30 de dezembro de 2008

Roda da vida

Gira a roda da vida...

o tempo é nosso consolo
e nosso destempero
tudo se refaz e desfaz
na esperança
ou no desespero.

Eis que tudo se revela
em seu contrário
alegrias e tristezas
conquistas e perdas
real e imaginário.

As colheitas,
as semeaduras,
o que nasce e o que morre,
as coisas passadas,
as coisas futuras.

Gira a roda da vida.
Adeus, 2008!
Bem vindo 2009!
Que o tempo se re-vele,
e se re-nove.
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29 de dezembro de 2008

Salve, Via Sat

O show de Via Sat é mais que uma apresentação. É uma cerimônia!
Pácua não canta sozinho.
Ele traz consigo todas as vozes de Peixinhos.
Ele reverbera o canto de uma gente que faz da cultura sua arma.
Que ocupou com a arte um velho matadouro,
e lá assentou sua música,
sua dança,
sua biblioteca...

Pácua canta com alegria.
Ele traz à cena o entusiasmo dos que fazem da cultura sua resistência.

O show de Via Sat é uma congregação!
No palco se reúnem todas as vozes ativas da periferia.
Peixinhos. Alto José do Pinho. Morro da Conceição.
Coque. Coelhos. Alto do Pascoal.

O show de Via Sat é uma celebração!
A celebração do orgulho de nossa música,
de nossa cultura,
de nossa gente,
de Pernambuco.

Salve, Pácua! Salve, Peixinhos!
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15 de dezembro de 2008

Conto de Natal

Era uma vez um menino chamado Paulo.
Paulo tinha 14 anos e odiava o Natal.
Odiava as luzinhas, o Papai Noel, os enfeites, e tudo o que tivesse a cara do Natal.
Paulo não ganhava abraços em dias de festa.
Não tinha mãe, nem pai, nem avós.
Apenas uma tia que lhe cuidava, mas não abraçava, nem sorria.

Desde que aprendera a escrever, mandava cartas ao Papai Noel.
Mesmo hoje, quando já sabia inútil.
Pedia bicicletas, vídeogames, e todos esses presentes caros que passam na televisão.
Recebia um velho peão, uma bola meio furada, ou um trenzinho com uma roda a menos.

Era mais um dia de 24 de dezembro e Paulo estava de mau humor.
Não falou com a tia, não disse nada. Resolveu passar a noite na rua.
Estava frio e escuro.
E, como distração, o menino começou a riscar fósforos, de uma caixa que guardava no bolso, como ameaça de cigarros.

No primeiro risco, fez-se um clarão.
E, no meio do clarão, Paulo viu uma mesa farta, de comidas e bebidas, doces e salgados, toda espécie de guloseimas que um menino de 14 anos, com fome, pode desejar.
E o clarão apagou-se. Restou o escuro da rua.

Paulo acendeu mais um fósforo.
Viu brinquedos de todos os tipos, todos os que passam na televisão.
Novo fogo, ele viu roupas novas, tênis da moda.
E um a um, foi riscando os fósforos, até que restou apenas um.

Quando o último clarão se fez, Paulo viu uma menina,
criança, pretinha, cabelos encaracolados.
A menina pegou-o pela mão e o levou, pelas ruas.
E levado pelas mãos da criança, Paulo chegou em casa. Espiou.
Lá dentro, viu a tia, que chorava.
Tinha um pedaço de papel nas mãos.
Chorava.

Era a carta que Paulo enviara ao Papai Noel, o menino reconheceu.
Espiava.
Viu a tia buscar um presente, carrinho velho, de cores gastas.
Viu a tia pegar um papel, de presente, amassado, meio rasgado pelo uso.
Viu a tia embrulhar o pacote.
A tia que contava as moedas.
Que ia ao açougue, levando nas mãos os últimos tostões.
Viu a tia comprar o pedaço de galinha, e levar ao forno, e preparar a mesa.
E esperar, lágrimas nos olhos.

