossa cultura: nela, o passado, presente e futuro se entrelaçam. E por isso, tenho que confessar, tenho cá minhas divergências com o Suassuna pensador, jamais o artista. Por que creio que, as vezes, ele pretende fixar o passado no mesmo ponto. Nossos artistas populares, pelo contrário, tudo recriam, mantendo o passado vivo. O passado feito presente e futuro de uma só vez. Tudo se mistura e se tranforma. E pretender manter as coisas presas num ponto é, para mim, matá-la um pouco. Por isso prefiro o Ariano romanceiro ao Ariano político. O ariano contador de histórias ao Ariano inventor de conceitos.
E peço a bênção a ele com orgulho, como me orgulho de ser brasileira, nordestina, pernambucana.

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