27 de novembro de 2012

Ascensões e quedas da esperança...

Há outras ordens por aí, acredite!
Outros espaços, outros tempos, outros mundos.
Há um menino que joga pião e sorri.
E seu sorriso ilumina a esperança.
Mas há Os tanques nas ruas, acredite!
as milícias, os homens de capuz...
há fantasmas que clamam por Justiça
e o silêncio sobre a morte
assassina a esperança.

Mas há os gritos das mulheres,
há o grito,
da mãe que foi privada de seu filho
e o sangue genocida semeou as almas
e este grito alimenta a esperança.
Mas há os programas de Tv e as novelas
a impor a mesma ordem,
o mesmo mundo
os mesmo seres autômatos cordiais
em uma repetição que fuzila a esperança.

Mas há as vozes dissonantes, acredite!
dos Mcs, dos rappers, da outra mídia.
e se derrubam um corpo, dez ou cem...
cada morte liberta vozes estranguladas
e os sussurros que não saem na TV
estes sussurros vão nutrir nossa esperança

Poema feito durante o 18º Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação. Meu carinho e homenagem a Vito Giannotti e Cláudia Santiago; a todos os palestrantes; a Débora Silva do grupo Mães de Maio; aos meninos de Santa Marta... A foto eu peguei emprestada do Repper Fiell: uma vista do Morro de Santa Marta à noite...
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7 de novembro de 2012

Meu tempo não é este!

Assisti a entrevista de Mia Couto no Roda Viva.
Disse ele: "Há vários Moçambiques dentro de Moçambique".
Também nós temos vários Brasis.
Vários espaços e tempos diferentes que convivem em um mesmo território.
Mas há um tempo que tenta engolir os demais.
Um tempo que tudo atropela, que tudo devora, um tempo voraz.
Um tempo que não é o meu.

Falo do tempo-espaço desta modernidade dita progresso.
Este mundo em que somos todos mercadorias. Ou, no máximo, consumidores. E nada mais.
Este lugar onde reinam as rodovias largas: de praças desertas, grandes prédios e muros, crianças que brincam sós.
Este tempo de grandes obras para pouca gente e muita gente carente de obras básicas - como escolas e postos de saúde.

Como lobo feroz, e atroz, ele engole tudo o que não consegue ver: o que é pequeno, simples, o que é invisível para o mundo do consumo.

E lá se vão vilas inteiras, em que os velhos sentavam nas calçadas. Lá se vão as crianças que ainda brincavam de pega-pega e pião. Lá se vão as mulheres conversadeiras, os mercadinhos comunitários, as carroças pelas ruas, as roupas esticadas no varal... Vão transferidas para prédios-caixão, e lá enterram suas lembranças.

Cresci em uma rua onde as crianças corriam de bicicleta, os meninos jogavam bola na praça, os jovens tocavam violão nas calçadas... Continuo na mesma rua. Mas a rua não é a mesma.

Ao invés das casas onde vizinhos se encontravam e as meninas visitavam umas às outras, há escritórios e mais escritórios. Ao invés das bicicletas, os automóveis tomam as ruas, congestionando e transformando em estacionamento cada lugar onde os jovens sentavam para serenatas.

Não. Meu tempo não é este. E estou me sentindo náufraga em uma ilha plantada em mar infinito... (Na foto, moradores de Vila Oliveira, no Pina, protestam contra ação de despejo. Com JC Imagem)
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8 de outubro de 2012

As eleições da desesperança

Desde que me iniciei como eleitora, e antes até, vivi cada eleição como um tempo de alegria. E esperança. Mesmo quando meus candidatos não tinham chance nenhuma... nem assim deixávamos de acreditar. E as ruas se pintavam de vermelho: em bandeiras, camisas e estrelas. E ganhavam outras cores também, de pessoas que acreditavam diferente e cantavam, buzinavam e se provocavam em uma disputa ávida, mas saudável e feliz.

Esta foi a eleição mais triste que já presenciei. O colorido cedeu lugar ao cinzento que tomou conta das ruas desertas. Até o céu perdeu o azul e nublou o dia inteiro, sombreando a utopia. Fez-luto pela morte da esperança. Uma morte que se expressa, também, em números: 16,38% de abstenção; 4,57% de votos brancos; 4,81% de votos nulos. Enfim, a desesperança foi a segunda mais votada na cidade do Recife.

