14 de fevereiro de 2013

Uma fileira em descompasso no Homem da Meia Noite


O garoto no Homem da Meia Noite:
negro como aquela que empresta seu manto de estrelas para passar o bloco das multidões.
O garoto no Homem da Meia Noite:
os cabelos pintados de sol, abrindo clarões em sua escuridão
e o sorriso a iluminar-lhe o rosto - um toque de inocência na rebeldia adolescente.

O garoto valsava com os seus iguais
abrindo espaço aos saltos entre punhados de gentes.
Volta e meia erguia os olhos na direção em que todos os olhos se erguiam: a sede do homem tão esperado.

Soaram os clarins e os corações aglomerados
e uma fileira de homens fardados se posicionou nas suas trincheiras:
as que separam as leis dos corações.

O garoto esticou o pescoço e testou alguns pulos para tentar avistar uma sombra do boneco - seu irmão.
A orquestra abriu espaço no meio da massa e ensaiou os primeiros acordes.

Dez segundos para a meia-noite.
Nove: todos os olhares em uma mesma direção.
Oito: todos os corações em um mesmo compasso.
Sete: o ritmo unificado das respirações
Seis: o sangue aos saltos nas veias
Cinco: uma multidão suspensa em um intervalo de tempo
Quatro: Uma fileira der homens fardados em descompasso
Três: ... em descompasso
Dois: ... em descompasso

Um: o Homem, a orquestra, os saltos, os gritos, a euforia e uma fileira em descompasso.
O garoto é lançado em direção à trincheira e um porrete se ergue no ar.
Uma paulada.
Mais outra.
A orquestra, as pancadas, os gritos, um garoto que cai.
Os colegas o recolhem para longe da euforia.

Passa o Homem da Meia Noite.
O garoto não vê.

PS: Esta postagem é baseada no que vi no desfile do "Homem da Meia Noite" neste carnaval. Policiais sem preparo para lidar com multidões, distribuindo pancadas à esmo e espancando pessoas sem necessidade.
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