7 de março de 2012

... sem pressa.

Era velho.
Cada ano uma marca, uma ruga, um sinal.
E tantas as dobras que os olhos espremiam-se nos traços do rosto.

Era velho.
E tinha, no entanto, todo o tempo do mundo.
Cada gesto, cada fala, cada movimento executava-se em câmera lenta, para desespero nosso, os que correm demais.

Ele não.
Não corria.
Observava a vida com olhos atentos: uma hora inteira a aspirar a beleza da praça.

Era velho e os adultos passavam longe.
Mas as crianças não.
Chamavam-no de vô e vestiam-no com chapéu de jornal.
Ele sorria e brincava, sem pressa, a sorver da infância a alegria.

Todas as tardes, sem falta, ele ia à praça.
No mesmo horário, em seu passo lento.
Sentava no mesmo banco.
E olhava.

Um dia, meu filho sentou-se ao seu lado.
E, como outras crianças, iniciou com ele uma conversa de iguais.
No fim do papo, lhe ofereceu uma pergunta:
- Vô, o que você tanto olha todos os dias?
O velho parou, pensou, sorriu.
Lentamente, voltou-se para olhar o menino. Com sua voz rouca e sem pressa, falou:
- Eu olho o que, antes, esqueci de olhar...
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