28 de dezembro de 2010

Desabafo de fim de ano!!!

Esqueça! O mundo não vai mudar porque vai trocar um número no ano do calendário.

Nada vai mudar e tudo pode mudar a qualquer instante esse papo de ano novo vida nova é conversa fiada e eu já estou por um fio um fio esticado sobre o abismo um ano inteiro suspensa assim então não me venha com papo furado e garrafas de champanhe prefiro uma cachaça com mel para adoçar e depois o mar o mar que tudo salva saliva de Deus e então...

Então, foda-se 2010!!! E vão à merda todos os que contribuíram para que esse ano fosse esse dilúvio sem fim e não me venham com sorrisos e confraternizações e presentinhos de fim de ano porra eu estou dizendo para irem à merda preciso soletrar???

Não!!! Não todos. Não tudo.

Tem as crianças minhas crianças as crianças do Coque as leituras os amigos sinceros as bibliotecas meu companheiro as cervejinhas de fim de dia a família o mar o mar que tudo salva saliva de Deus e eu estou quase de férias quase de férias e então...

então que venha 2011 caralho!!!
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27 de dezembro de 2010

A tal mineira

Seu nome é Sulamita. E não é uma mulher qualquer.
Suas habilidades se revelam na palavra,
na cozinha,
e, principalmente, no caráter.

Com ela eu aprendi a ser jornalista.
E isso significa buscar a verdade,
ainda que nos ofereçam dela apenas um lado,
ainda que nos ponham viseiras para impedir de ver o sol.

Com ela eu aprendi a brigar,
a não ser capacho de quem quer fazer de nossas palavras, sombras.

Com ela eu aprendi a me dar valor.

(Só não aprendi a tostar os torresminhos, que prefiro comer em casa de mineira).

Parabéns, Sula!!! E obrigada.

PS: Aproveitem e visitem aqui o blog da mineira
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10 de dezembro de 2010

Os irmãos de Maurília

Maurília tinha tantos irmãos que jamais poderia caber em seu olhar a lembrança de cada um. Tinha irmãos homens e mulheres, de diferentes cores, tamanhos, idades... de diferentes pais e nos lugares mais distantes. Somente em sua casa moravam sete. Outros três viviam perto, lá mesmo, no Cocal. Mas havia tantos outros que ela até chegava a supor que o mundo inteiro, cada pessoa, era também um irmão seu. E por isso sorria pra todos. E esperava abraços, que nunca ganhara.

Um dia, um deles bateu em sua porta. A mãe recebeu, com lágrimas nos olhos e mãos cheias de carinhos. Maurília não disse nada, não sentiu nada. Mas, como de costume, sorriu. E se surpreendeu ao receber, talvez, o primeiro abraço desde que deixara de ser um bebê. A surpresa foi tão grande que ela correu para longe e chorou, com toda a força de suas lágrimas. Não um choro de alegria, nem de tristeza. Choro de susto, espantado, tremido.

Dia após dia, ela evitou olhar para aquele irmão estranho, que agora morava em sua casa e dividia com eles a comida e a atenção da mãe. Maurília olhava de banda e fingia de muda cada vez que ele puxava uma prosa.

Um dia, o irmão chegou em casa com uma carroça de jornais. Amontoou tudo num canto e sentou. Devagarzinho, começou a enrolar as folhas, uma a uma, formando uns canudos grandes e finos, que ele foi guardando debaixo da cama de Leo. Maurília não disse nada. Apenas observou, com curiosidade e espanto, o irmão transformar os canudos em cestos, bandejas, casinhas de brincar... E, no dia de seu aniversário, a menina ganhou seu primeiro presente: uma gaiolinha pequena, com passarinho dentro, tudo feito de canudinhos de jornal.

A partir deste dia, Maurília passou a acompanhar o irmão, enrolando os canudinhos e fazendo mágica com papel. E abriu os olhos e ouvidos para escutar as histórias que lhe contava este homem, que parecia tão grande pra ter nascido de sua mãe.