E, ao menos de minha parte, ela assim continuará, morta e enterrada, enquanto não se mudar a legislação eleitoral. Não acredito mais no poder das urnas, que elegem quem tem dinheiro e aliados poderosos. Não acredito mais que qualquer mudança possa vir das esferas eleitorais.

Quero crer que este novo ciclo, que ora se inicia na cidade, não seja uma viagem de retorno. Vejo PT e PSB tão juntinhos do velho PMDB que parece-me que, ao chegar ao cume da montanha, vamos dar meia volta ao invés de construir a ponte que leva ao lado de lá.
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13 de setembro de 2012

Os perigos do discurso do bom gestor

Andei me eximindo de falar sobre eleições.
Frustrações sucessivas me derrubaram e preferi guardar as palavras.
Hoje, decidi romper o silêncio, precupada que estou com este discurso do bom gestor.
Este papo de "foi fulano quem fez", essa conversa de "competência administrativa"... tudo isso foi, sempre, o discurso da direita.
Cabe para Mendonça Filho. Ou para Daniel Coelho que ainda tem a ousadia de proferir a velha lábia como se fosse dita pela primeira vez...
Mas o drama, que me fez romper o silêncio, foi a constatação de algo que eu apenas supunha: este discurso invadiu sindicatos, movimentos sociais, partidos de esquerda... que vão, pouco a pouco, se esvaziando de seu conteúdo político.
Quem toca uma prefeitura, ou governo, não é apenas administrador. É alguém que foi escolhido pelos demais por suas opções políticas.
Estar ao lado das grandes construtoras, em detrimento dos habitantes das favelas, é uma opção política.
Delegar à iniciativa privada a responsabilidade pela administração dos hospitais públicos é uma opção política.
Prover o desenvolvimento industrial e econômico e relegar a segundo plano o desenvolvimento social é opção política.
Gerir a educação com metas e imposições, em vez de apostar no diálogo, é opção política.
Presentear as construtoras e uma elite privilegiada com as áreas mais belas da cidade é uma opção política.
E todas estas opções já foram feitas pelos vários lados em disputa nesta eleição.
Não vou votar nulo. Quero que o PT tenha a chance de resgatar o vermelho de sua bandeira e honrar seu nome: Partido dos TRABALHADORES.
Mas lanço este clamor aos militantes, aos movimentos sociais, aos partidos que já foram de esquerda:
- Estamos fazendo tudo errado!
É preciso voltar para a base, para as comunidades, para o meio da sociedade.
É preciso reocupar estes espaços dos quais nos ausentamos e que, abandonados, passaram a ser ocupados, e muito bem, pelo discurso extremista das igrejas evangélicas.
Ou fazemos isto ou corremos o risco de ver a história se repetir.
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30 de agosto de 2012

A menina que não dormia

Não dormia.
Via apagar-se cada luzinha nos prédios que se postavam em sua janela.
Ficava só. Em companhia das vozes que escapavam da TV, que continuava ligada sem que ela sequer lhes pressentisse os significados.
Então cansava e apertava o botão.
Da TV.
E ouvia o silêncio.
Um carro que passava nas ruas vazias.
O latido de um cão.
O vento chacoalhando a janela.
Então, de repente, ganhavam vida os pensamentos.
Falavam como loucos em sua insônia.
Enchiam-lhe de gritos, privavam-na do silêncio...
De todos os subúrbios de sua alma, chegavam-lhe lembranças, pavores, tristezas, saudades.
E ela já não estava só.
Rodeada de sombras, tentava inutilmente reencontrar a solidão.
E, num esforço último de se livrar das vozes, ligava a TV.
Deixava-se embalar por um programa qualquer, o mais patético possível.
Então dormia. Mas já era hora de despertar...
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23 de julho de 2012

Palco Vazio

A solidão é o fato.
Ninguém
jamais
saberá
o que guardas por trás do sorriso.

Aos amigos
poderias tecer narrativas.
Mas da corda que te aperta a garganta
ninguém
jamais
saberá a dor

E o salto que te leva ao abismo
ninguém nunca experimentará por ti.

A solidão é o fato.
Ser humano é ser sozinho
ainda que cercado de amigos
ainda que coberto de graças

No picadeiro do mundo,
plantas sorrisos
que não são teus
e quando despencas no oco da cena,
resta só o vazio.

Da solidão
e da saudade.

(Homenagem ao ator Bobby Mergulhão)
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18 de julho de 2012

Rastros de Joseph Lingua

Fragmentos de impressões causadas pelo livro, de Pedro Américo de Farias, "A viagem de Joseph Língua":

... essa conversa sem eira nem beira papo ébrio sem começo meio ou fim somente passagem
passagem
passagem

brincadeira de sons e línguas desta gente de por aí e o olhar que as atravessa empurrando-lhe a faca na alma e desfazendo-as em palavras

mil e uma veredas que se encontram e desencontram nesta estrada nossa de cada dia amém

tudo e todos um cão uma rua um bar um beco um homem mil personas tudo e todos no imenso liquidificador da vida triturado moído e jogado ao vento semeando linguagens

a poesia
meio sonho meio sanha meio sina que insinua que assassina que se assanha e salta em cima
neste lugar
que é outro
fugaz
feroz
foice foi-se
desencontrou-se de si

este si
este sinal de pontuação
o ponto a marca a nossa exclamação
e a república império monarquia cria de monstros e deuses à caça de votos latifúndios desertos destinos ciganos para marcar à ferro

e eu rio
um rio de impressões deslocadas e sombras desconexas

e algumas coisas mais que se perderam em meus atalhos

e ponto. nunca final

(O livro "Viagem de Joseph Lingua", de Pedro Américo Farias, foi publicado pelo Ateliê Editorial e está à venda nas livrarias. Eu recomendo.)
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11 de julho de 2012

Murmúrio de flores

Guardo, de minha tia Jota,
a lembrança de um perfume
vestígios de flores em seus cabelos
e uma voz baixinha
uma reza mansa
como murmúrio de brisa na beira do mar...

Guardo, de minha tia Jota,
a lembrança do gosto pelos livros
que seus olhos já não podiam ler...

A vida foi dura para ela:
cobriu-lhe com o escuro
e a solidão.

Hoje,
aos 97 anos,
ela pôde, enfim, descansar.
Então, fez-se luz em seus olhos
e um cheiro de jasmins varreu a minha casa.
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26 de junho de 2012

A florzinha de meu jardim


Há dez anos,
uma alegria grande fez cócegas em minha alma.
Minha semente brotou:
agitada,
ramos que procuram o sol.
Cresceu apressada,
driblando quedas,
quebrando dentes,
treinando em trelas a fantasia.
Deitou suas ramas e fez-se logo em arvoredo:
menina quase moça,
que não quer mais boneca
não quer mais brinquedo.
Mas que será, para sempre, a florzinha de meu jardim.
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12 de junho de 2012

A lua e o menino


Antes mesmo de aprender a ler, o menino-poeta já lia as coisas da vida. Seus olhinhos miúdos brilhavam ao som dos poemas. E as mãozinhas franzinas desenhavam anjos e asas, enquanto ele contava histórias de amor. O menino-poeta tinha o coração cheio de flores. E, antes mesmo de aprender a ler, sua alma já sofria do encantamento das palavras.

O menino-poeta costumava nos visitar em nossa casa de livros. Procurava sempre a mesma estante, o mesmo canto, o mesmo livro: “- Cadê aquele, da lua?”.

Depois, desenhava. E, em seus desenhos, os bichos, estrelas, monstros, anjos e dinossauros estavam sempre em par, vivendo um romance muito especial.

De tanto nos visitar, o menino aprendeu a juntar letras e sons. E, de tanto juntar letras e sons, o menino aprendeu palavras. E, de tanto juntar palavras, aprendeu os livros. E no jardim de seu coração, uma nova flor nasceu.

Ah!!! Mas, se o coração era um jardim, a vida do menino-poeta era um deserto imenso. E o sol não abrandou com a descoberta da leitura. A poeira cegou seus olhos e o chão árido secou seu roseiral. Ele não era uma criança comum: era um menino-poeta com alma de flores. Mas ele não era uma criança comum, que brinca e estuda e lê e joga bola. Era um menino que tinha que trabalhar.

Na casa do menino não havia lugar para poemas nem flores. A mãe, que já tivera estrelas nos olhos, desaprendera a acalentar o coração. Tinham-lhe dito que para sobreviver há que matar as flores e os sonhos. Ela acreditou.

Agora, já não havia ternura em seus olhos e seu coração era uma pedra só. E, cumprida a função da descoberta da leitura, os livros já não serviam ao seu menino. Seu lugar não era em nossa casa de leituras. Ela precisava dele para secar as flores que ainda teimavam em resistir. Era preciso ficar longe dos sonhos e perto da vida real. E a vida era uma caixa de bombons que ele não podia comer. Um chocolate amargo, um chiclete azedo, que cobrava um preço alto demais.

E o menino deixou de visitar nossa casa. E o menino começou a murchar. Magrinho como já era, foi definhando ainda mais. Seus olhos já não brilhavam, como se lhe tivessem arrancado estrelas do céu. O menino ficou quase invisível, como se as cores do arco-íris tivessem fugido para sempre. Então choveu. Choveu muito, todas as noites. Como se, lá no céu, a lua chorasse um pranto sem fim.

Então a lua se vestiu de gente e decidiu que era a hora de visitar o menino. Levou consigo os livros-poesia. Bateu na porta. Pediu para entrar. A mãe fez cara feia, olhou de banda... mas não era mulher de espantar visita. E a lua entrou com suas poesias.

E a lua leu. E leu. E leu. E viu que os olhos do menino já eram uma fogueira em chamas. E o melhor: também na alma da mãe, um restinho de cinza ardeu.

Desde então, a lua sempre visita aquela casa. Filho e mãe continuam na labuta, sempre. Mas há um vasinho de flores na janela. E, quando sobra um tempo, eles lêem juntos a estrofe de um poema levado pela lua.
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5 de junho de 2012

Canção para Laurinha


Teu ventre, minha irmã,
é jardim de pouso de anjinhos apressados
tão puros
tão lindos
tão iluminados
que suas almas sequer tocam o chão...

eles se nutrem de teu amor e alçam vôo
asas abertas na imensidão...

Teu ventre, minha irmã,
deve, então, ser um campo de flores
tão lindo,
tão puro,
tão cheio de amores
que atrai estes anjos, pássaros de luz

eles se nutrem de tua alma e alçam vôo
e a liberdade deles é a tua cruz...
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17 de maio de 2012

A queda das estrelas

João era professor e adorava ensinar. Dava aulas de história e tinha um jeito todo especial de falar daquilo que aconteceu antes de nós.

Paulo tinha 12 anos e detestava estudar. Queria mesmo era jogar bola e, vez em quando, dava um jeitinho de escapar da aula pra bater pelada.

Todas as noites, João ficava até altas horas planejando como seria a aula do dia seguinte. Tinha mil ideias: de histórias, trabalhos, jogos e desenhos.

Todas as noites, Paulo dormia chateado porque não tinha tempo de brincar. Chegava da escola, ia ajudar a mãe na venda. A casa era apertada pra brinquedos e a rua não tinha espaço pra futebol.

Na Escola Matricó, estudavam muitas crianças como Paulo. Lia não conversava com as amigas da rua porque tinha que lavar, arrumar e passar.

Maria Clara não podia escutar as músicas nem ver os vídeos do celular. Tinha que cuidar de seu irmãozinho pequeno.

Ricardo não fingia de super-herói nem batia bola com os amigos. Era preciso vender frutas na feira.

No dia seguinte, lá estavam todos eles, na Escola Matricó. E queriam brincar o tanto que não brincavam fora dela.

Mas havia as aulas. Ai... as aulas. Como, por exemplo, a do professor de história, João. Em vão, ele tentava fazer aquilo que planejara. Ninguém ouvia as histórias, ninguém desenhava os mapas, ninguém entrava nos jogos, ninguém fazia as pesquisas.

João precisava gritar. Gritos e gritos se acumulavam na sala. Ninguém se ouvia. Ninguém ouvia.

João saía triste da escola. Achava que era ele que não sabia ensinar. Fracassara em seu maior sonho. E, a cada dia, seus olhos perdiam um pouco do brilho que tinham. João definhava.

Começou pela voz. Tantos os gritos, que um calo formou-se em suas cordas vocais. E cresceu, irritou-se, tomou-lhe a voz, que adquiriu para sempre aquela rouquidão sombria.

Então, a alma do professor rachou de cima até embaixo. Nada além da tristeza lhe restara. Suas ideias, que iluminavam-lhe a vida, caíram terra abaixo. Não havia mais estrelas no seu céu.

Foi afastado por doença o professor João. A diretora procuraria substituto. Mas, enquanto isso, seu horário de aula ficou vago, livre para brincadeiras.

No começo, Paulo achou bom demais. Jogava bola, conversava, brincava com os amigos. Não precisava estudar.

Com o tempo, foi lhe dando um aperto no peito. Uma espécie de saudade de quando o professor João sabia sorrir. De quando ele contava histórias e propunha jogos e pesquisas. Mas o professor João já não podia ensinar.

Paulo deixou de brincar na hora das aulas. Cresceu, fez pedagogia, tornou-se professor. Mas, ainda hoje, de vez em quando, ele lembra das estrelas que se apagaram dos olhos do professor João. E faz questão de que seus dois filhos tenham muito tempo para brincadeiras, para que aprendam, também, a hora de parar.
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14 de maio de 2012

... de como derrotar a arrogância

A fera rugiu
rugiu
rugiu
fez cara de mau
e soltou fogo de dragão
mas de baixo da terra,
milhares de serpentes
cavaram o fosso que enterraria o leão.

A fera rugiu,
rugiu
rugiu
fez cara de mau
e pisou forte no chão
mas mansas e rastejantes,
vieram as cobras:
três picadas apenas
e era uma vez um leão.

A fera rugiu
rugiu
rugiu
achou que a vida
amedrontaria
que a cobra, ferida,
pra longe rastejaria.
Lançou o seu berro
e fez cara cruel
então as três cores que tingem a esperança
outra vez venceram o leão da arrogância
de preto, branco e vermelho coloriram o céu.
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24 de abril de 2012

Zummmmmmmm!...

A metrópole me arrasta sob as rodas
Sou cão manco
no cruzamento da avenida

Passam os carros
e, como folha de jornal
Zummmmm
Zummmmm
lá se vai minha vida...

Mistura-se à fumaça do automóvel
à poeira das ruas
à lama
ao asfalto
Mistura-se ao vento
e sobe
Zummmmmm
para o alto
para o firmamento

A metrópole me ofusca sob as luzes
Sou marinheiro cego
a buscar o farol
Roubam-me as estrelas
e, como avião perdido
zummmmm
zummmmm
sigo tonta em direção ao sol...

Misturo-me à fumaça das estrelas
poeira de nuvens
constelações
cometas
Minha alma em desaprumo
sobe
Zummmmm
para outros planetas
para outro rumo

A metrópole me cansa e me encanta
Sou pisca-pisca
em noite de Natal

Acendo,
apago
assassino
afago
zummmmmmm
zummmmmmm
mergulho no canal

Limpo-me na água dos esgotos
na lama dos mangues
merda dos aterros
submerjo e subo
zummmmmmmm
para outras fossas
e outros enterros

A metrópole é o meu avesso
sou um verso
na Torre de Babel

Quero o campo
o silêncio
a palavra perfeita
zummmmmmm
zummmmmmm
Eu quero o céu!
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20 de abril de 2012

Tantas águas...

O que me doi não é que as palavras tenham voado de meu alcance. Quem me dera o silêncio... Só o silêncio, mais nada. São tantas as minhas vidas e meu tempo é só um eu já não caibo em mim e me espalho em salas de aula bibliotecas crianças e me esparramo em histórias teatros esperanças... Tantos lugares percorro que já não sei onde estou. E, ausente de mim, distante das palavras. Mas o que me doi é este excesso, que não me permite olhar o que cala.
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7 de março de 2012

... sem pressa.

Era velho.
Cada ano uma marca, uma ruga, um sinal.
E tantas as dobras que os olhos espremiam-se nos traços do rosto.

Era velho.
E tinha, no entanto, todo o tempo do mundo.
Cada gesto, cada fala, cada movimento executava-se em câmera lenta, para desespero nosso, os que correm demais.

Ele não.
Não corria.
Observava a vida com olhos atentos: uma hora inteira a aspirar a beleza da praça.

Era velho e os adultos passavam longe.
Mas as crianças não.
Chamavam-no de vô e vestiam-no com chapéu de jornal.
Ele sorria e brincava, sem pressa, a sorver da infância a alegria.

Todas as tardes, sem falta, ele ia à praça.
No mesmo horário, em seu passo lento.
Sentava no mesmo banco.
E olhava.

