1 de agosto de 2014

Gritos de Gaza

Meu nome é Ibrahim, tenho 18 anos e, um dia, já vivi. Hoje, vago entre semi-mortos, a quem as lembranças pesam como pedras que se amarram aos pés dos afogados. Hoje, vago entre sombras neste cemitério de refugiados, que vestem a mortalha dos dias e das horas.

Já estudei, fui à escola, sorri... e, muitas vezes, estas lembranças são meu pior carrasco. Em meus devaneios, a fumaça, as bombas e os gritos se misturam às vozes e risadas dos colegas... O sorriso de Ahmed, gorducho, engraçado, que gostava de desafiar o medo e fazer palhaçada junto à zona de fronteira. Por onde andará Ahmed? Será que ainda sorri? Por onde andarão os colegas, os professores? Por onde andará Rasha, a menina mais bonita da escola?

Mais do que a ausência da perna esquerda, esmagada que foi pelos escombros da guerra, o que me dói é a ausência da alma. Quase sempre, quando tento descansar da vida, escuto os gritos de minha irmãzinha Sana, de 15 anos, o corpo consumido pelas chamas... Eu não pude ajudar! Não pude ajudar! Meu corpo preso sob montes de ferro...

Em meus pesadelos, seus gritos se misturam às imagens felizes: Sana dançando no meio da sala, o rádio no último volume. Ou brigando comigo pelo direito de escolher o canal de televisão. A voz serena e firme de meu pai ao descobrir em meus bolsos uma carteira de cigarro. Os abraços de minha mãe... nunca mais! Nunca mais!!!

Quando eu tinha 15 anos, tive uma colega judia. Seu nome era Brenda, ela tinha um sorriso lindo e não conversava sobre nossas diferenças. Lembro que contava de sua avó, que guardara para sempre as cicatrizes do nazismo e, as vezes, acordava aos gritos, perseguida pelos fantasmas trazidos pela memória.

Brenda, esta carta é para ti! É para ti e todos os que, como você, não compactuam com este extermínio!

Como pode um povo, que foi massacrado, massacrar também?

Brenda, esta carta é para ti e para mim mesmo, para que eu tente sobreviver ao meu próprio deserto.

Meu grito não é apenas pelos mortos e semi-mortos.

Meu grito não é apenas por Gaza ou pelo povo Palestino.

Meu grito é pela humanidade!

Ibrahim é personagem fictício.
Mas sua história é real e se repete todos os dias.
Já são mais de mil mortos, dos quais centenas de crianças, no genocídio levado à cabo por Israel.
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16 de junho de 2014

Minha cidade





Eu quero ver o céu
Eu quero ver o céu
E que a cidade me abrace com seu mangue
sem que esta lama se transforme no sangue
que escoa sob as Torres de Babel

Eu quero ver o mar

Eu quero ver o mar
E que a cidade me abrace com seus rios
sem os palácios de concreto que vendem sonhos vazios
desejos pra quem pode pagar

Eu quero ver os velhos

e as crianças
E que a cidade me abrace com sua história
de paisagens que guardam muitas memórias
e um futuro que não enterra lembranças

Eu quero ver

este carnaval
E que a cidade me abrace com seus moradores
Todas as classes,
todas as cores
Gente que se mistura, como água e sal

Eu quero ver as ruas

coloridas
De gente que canta, que sonha, que passa
De crianças que brincam na praça
Eu quero ver a vida!
Eu quero ver a vida!

(Foto: Direitos Urbanos)
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29 de março de 2014