Seu nome era Olavo e disse que vinha de uma terra triste, onde arrancam as asas dos passarinhos. Disse que, quando pequeno, queria voar mais alto que o alcance das suas asas. Um dia se perdeu de tudo. Foi parar numa terra feia, onde as pessoas não sorriam nem brincavam: tinham coração seco e olhos que não viam. Era um lugar cinzento, amedrontado pela sombra de um dragão sem cor, que alimentava-se de sorrisos. Olavo disse que viu, dia após dia, o dragão devorar-lhe por dentro. Para continuar existindo, passou a roubar dos outros a alma que já não tinha. Arrancou, ele mesmo, as próprias asas. Escolheu, ele mesmo, sua gaiola. Mas foram os canudos, os canudinhos de jornal, que foram repondo as penas, todas elas, em seu lugar. Demorou. Mas Olavo, um dia, recuperou as asas, os olhos e a alma. Foi quando decidiu voltar pra casa.

Maurília sorriu. Mas já não era o mesmo sorriso, aquele que repetia para todos, à espera de algo que nunca vinha. Era sorriso que brotava lá de dentro, como cócegas no coração. Era sorriso que lhe tomava o corpo inteiro até sair pela boca, pelos olhos, pelas mãos. Não era mais um sorriso que espera, era alegria de verdade, um pedacinho de céu. Maurília abraçou o irmão e à noite, antes de dormir, foi buscar em seu velho caixote sua gaiola de papel. Lá estava ela, bem guardada. Mas, para sua surpresa, a pequena portinha de jornal estava aberta. E já não havia pássaro lá.
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6 de dezembro de 2010

Para meu pai

Painho,
eu tenho ciúmes,confesso,de minha primogênita irmã.
Porque ela teve a honra de te seguir naquilo que pra ti é pedra mais que preciosa:
o teu trabalho.
Mas, escuta, pai, tenho um segredo pra ti:
não peguei a trilha de insetos e plantas que traçaste.
Mas segui tuas pegadas nos atalhos que marcaste sem sequer perceber:
Um caminho feito de histórias,
brincadeiras,
e um jeito eternamente puro de acreditar na vida e nas pessoas.

Parabéns, meu pai!
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1 de dezembro de 2010

Silêncio

Quando não há nada a dizer,
melhor calar
e deixar que a vida se encarregue de falar.

Por que ela sim é o mais lindo de todos os poemas!!!
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18 de novembro de 2010

Para Chaves, minha despedida

Chaves, nosso velho sábio, conselheiro, professor...
por que desististes de viver?
Tu, que andastes sempre entre o abismo e o vôo...
Tu, que equilibrastes em cada palma da mão a sensatez e o seu reverso...
Tuas análises políticas, tuas coerentes observações, tua militância... tudo isso fazem de ti mais que um intectual ou professor.
Fazem de ti um companheiro de luta.

Falhamos contigo, camarada.
Não se abandona um soldado ferido no campo de batalha.
Nós o fizemos.
Deixamos tua alma sangrar
e sequer percebemos a extensão de tua dor.

Falhamos contigo, camarada.
Jamais acreditamos que tinhas sido ferido em teu ponto mais vulnerável:
a esperança
e a auto-estima.

Soube que terias alta hoje.
Voltarias à vida,
retornarias ao mundo.
Teu coração não aceitou este retorno.
É que teu corpo se recuperara, mas a alma ainda sangrava.

Espero que agora, onde quer que estejas, que estejas inteiro.
E que nos perdoes, companheiro!
Que tua viagem nos sirva de exemplo para que não deixemos que a rotina e dureza do mundo transforme em pedras nossos corações.
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17 de novembro de 2010

M...

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4 de novembro de 2010

Meu sorriso de volta



Repus o sorriso em minha alma.
Fui buscá-lo no mar,
entre sobras de sereias.
Mas ele apenas lavou meus olhos,
com água, sal e areia.
Pois só fui encontrar o sorriso
no fundo de minhas meias.

Bastou descalçar os sapatos
bastou despojar a armadura
bastou sair fora de casa
para achar, do outro lado, a cura
O sol me lambeu os pés
e pôs luz em minha alma escura.