Paulo descobriu na tia o Papai Noel.
Quando olhou para o lado, a menina já não estava.
Paulo abriu a porta e,
pela primeira vez,
em catorze anos,
abraçou a velha tia.
Choraram juntos, durante vários minutos.
Comeram juntos.
Dormiram juntos.

E o menino descobriu que era ele quem não abraçava,
nem sorria.
E ganhou, aos 14 anos, seu melhor presente.

(baseado na fábula "A pequena vendedora de fósforos", de Andersen)
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2 de dezembro de 2008

Solidariedade

A chuva arriou inteira do céu.
A terra desceu dos morros, encheu o mundo, cobriu as telhas.
Os homens se fizeram caranguejos em seus lares de lama.
Verteram pás,
tentaram o desenterro.
As casas desceram na corredeira dos rios,
as roupas, os móveis, memórias e sonhos...
foi-se tudo, numa lavagem imensa,
como se o céu cobrasse um recomeço.

A tempestade de lágrimas saiu na TV.
Inundou outras terras,
as terras de quem morre tragado pelo sol.
E a menina, seca, chorou sem lágrimas
e tirou o raro de si
para mandar de presente aos homens ilhados.

A terra, das enxurradas, é Santa Catarina.
E a menina mora aqui,
bem ao lado,
em nossas favelas,
em nossos sertões.
Chama-se solidariedade.

(Em tempo: a Defesa Civil de Santa Catarina abriu contas bancárias para receber doações que serão revertidas na compra de mantimentos, colchões ou colchonetes, cobertores, alimentos não perecíveis e água potável. O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57. As defesas civis nos estados estão montando postos de recolhimento. Contribuições devem ser depositadas numa das seguintes contas:
Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
BESC – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
BRADESCO S/A - 237 Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1)
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O atropelo das palavras

O silêncio é sábio.
Quem cala, ouve o mundo.
Ouve a vida. Os sonhos. A natureza.
Ouve até o silêncio.
Quem cala, tudo vê.
Vê, inclusive, as palavras rolarem rio abaixo,
para restar apenas na memória de quem soube olhar e ouvir.

Não tenho a sabedoria dos silenciosos.
Palavras e sentimentos me atropelam como um furacão.
Não me dão a pausa do pouso.
Se oferecem ao mundo sem que ninguém lhes convide.
Intrometidas, afoitas, amostradas e impertinentes.

Quem cala, reforça o próprio grito
quando este se faz necessário.

Que minhas tontas palavras sirvam, ao menos,
como elemento de grito para os silenciosos.
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3 de novembro de 2008

Os três porquinhos

Era uma vez três porquinhos, um pobre, um rico e um remediado.

O porquinho pobre construiu sua casa de madeira.
Não tinha dinheiro para comprar tijolos.
Era só um velho colchão,
um fogareiro,
uma televisão velha,
os trapos,
o chão cru.
Quase nada.

O porquinho rico comprou uma casa de alvenaria. Linda.
Em condomínio fechado, com seguranças à porta.
Piscina, academia de ginástica, parques, salão de jogos, e até cabeleireiro.
Muro alto.
Quase tudo.

Então veio o fogo.
Uma vela, talvez.
Ou um bujão de gás...
O certo é que se espalhou pela favela,
carregando madeiras, criando pó,
levando tudo de quem não tem quase nada.

Não levou a casa do porquinho rico.
Ele continua entre seus muros,
enquanto o outro chora suas novas perdas.

Ah! Esqueci de falar do terceiro porquinho, o remediado.
Este não construiu nem comprou nada.
Paga o aluguel, fazendo contas no final de cada mês.
E finge não ver a crueza das diferenças.

Esta fábula foi inspirada em mais um incêndio na Comunidade Beira-rio, nos Coelhos. Em poucos minutos, o fogo levou tudo, pela quarta vez, a segunda apenas este ano.
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21 de outubro de 2008

Silêncio é música ou grito?

