16 de junho de 2009

Bordado

As vezes, penso que minha vida vai se bordando por si só.
Uma agulha invisível,
guiada sabe-se lá por que mão,
vai juntando tecidos passados e futuros,
alinhavando memórias,
costurando fragmentos
de tempos que se somam.

Coisas que parecem esquecidas
lá estão, nos fios que se entrelaçam.
As histórias dos pescadores
que um dia aninharam meus ouvidos de jornalista
eu hoje reconto,
até sem perceber,
para os meninos da Biblioteca do Coque.

Meus grupos de teatro -
o Pano de Boca, Tróia de Taipa
e as experiências lúdicas em tempos de Arteviva -
me fizeram atriz das entrelinhas,
a costurar minhas marcas nas dobras do tecido.
Me deixaram eternamente prenhe
de sonhos solidários:
um teatro que se constrói juntos
e que, em sua efêmera passagem,
guarda para sempre nosso rosto.

A literatura de cordel, o jornalismo sindical...
em cada riacho, eu busco a margem,
e meu bordado vai se tecendo no avesso do pano.
Então,
quando penso assim,
convivo melhor com a saudade
e com esta coisa triste
que é ser atriz à deriva,
costurando em outros sonhos
o sonho de teatro de grupo,
para não deixá-lo afogar-se em uma realidade nada coletiva.
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12 de junho de 2009

Presente de namorados

Meu namorado acorda cedo todo dia,
e me desperta com beijinhos,
ou toma conta de nosso pequeno para que eu possa dormir.

Isso é um presente!

Meu namorado vive comigo há quase dez anos
e sempre me deseja,
com um fogo intenso que não arrefece.

Isso é um presente!

Meu namorado não faz de conta que é perfeito.
Tem a leveza das nuvens ou a crueza das pedras,
Mas é verdadeiro e honesto, sempre.

Isso é um presente!

Meu namorado não sou eu.
São outros seus interesses
e ele não finge gostar de tudo que é meu.

Isso é um presente!

Meu namorado toma cerveja comigo
e nos divertimos muito.
Sempre.

Isso é um presente!

Meu namorado cuida de nosso jardim
e planta peixes em nosso aquário.
Por isso eu o amo.
E nosso amor é um presente.
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1 de junho de 2009

Para minha Didi-inha

Quando pequena,
tinha pesadelos horríveis,
com sombras aterrorizantes que a seguiam em escadas e porões.

Quando pequena,
via coisas que ninguém vê
e objetos que se mexiam, sozinhos, à sua frente.

Quando pequena,
não gostava muito de estudar,
tirava notas baixas enquanto suas irmãs tinham lindos boletins.

Quando pequena,
era gordinha e morena,
enquanto elas eram alvas e esguias.

Perseguida por todas aquelas sombras,
ela não conseguia perceber
que sua inteligência era criativa, e não se prendia em notas de boletim
que sua beleza a diferenciava em seus olhos expressivos;
contrastava com a magreza branquela das irmãs.

Ela cresceu, mas as sombras cresceram com ela.
Ela cresceu, mas continuou sem conseguir enxergar a si mesma.
Ela cresceu,
e quando as sombras indizíveis não a atormentavam,
ela passou a se ofuscar sob as sombras de amores.
Não conseguiu, contudo, achar o amor dentro de si.

Ah, minha menininha grande,
põe os óculos da auto-estima e expulsa de vez estas sombras que te perseguem.
Estarás sempre cega se colocas nos outros teus olhos.
Estarás sempre triste se deslocas para os outros tuas razões de ser feliz.
A felicidade é um vagalume bem pequenino,
e, quando acende, alumia as coisas mais simples.
Mas é preciso ter olhos para enxergar o seu brilho.
Então, didi-inha, trate de procurar os teus.
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