Só assim achei meu sorriso,
bem embaixo de meu pé,
precisei lavar com sabão
que ainda exalava chulé
estava sujo e pisado
mas não era um sorriso qualquer

Não era um sorriso de vidro,
colado no rosto
como máscara de marfim.
Mas transbordava dos olhos,
dos poros, das veias,
como pedaço de mim.
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18 de outubro de 2010

Ainda não cansei de mim

Ultrapassei, neste sábado, 16 de outubro, o 38º ano de minha vida.
E ainda não cansei de mim.
Deve ser por que descubro, a cada momento, uma face que não conhecia.
Deve ser por que encaixo novas peças do quebra-cabeça,
para desfazê-lo no outro dia.

E, quando,
por uns momentos,
este cansaço me alcança
e fere minhas asas,
e me derruba no chão,
então eu recoloco as penas,
uma a uma,
e retomo o vôo
(para o abismo ou para a imensidão)
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13 de outubro de 2010

O rumo de meus sonhos

Não é para ti que falo.
É para mim mesma, talvez.

Para ti,
o resultado de uma eleição nada altera no correr dos dias e das horas.
Farás os mesmos poemas,
frequentarás os mesmos bares,
continuarás em teu mesmo trabalho,
a ler o jornal todas as manhãs e a revista Veja aos domingos.

Para mim,
o resultado talvez não altere o correr dos dias e das horas,
mas pode mudar o rumo de meus sonhos.

Pode significar ter de dar adeus ao Plano Nacional do Livro e da Leitura,
agentes de leitura nas periferias,
apoio para as bibliotecas comunitárias,
lei para criação de bibliotecas nas escolas...

Pode significar ver os meninos do Coque tendo que sair da escola, porque já não há bolsa-família e é preciso vender bombons...

Pode significar ter que ver muita gente desistir do sonho de ver os filhos na faculdade.

Pode significar um freio brusco na esperança!!!

Por isso, talvez você tenha razão.
Eu discuto a eleição como questão de vida ou morte.
Por que,
para você,
é apenas uma eleição.
Para mim, é o rumo de meus sonhos...

DILMA - 13: por que ainda há muito a fazer!!!...
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20 de setembro de 2010

Céu de estrelas ou pequena história de como se constrói esperanças

Este texto foi produzido antes das eleições que levaram João Paulo à Prefeitura do Recife. Republico agora, conclamando todos a votarem nele novamente, desta vez para deputado federal. E, para a Assembléia Legislativa Estadual, o seu fiel escudeiro Múcio Magalhães.

Ela acordou com os olhos nublados de céu. Seu peito se inflava de uma agonia risonha, daquelas que nos faz ouvir música em cada sopro de vento. Olhou-se no espelho e se achou bonita. Dispensou os cremes e as tinturas em pó para vestir-se com seu próprio arco-íris.
De repente, depois de anos a fio, ela voltara a acreditar nos homens. Passou até a enxergar asas de anjo nas sombras das pessoas. Uma névoa azul lhe encobria o mundo e ela sentia que era gostoso acreditar.
No dia anterior, um domingo, ganhara uma rosa. Não uma rosa de barganha, a pretender noites e abraços furiosos. A flor lhe fora dada por uma adolescente, de riso tímido, que vestia um vermelho estrelado e dizia que sua cidade ainda pode mudar.
Aquele não era, de fato, um domingo comum. De todas as partes e de todos os bairros, pessoas vestidas de estrelas tingiam de vermelho as ruas cinzentas.
Era uma gente que ainda acreditava nas gentes. E que, qual uma bandeira, punham nos ombros aquele moço magro, desajeitado... mas que era o porta-voz de seus sonhos e desasossegos.
Era gente que, como ela, a vida inteira trabalhara, sofrera, suara. Era gente que, como ela, tinha a esperança alquebrada pela maldade do mundo. Mas era gente que decidira acreditar.
Ela, então, se enebriou dessa euforia de estrelas. E, no dia seguinte, tingiu de vermelho seu céu, e tingiu de céu seu olhar. Pintou asas em sua sombra, deixou as cinzas na gaveta e abriu as portas de seu mundo. Carregou uma rosa e uma bandeira. E apostou em si mesma para forrar de estrelas as noites de cada um.
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13 de setembro de 2010

Declaração de voto


Eu acredito: existe ainda quem resista aos afagos do poder - pessoas e políticos.
Eu acredito: existe ainda quem ponha os desejos coletivos acima das vaidades individuais.
Eu acredito, apesar de tudo.
E por isso voto.

Não tenho mais a inocência de quem achava que era possível mudar o mundo sem alianças nem composições.
Mas acredito que cada concessão só possa existir em nome de um princípio maior - solidário e, por que não dizer, socialista.
E cada passo dado de banda deva equivaler a, pelo menos, três passos para a frente.
Não sou mais inocente.
Mas acredito.
E por isso voto.

Não tenho ido às passeatas, caminhadas...
Não tenho feito porta-a-porta nas fábricas ou participado de reuniões com a comunidade...
Não sei pedir voto, como não sei dar conselho a quem não me pede.
Mas tenho a palavra e dela posso fazer uso para falar de quem confio.

E uma destas pessoas chama-se Múcio Magalhães.
Posso falar dele porque conheço. E bem. Até porque trata-se de pessoa muitíssimo verdadeira. Sei, portanto, de seu cuidado com os amigos, sua fidelidade, sua coerência. Sei também de sua teimosia, que há de ser um pouco teimoso para perseverar, apesar da maré...
Em Múcio, eu acredito.
Por isso voto.

E uma destas pessoas chama-se João Paulo.
Posso falar dele porque já deixou sua marca no Recife.
E, por isso, quero,
não apenas que ele seja eleito,
mas que ele tenha uma votação estrondosa,
para que outros vejam que o povo sabe dizer que tipo de prefeitura o satisfaz.

Nestes eu acredito.
Por isso voto: 1333 e 13133.
João Paulo - deputado federal. Múcio Magalhães - deputado estadual.
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1 de setembro de 2010

O Grito

O aperto no estômago. Como fome. Como soco no ventre.
Ela parou, respirou fundo... sabia o que viria a seguir.
Procurou um lugar vazio, mas não conseguiu chegar até lá.
Ali mesmo,
em praça pública,
aos olhos dos evangélicos que entoavam coros e aleluias,
em meio às putas,
aos bêbados,
às crianças,
aos comerciantes...
ali mesmo jorraram as palavras em vômito interminável.
Vieram banhadas em sangue,
cobertas da nódoa verde que apodrecia sua garganta.
E mesmo as putas,
mesmo os bêbados,
mesmo os crentes e as crianças
sentiram ânsias de chorar.
Porque as palavras que calavam em si criaram raízes,
e quando escaparam,
arrancaram-lhe um pedaço da alma.
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19 de agosto de 2010

Leituras em rede


No começo eram quatro.
Quatro nós nessa rede.
E ela cresceu.
Duplicou.
Fez-se grande.
Jogou-se no mar do mundo,
mas não trouxe peixes.
Trouxe livros para serem lidos e devolvidos ao mar.

E os olhos da mídia tiveram que se render às suas dobras.

Nas leituras que ela tece,
as crianças,
os jovens,
os moradores da periferia são os maiores ganhadores.

Mas ainda há muito,
muito a crescer.

Em cada biblioteca que se instala na cidade do Recife, de Olinda, de Jaboatão,
sobram dificuldades.
No Coque, as chuvas molharam os livros. É preciso retelhar o espaço, catalogar as obras, melhorar as instalações elétricas, a ventilação.
No Alto José Bonifácio, falta o teto, o espaço que abrigará os livros e a vontade de construir novas leituras.
Em Caranguejo Tabaiares, esta vontade cresceu tanto que o lugar ficou pequeno. É preciso nova sede, e doações que banquem os mediadores.

Oito bibliotecas, cada uma com seu perfil:
a experiência do Nascedouro, primeiro nó nesta rede;
a graça brincante do Cepoma, onde as leituras fazem nós com batuques, danças e mamulengos;
a beleza do Peró, com a graça leve de sua contadora de estrelas;
a criatividade do Shekinah, muito mais do que creche;
o encantamento do Lar MeiMei, a recuperar histórias de vida;
a disposição de Caranguejo Tabaiares, a arregimentar leitores de mundo;
a dedicação do Coque, a transformar histórias de violência em poemas de cidadania;
a atitude da Amigos da Leitura, a buscar espaço para novas leituras.

Agora, esta rede quer ampliar sua tessitura,
construir novos nós,
fazer parceiros entre os peixes do mar.

Você,
que está me lendo,
ajude nesta pescaria:

A ajuda pode vir em forma de equipamentos, propostas de trabalho voluntário ou apoio financeiro. Para depositar qualquer quantia: Caixa Econômica Federal / Conta corrente número: 544-5 / Agência: 2193 / OP: 003. Ou ligue: 3244-3325 / 8850-5507.
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12 de agosto de 2010

Blogaço da Rede


Amigos blogueiros que seguem minhas pontes, ou passam por acaso nestes caminhos,
convido a todos a participarem, na próxima quinta, dia 19, do blogaço da Rede de Bibliotecas Comunitárias.

Para quem não sabe, a rede junta atualmente oito bibliotecas comunitárias da Região Metropolitana do Recife: Biblioteca Popular do Coque, Biblioteca de Caranguejo Tabaiares, do Nascedouro de Peixinhos, do Instituto Peró em Jaboatão, Cepoma - em Brasília Teimosa, Amigos da Leitura - do Alto José Bonifácio, e das creches Shekinah e Lar Meimei, em Olinda.

É a segunda campanha da rede. E, desta vez, o objetivo já não é conseguir livros, mas recursos para garantir infra-estrutura. A ajuda também pode vir em forma de equipamentos ou de propostas de trabalho voluntário. Então: para depositar qualquer quantia: Caixa Econômica Federal / Conta corrente número: 544-5 / Agência: 2193 / OP: 003. Ou ligue para os números 3244-3325 / 8850-5507

Quem acompanha as palavraspontes, já deve saber um pouquinho sobre o trabalho na Biblioteca Popular do Coque (foto). Para quem ainda não sabe, confira aqui.

Acesse também outros blogs:
- Rede de Bibliotecas Comunitárias
- Cepoma
- Biblioteca Comunitária Carangueijo Tabaiares
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9 de agosto de 2010

Sobre filhos e pais

PRIMEIRA CENA: Estava ali, naquela mão que atava o pai e o filho, já adolescente, todo o sentimento que se oculta sob as palavras. Não moram juntos. Mas há uma ponte invisível que os liga, apesar de tudo e de todos. No número que se gravou no celular do pai, um sinal do afeto: o menino lembrara dele antes mesmo que o sol surgisse. Lembrara dele enquanto se cercava de amigos, de jovens, de alegrias.

SEGUNDA CENA: Cedinho da manhã, a ligação. A menina está na casa da avó. Mas a lembrança do pai a acompanha.
- Painho, o que lhe dou de presente?
- Uma Ferrari, brinca o pai, em resposta.
Nova ligação, desta vez para a mãe.
- Mainha. A gente vai ter que comprar uma Ferrari pro papai...


TERCEIRA CENA:
Na praia, o menino brinca. Tem apenas três anos. Avó e tia o acompanham. Encontra uma conchinha. - É de meu pai. E, durante todo o tempo, ele cuida da concha como uma relíquia. No dia seguinte, ela estará bem guardada e ele entregará o tão rico presente.


CENAS DE MINHA VIDA:

Meu pai tem cheiro de infância.
As crianças, grandes e pequenas, o amam.
Os alunos, já crescidos, o amam.
Eu o amo, sempre e demais.
Meu pai é um contador de histórias.
Fala de seus insetos como um descobridor de magias. (ele é entomólogo)
Fala de cada coisa com uma alegria especial.
Meu pai me lembra brincadeiras.
E, quando penso nele,
penso que serei sempre aquela criança que ele jogava pra cima nas águas do mar...
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4 de agosto de 2010

No terapeuta

- Tem um gato me espiando.
- Como?
- Um gato. Gato. Me espiando... toda vez que fecho os olhos, ele está lá. Os olhos grudados em mim.
- Um gato?
- Você é surdo ou o quê? Falei gato. Três vezes. Que merda isso!!!
- Isso o que?
- Você, fazendo estas perguntas imbecis.
- Mas, afinal, o que faz o gato em seu sonho?
- Não é sonho. Eu não durmo, só fecho os olhos. E se eu soubesse o que fazia o bichano lá, grudado nas minhas pálpebras, não precisaria falar sobre ele pra você.
- E por que você falou?
- Por que eu não sei o que diabos ele quer de mim, caralho!!! É difícil assim de me entender? Puta que o pariu!!!
- Pariu quem?
- Você, porra!!! Quem foi a rapariga que te botou no mundo, seu merda!!! Eu estou lhe pagando pra você tirar sarro da minha cara?
-(…)
- Não vai falar nada?
-(…)
-(…)
-(…)
- Ele desaparece quando eu durmo.
- Quem?
- O gato.
- E quando aparece?
- Quando eu fecho os olhos, não já disse?
- Você dorme de olhos abertos?
- Não, cacete. Mas ele só surge quando eu fecho os olhos por pouco tempo.
- Ele apareceu?
- Quando?
- Agora. Você acabou de piscar.
- Não. Nem senti que pisquei... Muito rápido.
- Então você precisa sentir que pisca... Quanto tempo tem que durar a piscadela, três segundos?
- Sei lá, porra!!! Sei que, as vezes, ele aparece.
- As vezes?
- É, sei lá... de vez em quando.
- Fecha os olhos agora.
-(…)
- E aí?
- O que?
- Ele apareceu?
- Não.
- Por que?
- Sei lá, deve estar se sentindo pressionado, acuado...
- Por quem?
- Você, né? Eu é que não sou...
- Então ele me vê de dentro de seus olhos? Me escuta?
- E como é que eu vou saber?
-(…)
- Não vai dizer nada?
-(…)
-(…)
- Senhor, a sessão acabou.
- Mas e o gato?
- São R$90. Continuamos na próxima sexta, no mesmo horário.
-(…)
-(…)
- Descobri. Eu descobri!!!!
- O que?
- O gato!!! É você o gato!!!
- Como?
- Sim, claro!!! Ele sempre aparece quando eu venho aqui.
- Só aqui?
- Ou um pouco antes. Ou um pouco depois.
-(…)
- Sim, claro!!! Quando eu era criança, havia um gato na rua. Perto de casa. Sempre nos roubava a carne. Mãe passava dias sem poder comprar carne, só feijão com arroz. E farinha. Sempre farinha. Todo dia, eu fazia os bolos de feijão com farinha, torcendo pelo dia em que teria um naco de carne. E aí, quando vinha o dia, o gato estragava a festa. Isso aconteceu muitas vezes...
- E agora?
- E agora está acontecendo de novo! Passo um mês inteiro pra juntar meus tostões e o senhor me leva de uma tacada só, em um único dia, R$ 90. E pra que? Pra me ajustar? Eu não quero me ajustar!!! Pronto! Não quero. Boa tarde ao senhor. Estou encerrando as sessões. Não venho nunca mais. E na sexta-feira, vou desabafar com um garçom, que os R$ 90 saem bem melhor empregados na mesa do bar.

O PACIENTE SE DIRIGE À PORTA.

- Senhor.
- Que é, caralho?
- Os R$ 90 desta sessão.
- MIAU!!!
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30 de julho de 2010

Aurora


Chamava-se Aurora. Mas, a despeito do nome, nada tinha que lembrasse o alumbramento do sol quando rompe a manhã. Menos ainda que se parecesse com aquela moça por 100 anos adormecida. Pelo contrário. Nenhuma fada jamais lhe brindara com o dom da beleza. Desde sempre fora conhecedora de sua própria face e sabia que estava muito mais próxima da Moura Torta que da princesa.

Quando nasceu, a mãe pensara: são assim mesmo todos os bebês. Mas os anos não abrandaram suas feições. O nariz ocupava-lhe quase metade da cara. E sob os minúsculos olhos, cavavam-se olheiras fundas e negras. As orelhas curvavam-se para a frente, pedindo passagem. E também o queixo projetava-se, carregando consigo o lábio inferior. Além disso, era mirrada e pequena, o que acabava sendo uma vantagem na hora de não se fazer perceber.

