21 de novembro de 2007

Poema desenterrado

Já não sei fazer poemas. Mas um dia o fiz. Hoje, desenterrei por acaso, no fundo do baú de meu computador, um arquivinho sem título, de um tempo em que poetei. Fica o registro:

Estou suspensa sobre um abismo de fogo
não posso olhar o céu não posso olhar o chão
Estou suspensa sobre a boca do inferno
Tenho sangue nos olhos e nas mãos
Uma corda atada na garganta
e uma serpente negra a me engolir os véus
Estou suja estou presa estou marcada
a vítima e a criminosa no banco dos réus
Tirei os sapatos e enchi os pés de lama
nunca mais poderei voar
Enverguei as asas em meu próprio chumbo
e estou me afogando em meu próprio mar.
Crivada de setas e de lanças
minha alma só exala veneno
Meu amor não cura meu amor só mata
meu amor sufoca em um peito tão pequeno
Sufocada em meus plurais e labirintos,
eu sou Fedra condenada a perdição
Afrodite, me poupes de teus crimes!
sou cruel escrava do excesso de paixão
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19 de novembro de 2007

Pobreza tem cor

Algumas perguntinhas para você, de classe média, que diz que racismo não existe no Brasil:
- Na escola de seu filho, quantos negros estudam?
- E na faculdade onde você se formou, quantos havia de cor preta?
- Nos bancos onde você guarda ou já guardou seu dinheiro, quantos gerentes dessa etnia?
- E nos restaurantes que você frequenta, eles sentam à mesa, junto com os clientes? Ou estão na cozinha, a preparar o peixe e lavar a louça onde você comeu?
- Nas historinhas que você lê para seus filhos, de que cor são as princesas e príncipes?
- E nas novelas que você assiste, quantas vezes eles são mocinhos ou heróis? E quantas vezes eles estão nas cozinhas, servindo alegremente a sopa do patrão?

Agora, pergunto:
- Entre os que morrem assassinados, pela guerra do tráfico ou pela "limpeza" nas favelas, quantos são negros?
- E qual a cor da maioria das empregadas domésticas? Ou dos meninos que tentam lavar, quando você não os espanta, o pára-brisa de seu carro?
- Qual a cor das crianças que dormem no gramado do Canal de Setúbal, por onde você passa quando vai para seu apartamento na praia de Piedade?
- De que cor é a pobreza no Brasil?

Eu vos digo que a pobreza tem cor. Eu vos digo que os negros libertos foram condenados à ela. E que não basta força de vontade para escapar a isso. Por mais que diga o contrário a revista que você lê. É preciso consciência de guerreiro. É preciso guerrear, todos os dias! E as armas são a palavra, a arte, a educação de nossas crianças.
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A descoberta da leitura

Ela ainda tateia as letras.
Cada um daqueles sinaizinhos é uma mágica, uma descoberta.
Ela junta o quebra-cabeça. Tropeça nas palavras. Se irrita. Recomeça.
Troca o d pelo b. O m pelo n.
Não entende o que, em verdade, é difícil de se explicar: por que o c, perto do e ou do i, tem som de s? Para que serve o h, uma letra que não tem som algum?
Ela ainda não entende os dígrafos e mil e uma coisinhas mais...
Mas com que prazer, com que vontade ela brinca com as letras!... Como se fosse, cada uma, um brinquedo especial.
Quando a vejo assim, tão alegre na descoberta da leitura, sei que estou no caminho certo. Sei que minha filha há de crescer com a alquimia das palavras em seu coração.
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