O estupro do anjo

Um anjo. Ela, a menina. Tal pureza de intenções que chegava a ser um desaforo da sem-vergonhice. Como papel em branco: jamais uma letra, um traço riscado. Mas com todos os convites e possibilidades que o vazio enseja.
Dulcinha a chamavam. Criada sem dono desde os nove anos de idade. Sozinha, a buscar amparo na vizinhança: um servicinho aqui, outro ali, a lavar roupas e cuidar dos bebês para ganhar o pão de cada dia.
Sequer tinha consciência da própria beleza: os cabelos negros, caídos aos ombros em longos cachos, e os olhos rasgados de seus ancestrais Xukuru.
Nunca soubera ser bisneta de indígenas. Nascera na cidade, entre casebres e ratos, mas guardava lá no fundinho da alma a nostalgia da terra. E olhava árvores e bichos como quem vê um tesouro.
Enquanto a mãe foi viva, Dulcinha frequentou a escola. Aprendeu as letras a pulso, que seu pensamento não conseguia fixar-se por muito tempo naquelas lições. Mais da metade da aula passava ela em seu mundo próprio, dos devaneios, onde jamais a alcançavam.
De resto, brincava e achava graça em tudo, até nas desgraças. E ajudava a mãe, lavando roupa, entregando a trouxa em casas de madames, limpando o barraco, ajeitando algo pra comer.
Quando a mãe morreu, Dulcinha não chorou nem sorriu. Os vizinhos comentavam: - Que vai ser da menina, sozinha? - Nove anos apenas, mas indócil. Jamais se sujeitaria aos cuidados de estranhos. Por isso, ninguém ousou falar nada ao Conselho Tutelar. Deixaram como estava: a menina em sua casinha, a fazer o de sempre - as roupas, as trouxas, um trocado da vizinhança aqui e acolá.
Foi se virando e foi crescendo. Menina adulta: os seios, os pelos, o sangue nas pernas. O mesmo jeitão de menina, a escancarar sorrisos, a saia curta, a forma dos seios revelando-se sob a blusa branca...
Em vão as vizinhas alertavam: essa saia curta, menina; fecha as pernas, se ajeita, coloca um soutien... Dulcinha revelava os dentes, mas as palavras buliam em seus ouvidos sem chegar na alma.
À noite, em seu barraquinho, começaram a chegar os homens. Primeiro, os rapazotes. Faziam propostas: um trocado, uma pulseira, uma boneca, radinho de pilha... Ela satisfazia-lhes os gostos como quem executa uma tarefa qualquer - um prato que se lava, um alimento que se cozinha. E deixava-os ir, satisfeitos. Ela também, alegre de possuir um presente.
As vizinhas passaram a lhes fechar a porta à cara. Não mais uma ajuda, nem um prato de comida, uma trouxa pra lavar. Nunca mais crianças para tomar conta, que para os outros, era uma perdida que macularia a alma dos bebês.
Dulcinha não entendia as mudanças, mas seguia com seu sorriso - amparando-se no que lhe ofereciam os rapazes.
Um dia, deixou de sair à rua. Um dia, dois, três... Quando um dos rapazes foi buscar os seus serviços, o barraco já exalava a pestilência da morte.
Em um canto do chão, a menina. Roupa rasgada, um tiro na testa. Mais tarde, a perícia confirmou o estupro, não por um, mas por vários homens. No corpinho de quinze anos, pela primeira vez, não havia um sorriso. Espalhada a notícia, a vizinhança sentenciou: - Era uma perdida. Mereceu!
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19 de fevereiro de 2014

Meninas, cuidado!

Meninas, cuidado!
Um fio tênue liga o "charmoso" ciúme ao cruel sentimento de posse, que maltrata e mata.
Então, fiquem atentas.
Pensem bem antes de achar lindo quando ele lhe pede pra não sair com aquele velho amigo.
Ou quando ele define o comprimento da tua saia.
Ou a quantidade de tuas risadas e a maneira como você dança.
Meninas, cuidado!
Reflitam antes de achar engraçado quando aquele garoto, o mais lindo da escola, comenta sobre o número de mulheres que ele "pegou" no carnaval.
Aquilo que parece bobagem carrega consigo as sementes deste tronco que esmaga tantas mulheres: esta cultura, enraizada como árvore, que pensa mulheres como mercadorias nas prateleiras - que o homem pode "pegar", "usar" e "descartar"
Aquele ciúme que você achava lindo, e que lhe fazia controlar com gosto o tamanho de seus biquinis, há de crescer se você lhe der água e nutrientes.
E um dia, não é só o tamanho de seus biquinis que ele há de querer controlar, mas a sua mente, pensamentos, desejos, necessidades... estas coisas que lhe fazem ser quem você é.
Sem elas, você há de ser apêndice de teu homem, transformando-se na mercadoria que, lá no fundo, ele sempre desejou de uma mulher.
Meninas, cuidado!
Há homens que nem esperam que você converta a si própria em mercadoria: eles lhe descartam assim que percebem que você tem desejos e sonhos que ele não pode controlar.
Há mulheres que são mortas.
Há mulheres que morrem em vida.
E há os homens que, um dia, eram apenas meninos ciumentos.
Mas o machismo entranhado cresceu, ramificou... e os galhos e raízes espalharam-se em sua alma e em seus pensamentos.
Então ele deixou de enxergar a mulher que, um dia, lhe fez sentir paixão.
Ela converteu-se em um objeto.
Um objeto de valor, é verdade: um automóvel do ano, um imóvel, uma conta de banco.
Um objeto cuja posse tem que ser defendida a ferro e fogo.
Por isso meninas, cuidado.
Quando você poda suas asas, pelo que acredita ser amor, você alimenta em seu amado o que ele tem de pior.



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