Extraí do Barro Cru o mote que me inspira esta postagem. Anotem: barrocru.blogspot.com.

Silêncio.
Quero ouvir a batida das ondas do mar.
E os peixes que se movem em minhas entranhas.
Tenho os pés descalços
e minha respiração é uma brisa leve...
Meus passos, lentos,
são asas abertas em um céu imenso.
Engoli o infinito...

Silêncio.
quero ouvir meus próprios gritos.
A tempestade que se injeta em minhas veias
e os monstros que habitam minha solidão.
O sangue me rompe os pulsos,
procura brechas,
desata os poros.
Há pedaços de mim sobre a areia
e marcas de sangue na estrada.
Não ando,
me arrasto.
Sou pássaro ferido numa relva seca.
Fragmentos.

Meu silêncio é um grito e uma canção.
Tudo ao mesmo tempo.
Minha paz e minha guerra.
Minhas metades.
Minhas contradições.
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20 de outubro de 2008

O rasgo

Estive olhando esta arte que serve de cabeçalho para meu blog.
Reparei que minha ponte é uma fenda...
Um rasgo que se abre no manto do mar
e descortina um buraco negro.
Uma fenda que se expõe como o corte de uma vagina
e sangra dos lados,
nas ondulações de um mar
que bem pode ser os poros da pele rompida.

Talvez minha escrita seja assim.
As palavras que ligam, - minhas pontes -,
são também minhas rupturas,
minhas fendas,
meu sexo.
E, como tal, é sempre aos pedaços,
incompleto,
aberto,
cortado,
sangrando...
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A uma professora

Professores existem vários.
De vários tons:
hostis, cordiais,
autoritários,
amenos.
Basta um entre tantos,
só um,
para fazer desvios nos rumos de nossa vida.

Tive uma:
Teresa Cahu.
Professora de história, de quadris avantajados,
destas que conseguem manter o silêncio sem precisar gritar.
Sem discursos, ela nos trazia à consciência política.
Passava filmes.
Narrava as histórias com todas as entrelinhas.

Disse-me um dia,
quando soube que eu faria vestibular para direito e jornalismo:
- Tomara que você passe em jornalismo!

Creio que ela me conhecia bem...

Sem Teresa Cahú,
eu, que nasci em uma família de idéias conservadoras,
talvez nunca chegasse a ser esta que hoje sou.
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23 de setembro de 2008

Ponte quebrada

Algo me falta.
É o velho hiato que me chega.
De mansinho, como sempre,
a me pautar a necessidade de refazer caminhos.
Preciso do meu grupo de teatro.
De livros.
De estudos.
Preciso me sentir criadora.
E criativa.
Algo que vá além da criação de textos para jornais.

Há uma ponte quebrada nos rumos de minha andança.
O mal é que sob ela há um abismo sem fim.
Atravessar este poço é reconstruir a ponte dependurada sobre o buraco negro.
E eu não sei por onde começar.
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16 de setembro de 2008

Trajetória das letras

Tenho saudades de quando os livros eram, para mim, brincadeira de criança.

Minha mãe trabalhava em Santo Amaro.
Contratara, como minha babá, a Biblioteca Pública do 13 de Maio.
Todos me conheciam. Eu era parte da casa.
Sabiam meus gostos e me brindavam com livros.
Mitos e lendas eram meus favoritos.
E tinha uma série, com uma personagem chamada Sofia, muito desastrada. (Buscava nela talvez um consolo para meus atrapalhos e distrações)
A literatura era, em minha infância, deliciosa festa.
Ganhava livros de Natal.
E presenteava meu pai, em viagem, com histórias de princesas.

Então, veio a adolescência.
E os livros foram rebaixados à condição de estudos e obrigações.
Os paradidáticos, com fichas de leitura obrigatória, exilaram a literatura em mim.

Que não me escutem os intelectuais,
mas reencontrei as letras com os folhetins.
Sabrina, Bianca e afins: buscava neles a Cinderela e a Branca de Neve.
Estética à parte, foram eles a ponte para algo mais.

