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Aurora

Chamava-se Aurora. Mas, a despeito do nome, nada tinha que lembrasse o alumbramento do sol quando rompe a manhã. Menos ainda que se parecesse com aquela moça por 100 anos adormecida. Pelo contrário. Nenhuma fada jamais lhe brindara com o dom da beleza. Desde sempre fora conhecedora de sua própria face e sabia que estava muito mais próxima da Moura Torta que da princesa.

À espera do azul

Hei de acordar azul e meu verso será como sorriso de criança. Mas hoje, não.

Minha alma na bandeija

Andarei descalça. Apesar das feridas e cicatrizes que me marcam a sola dos pés. Apesar das pedras, dos cacos, dos espinhos, dos buracos. Não vestirei sandálias nem anéis.

Rasgos

Um rasgo no céu risco no papel e as estrelas cadentes singram o ar e estrelas decadentes sangram no altar poemas são acrobacias de palavras deserdadas!

Para uma amiga especial

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Por que eu não sei o que escrever quando penso nela, e no entanto é uma amiga tão especial? Por que as palavras falham, a voz não grita e o coração fica parado em uma imagem e um sorriso? Deve ser, Edivane, por que você é sempre aquele ponto na frase, que parece completar o que gagueja.

Exílio

Primeiro, arremessaram-me um tiro ao peito. Não morri. O tiro, entretanto, permaneceu dentro de mim como uma pedra.

Adeus, Saramago

"Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta aparecem, em todo o mundo, leitores que se declaram devotos e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir.(...) Isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: ele morreu e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas".