20 de agosto de 2009

Vaso de cristal

Um dia,
quebrei o vaso de cristal de minha mãe.
Erro fatal.
Travessura sem perdão.
Eu era adolescente ainda.
Embora soubesse que cometera um deslize,
não sabia a dimensão de meu tropeço.

Fugi de seus gritos.
Fugi de mim mesma.
Fugi.
Não podia vê-la desabar seu desespero sobre mim.
É que era minha mãe, ela própria, aquele vaso de cristal.

Ninguém diria que por trás daquela mulher independente,
segura,
dona de si mesma,
havia uma menina com sonhos de princesa em seu castelo.
Eu, então, também não sabia.

Então punha os pés sujos sobre o sofá.
Deixava marcas na porta de vidro.
E desfazia em bagunças a casa habitada por sonhos de cristal.

Havia uma saleta de sombras,
janelas e cortinas cerradas.
(Para não queimar os quadros - ela dizia)
Aquele espaço, desabitado, reservava-se a visitas.
Que nunca vinham.
E o carrinho de finos licores envelhecia,
esperando ilustres convidados,
para festas de ilusão.

Um dia,
não sei exatamente quando,
minha mãe decidiu acordar.
Ela não juntou os cacos do vaso quebrado.
Tampouco o substituiu.
(Vasos de cristal não se colam, nem substituem)
Minha mãe acendeu as luzes da saleta.
Abriu as janelas.
Olhou a vida lá fora.
Depois deixou o castelo,
e viu que o mundo de verdade também pode ser bom.
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18 de agosto de 2009

Dedos de fuzil

Pei! Pei!
A criança com dedos de fuzil.
Granadas no coração.
A morte passeia seu manto sobre nossas favelas.
E por trás dos muros, ninguém vê.

Um rastro de sangue invade cada barraco.
Silenciosamente.
E se aloja sob os cadáveres do futuro
e da esperança.

Nestes escombros a morte faz sua morada
e se projeta
das palavras que não são ditas,
dos gritos que não são ouvidos,
das letras que não se lêem.

Pei! Pei!
A criança com dedos de fuzil.
E um olhar que implora por salvação!...
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9 de agosto de 2009

Assassinato da esperança

O jogo acabou há quase duas horas.
No entanto,
cada vez que fecho os olhos,
escuto,
com meu corpo inteiro,
um coro de 30 mil vozes que gritam:
- Ah! Eu acredito!!!

E o meu coração me soca por dentro,
Meu sangue ferve
e me seca a alma de esperança.
Faz-se um deserto em mim.

Futebol não é uma bobagem.
Futebol é a metáfora do mundo.
As 30 mil vozes,
a empurrar seu time até o último segundo...
As 30 mil vozes,
mudas,
roubadas de si mesmo,
testadas em sua fé e em sua força...
Estas 30 mil vozes são um retrato do Brasil.

A vida não é justa.
O mundo não é justo.
O futebol não é justo.

Aos excluídos,
aos rebaixados,
aos da série D,
o que resta é uma esperança desnutrida,
magra,
carcomida,
espancada a cada tentativa de reerguer-se do chão.

Escrevo para que minha tristeza escorra em palavras
e não ajude a matar esta que já está no chão.

Porque futebol é uma metáfora do mundo. E o mundo não é justo!!!

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