Gritos de Gaza

Meu nome é Ibrahim, tenho 18 anos e, um dia, já vivi. Hoje, vago entre semi-mortos, a quem as lembranças pesam como pedras que se amarram aos pés dos afogados. Hoje, vago entre sombras neste cemitério de refugiados, que vestem a mortalha dos dias e das horas.

Já estudei, fui à escola, sorri... e, muitas vezes, estas lembranças são meu pior carrasco. Em meus devaneios, a fumaça, as bombas e os gritos se misturam às vozes e risadas dos colegas... O sorriso de Ahmed, gorducho, engraçado, que gostava de desafiar o medo e fazer palhaçada junto à zona de fronteira. Por onde andará Ahmed? Será que ainda sorri? Por onde andarão os colegas, os professores? Por onde andará Rasha, a menina mais bonita da escola?

Mais do que a ausência da perna esquerda, esmagada que foi pelos escombros da guerra, o que me dói é a ausência da alma. Quase sempre, quando tento descansar da vida, escuto os gritos de minha irmãzinha Sana, de 15 anos, o corpo consumido pelas chamas... Eu não pude ajudar! Não pude ajudar! Meu corpo preso sob montes de ferro...

Em meus pesadelos, seus gritos se misturam às imagens felizes: Sana dançando no meio da sala, o rádio no último volume. Ou brigando comigo pelo direito de escolher o canal de televisão. A voz serena e firme de meu pai ao descobrir em meus bolsos uma carteira de cigarro. Os abraços de minha mãe... nunca mais! Nunca mais!!!

Quando eu tinha 15 anos, tive uma colega judia. Seu nome era Brenda, ela tinha um sorriso lindo e não conversava sobre nossas diferenças. Lembro que contava de sua avó, que guardara para sempre as cicatrizes do nazismo e, as vezes, acordava aos gritos, perseguida pelos fantasmas trazidos pela memória.

Brenda, esta carta é para ti! É para ti e todos os que, como você, não compactuam com este extermínio!

Como pode um povo, que foi massacrado, massacrar também?

Brenda, esta carta é para ti e para mim mesmo, para que eu tente sobreviver ao meu próprio deserto.

Meu grito não é apenas pelos mortos e semi-mortos.

Meu grito não é apenas por Gaza ou pelo povo Palestino.

Meu grito é pela humanidade!

Ibrahim é personagem fictício.
Mas sua história é real e se repete todos os dias.
Já são mais de mil mortos, dos quais centenas de crianças, no genocídio levado à cabo por Israel.
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16 de junho de 2014

Minha cidade





Eu quero ver o céu
Eu quero ver o céu
E que a cidade me abrace com seu mangue
sem que esta lama se transforme no sangue
que escoa sob as Torres de Babel

Eu quero ver o mar

Eu quero ver o mar
E que a cidade me abrace com seus rios
sem os palácios de concreto que vendem sonhos vazios
desejos pra quem pode pagar

Eu quero ver os velhos

e as crianças
E que a cidade me abrace com sua história
de paisagens que guardam muitas memórias
e um futuro que não enterra lembranças

Eu quero ver

este carnaval
E que a cidade me abrace com seus moradores
Todas as classes,
todas as cores
Gente que se mistura, como água e sal

Eu quero ver as ruas

coloridas
De gente que canta, que sonha, que passa
De crianças que brincam na praça
Eu quero ver a vida!
Eu quero ver a vida!

(Foto: Direitos Urbanos)
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29 de março de 2014

O estupro do anjo

Um anjo. Ela, a menina. Tal pureza de intenções que chegava a ser um desaforo da sem-vergonhice. Como papel em branco: jamais uma letra, um traço riscado. Mas com todos os convites e possibilidades que o vazio enseja.
Dulcinha a chamavam. Criada sem dono desde os nove anos de idade. Sozinha, a buscar amparo na vizinhança: um servicinho aqui, outro ali, a lavar roupas e cuidar dos bebês para ganhar o pão de cada dia.
Sequer tinha consciência da própria beleza: os cabelos negros, caídos aos ombros em longos cachos, e os olhos rasgados de seus ancestrais Xukuru.
Nunca soubera ser bisneta de indígenas. Nascera na cidade, entre casebres e ratos, mas guardava lá no fundinho da alma a nostalgia da terra. E olhava árvores e bichos como quem vê um tesouro.
Enquanto a mãe foi viva, Dulcinha frequentou a escola. Aprendeu as letras a pulso, que seu pensamento não conseguia fixar-se por muito tempo naquelas lições. Mais da metade da aula passava ela em seu mundo próprio, dos devaneios, onde jamais a alcançavam.
De resto, brincava e achava graça em tudo, até nas desgraças. E ajudava a mãe, lavando roupa, entregando a trouxa em casas de madames, limpando o barraco, ajeitando algo pra comer.
Quando a mãe morreu, Dulcinha não chorou nem sorriu. Os vizinhos comentavam: - Que vai ser da menina, sozinha? - Nove anos apenas, mas indócil. Jamais se sujeitaria aos cuidados de estranhos. Por isso, ninguém ousou falar nada ao Conselho Tutelar. Deixaram como estava: a menina em sua casinha, a fazer o de sempre - as roupas, as trouxas, um trocado da vizinhança aqui e acolá.
Foi se virando e foi crescendo. Menina adulta: os seios, os pelos, o sangue nas pernas. O mesmo jeitão de menina, a escancarar sorrisos, a saia curta, a forma dos seios revelando-se sob a blusa branca...
Em vão as vizinhas alertavam: essa saia curta, menina; fecha as pernas, se ajeita, coloca um soutien... Dulcinha revelava os dentes, mas as palavras buliam em seus ouvidos sem chegar na alma.
À noite, em seu barraquinho, começaram a chegar os homens. Primeiro, os rapazotes. Faziam propostas: um trocado, uma pulseira, uma boneca, radinho de pilha... Ela satisfazia-lhes os gostos como quem executa uma tarefa qualquer - um prato que se lava, um alimento que se cozinha. E deixava-os ir, satisfeitos. Ela também, alegre de possuir um presente.
As vizinhas passaram a lhes fechar a porta à cara. Não mais uma ajuda, nem um prato de comida, uma trouxa pra lavar. Nunca mais crianças para tomar conta, que para os outros, era uma perdida que macularia a alma dos bebês.
Dulcinha não entendia as mudanças, mas seguia com seu sorriso - amparando-se no que lhe ofereciam os rapazes.
Um dia, deixou de sair à rua. Um dia, dois, três... Quando um dos rapazes foi buscar os seus serviços, o barraco já exalava a pestilência da morte.
Em um canto do chão, a menina. Roupa rasgada, um tiro na testa. Mais tarde, a perícia confirmou o estupro, não por um, mas por vários homens. No corpinho de quinze anos, pela primeira vez, não havia um sorriso. Espalhada a notícia, a vizinhança sentenciou: - Era uma perdida. Mereceu!
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19 de fevereiro de 2014

Meninas, cuidado!

Meninas, cuidado!
Um fio tênue liga o "charmoso" ciúme ao cruel sentimento de posse, que maltrata e mata.
Então, fiquem atentas.
Pensem bem antes de achar lindo quando ele lhe pede pra não sair com aquele velho amigo.
Ou quando ele define o comprimento da tua saia.
Ou a quantidade de tuas risadas e a maneira como você dança.
Meninas, cuidado!
Reflitam antes de achar engraçado quando aquele garoto, o mais lindo da escola, comenta sobre o número de mulheres que ele "pegou" no carnaval.
Aquilo que parece bobagem carrega consigo as sementes deste tronco que esmaga tantas mulheres: esta cultura, enraizada como árvore, que pensa mulheres como mercadorias nas prateleiras - que o homem pode "pegar", "usar" e "descartar"
Aquele ciúme que você achava lindo, e que lhe fazia controlar com gosto o tamanho de seus biquinis, há de crescer se você lhe der água e nutrientes.
E um dia, não é só o tamanho de seus biquinis que ele há de querer controlar, mas a sua mente, pensamentos, desejos, necessidades... estas coisas que lhe fazem ser quem você é.
Sem elas, você há de ser apêndice de teu homem, transformando-se na mercadoria que, lá no fundo, ele sempre desejou de uma mulher.
Meninas, cuidado!
Há homens que nem esperam que você converta a si própria em mercadoria: eles lhe descartam assim que percebem que você tem desejos e sonhos que ele não pode controlar.
Há mulheres que são mortas.
Há mulheres que morrem em vida.
E há os homens que, um dia, eram apenas meninos ciumentos.
Mas o machismo entranhado cresceu, ramificou... e os galhos e raízes espalharam-se em sua alma e em seus pensamentos.
Então ele deixou de enxergar a mulher que, um dia, lhe fez sentir paixão.
Ela converteu-se em um objeto.
Um objeto de valor, é verdade: um automóvel do ano, um imóvel, uma conta de banco.
Um objeto cuja posse tem que ser defendida a ferro e fogo.
Por isso meninas, cuidado.
Quando você poda suas asas, pelo que acredita ser amor, você alimenta em seu amado o que ele tem de pior.