Um dia, meu filho sentou-se ao seu lado.
E, como outras crianças, iniciou com ele uma conversa de iguais.
No fim do papo, lhe ofereceu uma pergunta:
- Vô, o que você tanto olha todos os dias?
O velho parou, pensou, sorriu.
Lentamente, voltou-se para olhar o menino. Com sua voz rouca e sem pressa, falou:
- Eu olho o que, antes, esqueci de olhar...
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24 de fevereiro de 2012

Olhos tristes


O poema abaixo é da professora Risoneide Alves.
Riso, como a conheço, não é apenas uma educadora. É alguém que ama cada um de seus alunos. E que tem por seu ofício uma dedicação imensa.
Lá, na cidade de Timbaúba, ela reinventa a vida para dezenas de crianças dos sítios mais esquecidos e das comunidades mais carentes.
A professora Riso escreveu este poema para a pequena Vanessa, uma de suas alunas, destas que tem a vida marcada pela solidão, pelo abandono, pela aspereza da realidade.
Durante alguns dias, e graças à sua professora, Vanessa conheceu um mundo diferente. Escreveu poesia e pensou que poderia ser também uma professora ou, quem sabe, trabalhar no Instituto Ecofuturo. Durante alguns dias, Vanessa se percebeu como de fato era: linda, de corpo e alma.
A professora Riso conheceu de Vanessa a tristeza. Nós conhecemos apenas a doçura de seu sorriso. Eis o poema de quem sabe de Vanessa muito mais do que nós:

"Olhos tristes
Pensantes na vida
Vida marcada na dor
Olhos vibrantes,
Sem cor...

Olhos tristes
Ansiando atenção
Puros, ainda, nesta lama
Que navega um corpo
Carregado de emoção.

Olhos tristes
Capuzes da alma limpa
Que triste sina carregas
A vida que te moveu ao sofrimento
Quis-te feliz por pouco tempo! ...

Tempo curto
“Vida imensa”
Corpo pequeno num mundo de dor

Caminho desfeito na ida
Na hora certa
No dia determinado,
Ponto certo da partida

Olhos tristes,
Tristes por resgatar
A dureza da tua vida..." (Risoneide Alves)
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12 de fevereiro de 2012

Um anjo que voou


Por que???
Se Deus existe, porque leva os anjos pra outras estrelas?
Porque não os deixa mais tempo por aqui, para dar exemplos ao mundo?
Seu nome era Vanessa, e tinha a delicadeza dos anjos.
Doze aninhos apenas e as mãos cheias de abraços.
Conhecê-la foi o maior presente que recebi do Ecofuturo: menina doce, a falar de um mundo feito de carências, mas pleno de afetos. Em seu casebrezinho, isolado em um pequeno sítio na área rural de Timbaúba, ela descobria as letras.
Era o encanto de sua professora, a dedicada Risoneide. Era o único bem de sua mãe, dona Josefa. E um bem tão precioso que encantava a todos que a conheciam.
Porque Vanessa era, de fato, um anjo.
E assim como veio, partiu, sem dizer como nem porque.
Talvez tenha ido levar sua luz a outros mundos...
Mas e o nosso, como fica agora, que lhe roubaram uma estrela tão encantada???
Fez-se um oco no meu coração!!! E eu, que deixei a rotina me atropelar, e não lhe mandei sequer uma cartinha...
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2 de fevereiro de 2012

Postagem para um dia de enxaqueca



Desatarrachou a cabeça e guardou na gaveta.
Livraria-se, assim, de três coisas:
- a enxaqueca,
- os pensamentos,
- as lembranças.
Estranho ninguém ter percebido a ausência.
O que restava era apenas o corpo.
Mais nada.
O corpo dormia, acordava, comia, trabalhava, e não sei bem por que boca, até mesmo dava bom dia.
Mais nada.
Mas a cabeça, trancada na gaveta, não parava de pensar.
E, de tantos pensamentos, a gaveta pesou.
Muito.
E a escrivaninha inteira desabou, deixando rolar a cabeça pelo chão.
Quando o corpo chegou, as mãos viram os olhos.
E os joelhos pressentiram os pensamentos.
E os pés vislumbraram as lembranças.
O corpo retomou a cabeça.
E tudo voltou ao normal:
pensamentos,
lembranças...
e enxaqueca.

(Imagem de Salvador Dali)
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11 de janeiro de 2012

Menina sementeira



Primeiro, foram as sementes:
ternura tecida em letras,
em histórias,
em poesia.
Então me dei conta da flor:
bordada em sensibilidade,
leveza,
alegria.

Os frutos ficam por aí,
nas trilhas do mundo,
no caminho das gentes,
onde quer que tenha passado
a menina das sementes.

E os frutos são tão doces
tão maravilhosos
tão tão tão...
que até as almas mais áridas
caem em tentação.
E, depois de digeridos,
tais frutos deitam sementes
no coração.

Para Magníssima, menina sementeira.
Confiram suas sementes em: http://sementeiras.com.br/
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