31 de dezembro de 2013

Reveillon

Todo ano igual: ela sonhava que passava direto do dia 30 de dezembro para primeiro de janeiro.
Nada de reveillon. ,
Nada de champagne, vinho, roupa branca, praia, família, família, família...
Que família?
Aquela que a expulsara de casa quando, aos 17 anos, pegou bucho do filho do patrão?
Por causa da tal família, comeu o pão que o diabo amassou.
Esquinas, becos, hotéis de terceira com velhos, moços, bêbados... dois dentes a menos de um murro, a fome, as dívidas, os agiotas e ela pagando com o próprio corpo os intermináveis juros.
Porra de família!!!
O bebê? Sorte dele que não vingou pra acompanhá-la em seu calvário.
Agora não... desde que conhecera o gringo, sua vida dera uma guinada em direção ao céu.
Casa, comida, gente fina, restaurantes caros... tudo do bom e do melhor. E só o que tinha a fazer era servir de cama e mesa. Manter saciados os vícios do homem e garantir boa comida, casa limpa, roupa asseada.
E manter o silêncio e a compostura. Dentro de casa sem reclamar ou dar opiniões. Balançar a cabeça assentindo para cada dito do esposo. E só.
Mas, de tudo, o mais difícil era o sorriso. Mais ainda em dias de reveillon.
Aquela brancura de gente, o tlim tlim das taças, a mesa bem posta e os sorrisos, sorrisos, sorrisos... tudo isso lhe dava ganas de quebrar tudo.
Sonhava jogando taças na parede, um vidro de champagne destroçado sobre cabeças, o sangue rolando nas faces e ela a gritar todos os gritos sufocados na garganta.
Depois acordava.
Retoques na mesa, banho perfumado, roupa branca, separar as taças e pendurar o sorriso no rosto.
Paciência... o tempo passa rápido. Amanhã já é outro ano.

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19 de dezembro de 2013

De homens e de bichos


Eu nada sei dos ratos
dos esgotos
dos buracos
dos farrapos
imundos
que envolvem
o mundo.

Eu nada sei dos caranguejos
da lama
do lodo
dos canais
putrefatos
onde mergulham
os ratos

Eu nada sei dos pássaros
nas gaiolas
nas prisões
onde não há sonhos
nem desejos
e se abandonam
os caranguejos

Eu nada sei dos jumentos
sua carroça
seu fardo
peso que mata
devagarinho
e arranca as asas
do passarinho

Eu nada sei das baratas
da chinelada
do inseticida
do sangue que esborra
do tormento
olhos que se arrancam
do jumento

Eu nada sei do homem.
Eu nada sei.
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11 de dezembro de 2013

Da solidão

Ela caminha só: pés descalços que se enterram na areia.
Seu olhar absorve cada pequeno ser em seu silêncio.
O rodopio das nuvens a se esfumarem na imensidão azul.
A carreira de um pequeno caranguejo em direção às águas.
O barulho do vento e as ondas que quebram e desatam em espuma.
Não está só.
Cada sombra que lhe penetra os olhos torna-se parte integrante de si.

A moça rodeada de amigos.
Ela sorri, eles sorriem.
Brindam a vida em mil palavras. Mas poucas palavras lhe alcançam o coração.
Ela brinca entre sombras, mas seus olhos vagueiam e, de tudo o que se troca, muito pouco se compartilha.
São tantos os abraços, que ela já não sabe qual deles há de guardar consigo...
E, nas palavras que não disse,
no abraço que não reteve,
nos olhares que não guardou,
cresce o indomável monstro da solidão.

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