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31 de dezembro de 2013

Reveillon

Todo ano igual: ela sonhava que passava direto do dia 30 de dezembro para primeiro de janeiro.
Nada de reveillon. ,
Nada de champagne, vinho, roupa branca, praia, família, família, família...
Que família?
Aquela que a expulsara de casa quando, aos 17 anos, pegou bucho do filho do patrão?
Por causa da tal família, comeu o pão que o diabo amassou.
Esquinas, becos, hotéis de terceira com velhos, moços, bêbados... dois dentes a menos de um murro, a fome, as dívidas, os agiotas e ela pagando com o próprio corpo os intermináveis juros.
Porra de família!!!
O bebê? Sorte dele que não vingou pra acompanhá-la em seu calvário.
Agora não... desde que conhecera o gringo, sua vida dera uma guinada em direção ao céu.
Casa, comida, gente fina, restaurantes caros... tudo do bom e do melhor. E só o que tinha a fazer era servir de cama e mesa. Manter saciados os vícios do homem e garantir boa comida, casa limpa, roupa asseada.
E manter o silêncio e a compostura. Dentro de casa sem reclamar ou dar opiniões. Balançar a cabeça assentindo para cada dito do esposo. E só.
Mas, de tudo, o mais difícil era o sorriso. Mais ainda em dias de reveillon.
Aquela brancura de gente, o tlim tlim das taças, a mesa bem posta e os sorrisos, sorrisos, sorrisos... tudo isso lhe dava ganas de quebrar tudo.
Sonhava jogando taças na parede, um vidro de champagne destroçado sobre cabeças, o sangue rolando nas faces e ela a gritar todos os gritos sufocados na garganta.
Depois acordava.
Retoques na mesa, banho perfumado, roupa branca, separar as taças e pendurar o sorriso no rosto.
Paciência... o tempo passa rápido. Amanhã já é outro ano.

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19 de dezembro de 2013

De homens e de bichos


Eu nada sei dos ratos
dos esgotos
dos buracos
dos farrapos
imundos
que envolvem
o mundo.

Eu nada sei dos caranguejos
da lama
do lodo
dos canais
putrefatos
onde mergulham
os ratos

Eu nada sei dos pássaros
nas gaiolas
nas prisões
onde não há sonhos
nem desejos
e se abandonam
os caranguejos

Eu nada sei dos jumentos
sua carroça
seu fardo
peso que mata
devagarinho
e arranca as asas
do passarinho

Eu nada sei das baratas
da chinelada
do inseticida
do sangue que esborra
do tormento
olhos que se arrancam
do jumento

Eu nada sei do homem.
Eu nada sei.
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11 de dezembro de 2013

Da solidão

Ela caminha só: pés descalços que se enterram na areia.
Seu olhar absorve cada pequeno ser em seu silêncio.
O rodopio das nuvens a se esfumarem na imensidão azul.
A carreira de um pequeno caranguejo em direção às águas.
O barulho do vento e as ondas que quebram e desatam em espuma.
Não está só.
Cada sombra que lhe penetra os olhos torna-se parte integrante de si.

A moça rodeada de amigos.
Ela sorri, eles sorriem.
Brindam a vida em mil palavras. Mas poucas palavras lhe alcançam o coração.
Ela brinca entre sombras, mas seus olhos vagueiam e, de tudo o que se troca, muito pouco se compartilha.
São tantos os abraços, que ela já não sabe qual deles há de guardar consigo...
E, nas palavras que não disse,
no abraço que não reteve,
nos olhares que não guardou,
cresce o indomável monstro da solidão.

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