Então vivi fases:
o momento Gabriel García Marquez, com suas borboletas amarelas
o fascínio por Federico García Lorca, que invadia até os meus sonhos
o peso de Dostoievski, que me roubava as noites.

Ouso confessar:
minha leitura não é extensa, nem minha cultura abundante.
Quando estou em uma roda de gente culta,
recolho-me em meu silêncio.
Não ouso confessar que me falta ler tanta coisa...

Nem todos os que são cultos são mestres.
Há alguns que muito sabem, de leitura e teoria.
Mas seu conhecimento ficará sempre consigo, porque carece do gozo necessário das letras.
Outros tem a literatura como amante
e nos convida a participar deste delicioso bacanal.
Nesta grande festa de Baco, a Internet é mensageira.
E os blogs, porta de entrada.
Obrigada Samaroni, Fabrício, Urariano.

Para outros, as dicas:
Samaroni: www.estuario.com.br
Fabrício: www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br
Urariano: urarianoms.blog.uol.com.br

Me indiquem outros.
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15 de setembro de 2008

Resposta a Tari

Quando conheci Ritinha pela primeira vez, achei que ela tinha tantos sorrisos e tantos abraços...
Quando conheci Ritinha pela segunda vez, achei que ela tinha uma tristeza nos olhos
e um pedaço de silêncio espremido na garganta...
Quando conheci Ritinha pela terceira vez, vi o reflexo de meus extremos e contradições.

Com palavras ou sem palavras, eu e ela nos entendemos.
É como se todos os não ditos estivessem postos sobre a mesa, naipes à mostra.

Rita guarda sonhos de lembrança, e pedaços da Terra do Nunca na algibeira. Como eu.
Rita deixa a voz tecer palavras:
mastiga mágoas e saudades, e desfere golpes com poemas e canções.
E eu sempre choro com as bordoadas (Sou um oceano afoito, sempre à espera do primeiro sopro para criar tempestades).

A gente sabe que a vida, às vezes, afasta mais que as distâncias.
Mas, de perto ou de longe, estamos sempre juntas.
Um cheiro grande, Tari. De um lado ou do outro, não esquecemos. Nem tudo. Nem todos. Absolutamente.
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18 de agosto de 2008

O silêncio de Lua

Sete vezes, Maria Lua caiu.
Sete vezes tornou a levantar.
Na primeira queda, a menina perdeu o riso.
Na sétima, perdeu a voz.
Dia vai dia vem, Maria Lua montou expedição para buscar suas perdas.
Visitou terreiros de umbanda
e armou revoluções.
Divãs
consultórios
igrejas
santuários...
em nenhum destes cantos, achou o que queria.
E aí a menina chorou.
Chorou todas as lágrimas que ainda não tinha chorado,
de todas as quedas que tinha caído.
Maria Lua chorou até se esgotar de forças.
E calou.
E fez calar tudo em volta.




E no silêncio profundo
da maior tristeza de todas as tristezas,
a menina encontrou suas perdas.
E, findo o dilúvio, Maria Lua sorriu
e cantou!
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O canto da vida

Dorival Caymmi tem cheiro de chuva, de terra molhada.
Seu canto é o barulho do vento, das ondas, do mar.
Sua voz embala a rede na varanda,
Tem o cheiro dos peixes,
dos homens que vão pescar.
Suave como a areia branca.
Profunda e densa como a lagoa do Abaeté.
Isso é a vida!!!
Isso é Caymmi.

Caymmi vai,
mas deixa a vida no seu canto.
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22 de julho de 2008

A mistura das cores

Ah! O deleite com as tintas...
As crianças metem os dedos nos potes.
Melam de amarelo, verde, azul, vermelho.
Transferem para o papel aquelas cores.
E voltam a meter os dedos nos potes.
As tintas, agora, já não são vermelhas, verdes, azuis ou amarelas.
Elas se misturam. Nos potes e nos papéis.
Mas as crianças não cansam de lambuzar as mãos.
Ñada mais é verde, azul, vermelho ou amarelo.
Papéis e potes estão cobertos de tinta preta.
E também as mãos.
E, depois, braços.
E mesas.
E cadeiras...

Ah! O deleite com as tintas...
o pretume das misturas, de todas as cores...
Salve, salve a lambuzeira geral!
Quem tiver limpo, que arrume esta bagunça!
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18 de julho de 2008

Retorno ao princípio

Quando eu era pequena,
bem pequena,
menina ainda,
perguntaram-me o que eu queria ser quando crescesse.
Eu disse: - Mãe.
Disseram-me, então, que mãe não é trabalho nem profissão.
Cobraram-me: - O que eu queria ser quando crescesse?
- Professora, respondi. Acreditava, talvez, que professora era como uma segunda mãe, já que ambas tem o ensino por ofício.
Então cresci, embora não muito.
Mas fiquei adulta.
Fui jornalista.
Fui atriz.
E até escrevi livros.
Passados quase trinta anos desde aquela minha decisão de criança,
tornei-me mãe.
Depois, novamente.
E, agora, passadas qause três décadas e meia,
resolvo ensinar para outras crianças.
O retorno à predição inicial.
O resgate de mim mesma talvez.
A verdade é que, confesso, estou adorando!!!
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8 de julho de 2008

A esperança é tricolor

O torcedor do Santa Cruz é um retrato do Brasil.
De um povo sacrificado, que nunca perde a esperança.
E que se renova de alegria, com pouco, com tão pouco.
Que não se esgota de forças, nunca.
Nem com as derrotas.
Nem com os desmandos dos que mandam.
E que se junta - talvez não, como deveria, para brigar pela justiça -
mas para compartilhar tristezas e alegrias.


Senti isso na pele nessa viagem para Campina Grande.
Que dizer de um povo que, do abismo da terceira divisão, monta desse jeito nas asas da esperança?
E dribla as quatro horas de viagem e o preço das passagens de ônibus, além dos ingressos.
E invade a outra cidade em caravanas de ônibus, vans, carros... a surpreender os habitantes da Paraiba.
E lota mais que metade do estádio da torcida rival.


Que falar de um povo que, depois de ter as asas cortadas, sai cabisbaixo, sem dúvidas. Mas não mais fraco em dedicação à nação tricolor. E que faz a esperança ressurgir das cinzas, como fênix, para alçar vôo em mais uma partida. Desta vez, no Arrudão, contra o Central de Caruaru.

Deus!!! Por que não te apiedas??? Acaso isso é um teste, como aquele que usaste para medir o tamanho da fé de Jó? Já retiraram dos tricolores quase tudo. Mas a paixão pelo time resiste. E quando existe paixão, a esperança nunca cala.
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18 de junho de 2008

Minha mais bela literatura

Depois de uma semana de exaustão,
de repente me vem um silêncio.
O tempo que eu teria para escrever se abre diante de mim como um abismo enorme.
E cada palavra,
cada pensamento,
me traz apenas o vazio. A sensação de que não há nada que eu possa escrever.

A cada tentativa de buscar o que falar,
me vem em mente apenas os sorrisos e histórias assombrosas dos meninos do Coque:
a energia bruta de Maicol,
a ingenuidade teimosa de Leandro,
a maturidade inocente de Ítalo,
a alegria tranquila de Jonatan.
Junto com Anaís e João Pedro, são eles, hoje, minha mais bela literatura!
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19 de maio de 2008

Para Carlos Marculino

Recebi, ainda agora, o chamado de Pablo para juntarmos os amigos de minha primeira peça de teatro.
Eu, então, era estreante, aprendendo a tatear a arte dos palcos.
E tive sorte.
Tive sorte de conhecer um mestre, destes que a gente não vê entre os grandes medalhões da cena pernambucana.
Chama-se Carlos Marculino. E virou estrela, recentemente. Não estrela global. Mas estrela de uma das constelações que brilham na memória da gente.
O chamado de Pablo acendeu esta estrelinha. De um cara que escrevia teatro para ser encenado na rua. E falava sobre posse de terra e distribuição de riquezas. Que tudo fazia com o maior esmero, sem esperar elogios. Que a cena pernambucana sempre desconheceu, mas não a comunidade da Várzea. Um cara que me deixou este hábito de procurar as margens e entrelinhas. De preferir o teatro feito em grupo, que deixa recados e mexe com a gente sem precisar de holofotes.
O chamado de Pablo atiçou cheiros antigos. De batata-frita com cerveja no boteco da Várzea, contando as horas entre o ensaio e o último ônibus CDU. Gravou em mim a imagem de Carlos, que andava esquecida - embora marcada em minha memória.
Soube por acaso de sua migração, tantos anos estávamos afastados. Uma sua aluna me contou. Mais tarde, a rosa me falou que ele fôra embora em plena partida de futebol. Abandonou o jogo, assim, de repente. Mas, antes, quantos gols não fizera para quem jogara no seu time!...
Gostaria muito que ele estivesse presente em nosso encontro. E ele estará, sem dúvida.
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7 de maio de 2008

Hiato

De repente, sem aviso, chega o cansaço.
Não o cansaço físico, tão bem vindo às vezes
Mas um esgotamento de tudo,
o por-um-fio,
a ausência.
Em vão acesso os blogs preferidos,
em vão folheio um livro,
em vão.
Um aperto no útero,
que me comprime a bexiga.
Não há vontade de chorar.
Não há vontade.
Nada.
Minhas esperanças e desejos de mudança
meteram-se sabe lá onde.
Foram levados, quem sabe, por esta chuva que cai do céu.
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6 de maio de 2008

O que você quer ser quando crescer?

Entre as crianças do Coque, o ideal de trabalho tem poucas facetas.
Meninas querem ser professoras.
Meninos querem ser jogadores de futebol.
Ou polícia.
Médicos, escritores, advogados,
artistas, políticos ou jornalistas...
nada disso existe.
Minto.
Os médicos, na verdade, são os doutores das ambulâncias.
É esta a referência que eles têm dos que cuidam da saúde do cidadão.
Eles chegam quando a morte já espreita.
Nas ambulâncias, para levar os moribundos, vítimas de bala quase sempre.
Entre as crianças do Coque, os sonhos são simples.
O pequeno Leandro quer consertar coisas.
E há, de fato, muitas coisas a consertar.
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16 de abril de 2008

O exemplo dos bichos

Em tempos tão cruéis para as crianças,
os bichos dão exemplo. Confira.

video
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Alice

A mansão dos sonhos de Alice é uma casa com cerâmica.
Só isso.
A mansão do mundo real está fora do limite de seus sonhos,
e de seus olhos.
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2 de abril de 2008

Ai, a esperança

Que mundo é esse???
Que mundo é esse em que se atiram crianças pela janela?
Em que um país não pode se desenvolver, sem o risco de ter ameaçada sua balança comercial?
Em que o deus Mercado dita as regras e os governos apenas as executam?
Em que grandes veículos de comunicação fabricam verdades e o jogo do poder que as alimenta reforça a mais nova modalidade de comércio:
a mercantilização de dossiês.

A esperança, ai - a esperança...
está nas pequenas coisas,
nas coisas e nas gentes miúdas.

Bem longe dos meios de comunicação,
do deus mercados e seus apologéticos economistas,
há um mundo diferente.

Há um mundo que sofre as brutalidades desse outro que comanda.
E por isso é pobre, sacrificado, envergonhado até.
Mas é nesse outro lado que mora a esperança e a alegria verdadeira.
Nos pequenos gestos de solidariedade.
Nas crianças que ainda empinam pipas, e não armas.
Nos que tocam os tambores dos maracatus.
Ou grafitam nas paredes, e nas músicas, o seu grito.
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31 de março de 2008

Até mais, Mariângela

Mariângela veio.
Mariângela se foi.


Tão pouco um mês para dividi-la com a vida,
para dividi-la com as ruas do Recife,
os cheiros as comidas as ondas do mar...
os amigos as irmãs e a Bruxa Má do Leste...
Tão pouco um mês para dividir-me entre ela e a vida
e as crianças o trabalho o teatro o Coque Cajá


Nos olhos dela, e nos meus, ficou um mundo sem palavras,
de coisas não ditas,
de vontade de dizer.


A despedida, sem aviões nem gentes dando Adeus:
ela saindo, andando pela minha rua...
e um abismo se estendendo entre nós


Como ponte sobre ele, a saudade do que não fizemos agora,
mas fizemos outrora:
ciranda no Pátio, passeio em Olinda, banhos de mar,
quilos e quilos de bobagens ditas.


Fiz planos que não pude cumprir.
Quis roubar Mariângela do mundo.
Não deu.
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18 de março de 2008

Solidão acompanhada

Vem de novo a eterna sensação de estar no tempo errado,
no mundo errado.
Essa estranheza que, de repente, colore as coisas e as gentes...
e uma solidão esquisita,
solidão acompanhada:
estar cercada de amigos e,
ao mesmo tempo, só.
Esse sentimento de impotência -
de querer ajeitar as coisas,
mas não saber muito bem onde elas devem ficar.
De querer endireitar algo, quando não sei,
sequer,
se quem está fora de lugar sou eu ou o mundo.
Vontade de me juntar com outros
que sintam algo assim como eu.
Mas não sei onde começo a procurar.

(quem sentir algo assim ou parecido, por favor, poste-me um comentário. Sozinha, estou de mãos atadas e um grito preso na garganta...)
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3 de março de 2008

Quem são os terroristas?

Este é Raul Reyes, um dos principais porta-vozes das Farc - Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.
Os grandes jornais e TVs chamam-no de terrorista.
O presidente dos Estados Unidos, George Bush, chama-o de terrorista. O governo colombiano de Álvaro Uribe acusa-o de terrorismo.
Ele foi assassinado no último sábado por militares colombianos.
Foi morto quando negociava a libertação de reféns.
Foi morto em território equatoriano, onde estava atuando em missão de paz. Outras 16 pessoas morreram com ele.

O presidente norte-americano se considera democrático.
A mídia de todos os países o considera democrático.
Ele forjou pretextos para inventar uma guerra. E quer muitas outras, em troca de petróleo.
Ele é co-autor e mentor de cada ação de Uribe.

O presidente Álvaro Uribe se diz interessado no processo de paz.
A mídia de todos os países o trata como um interessado no processo de paz.
Ele invade um país que não é seu para assassinar.
Ele mata guerrilheiros que se reuniam para negociar a libertação de reféns.

Pergunto: quem são os terroristas???
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14 de fevereiro de 2008

Fazem, exatamente, dois meses e um dia que não escrevo nada. (Com exceção das matérias para efeito de trabalho)
Por que, então, já não sinto as palavras pulsarem como dantes?
O que morreu dentro de mim?
Creio que palavra é um bicho que independe de nós. Elas têm vida. E se bolem sozinhas dentro da gente. Quando encontram espaço, fogem e se revelam.
Mas, afinal, fui eu quem fechou as portas? Como?
Pergunto meio que sabendo as respostas.
A vida nos destina prioridades. E meu tempo de agora não é o de criar palavras, mas de criar meus filhos, sementes de mim.
Há tantas formas de nos fazermos eternos, e quero que meus filhos, que semearão minha história, sejam minha melhor criação.
Quero, também, poder ajudar os filhos, cujos pais não conseguem ajudar sequer a si mesmos... esta é minha segunda prioridade.
O resto é trabalho. Ou lazer.
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