Mesmo a mãe, por quem tinha tanto apreço, tratava de escondê-la das amigas mais nobres. Na escola, foram tantos os apelidos, que por pouco não esquecera o próprio nome. Habituou-se à solidão. E buscou os livros como companhia. Mas nem eles aliviavam-lhe a pena: as histórias não reservavam finais felizes para as bruxas. Recorreu aos poemas: estes, sim, entortavam palavras e teciam mantos cinzentos para as manhãs.

Fez-se desde cedo tecelã de palavras. E usava as mais feias para fazer o alinhave. Cobria de catarro as estrelas e mandava à merda as manhãs azuis. Misturava as tintas, todas. A perfeição se desfazia em sombras e monstros habitavam os espelhos dos palácios. Coletava destroços, esgotos, ratos e baratas e com eles construía seus poemas. Assinava: Aurora.

Aos poucos, as manhãs foram nascendo diferentes. E o sol, ainda que não lhe pusesse luz à face, foi aquecendo palavras no coração da moça. Um dia, quando todos já lhes conheciam os versos, ela saiu de sua toca. Os poemas, que já eram comentados em rodas literárias, ganharam um rosto. E o mais incrível: o rosto da Aurora.
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28 de julho de 2010

Cena pernambucana

Nós, pernambucanos, fazemos um teatro belíssimo. Confiram alguns clipes e vão ver as peças.

1. O palhaço Jurema e os peixinhos dourados:
Com Gilberto Brito e Andrezza Alves
Teatro Hermilo Borba Filho
Todas as quintas e sextas de Julho
horário: 20:00h
ingressos R$ 10,00 e R$ 5,00



2. O homem da cabeça de papelão
Companhia Santa Fogo
ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES: 31 de Julho (Sábado) e 01 de Agosto (Domingo)
Teatro Apolo
20 horas



E mais:
- O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas: confira

- Chat:
Teatro Joaquim Cardozo;
Sábados e Domingos, 20h.
Com o grupo Teatro de Fronteira
Autor: Gustavo Ott
Direção Geral: Rodrigo Dourado

- Além disso, tem Festival de Teatro para Crianças, com uma programação maravilhosa. Confira aqui.
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23 de julho de 2010

À espera do azul


Hei de acordar azul
e meu verso será
como sorriso de criança.

Mas hoje, não.

(foto feita por moradores do Coque através do projeto CoqueVive)
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19 de julho de 2010

Minha alma na bandeija


Andarei descalça.
Apesar das feridas
e cicatrizes
que me marcam a sola dos pés.
Apesar das pedras,
dos cacos,
dos espinhos,
dos buracos.
Não vestirei sandálias nem anéis.

Eis aqui a minha pele,
meu corpo,
meu sangue,
como praça de guerra aos escorpiões.
Não farei blindar minha alma
Nem erguerei muralhas
em meus porões.

Servirei a mim mesma -
meus olhos,
minha língua,
meu coração em uma bandeija.

Deixem-lhes verter em meu peito
suas ventosas.
Não morrerei.
Farei lâminas de mim,
e tecerei fios de sangue,
regurgitarei meus olhos
e, como bicho ruminante,
os engolirei.

(Imagem de Frida Kahlo)
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9 de julho de 2010

Anjos de Piva

Ando tão fora do mundo real que agora,
somente agora,
uma semana depois,
vim saber do falecimento de Roberto Piva.
Para ele,
e seus anjos feridos,
e seus pássaros banhados em sangue,
e todos os tentáculos das cidades,
nossa homenagem.
Para nós,
os que ficamos na selva de cobras verdes,
um pedacinho dele:

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7 de julho de 2010

Rasgos


Um rasgo
no céu
risco
no papel

e as estrelas cadentes singram o ar
e estrelas decadentes sangram no altar

poemas são acrobacias de palavras deserdadas!

(PS: Colegas da blogosfera, eu recomendo para vocês uma passagem pelo Interpoética. Está de cara nova e ainda mais convidativo aos apreciadores dos desarranjos das palavras)
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5 de julho de 2010

Para uma amiga especial

Por que eu não sei o que escrever quando penso nela, e no entanto é uma amiga tão especial?
Por que as palavras falham, a voz não grita e o coração fica parado em uma imagem e um sorriso?
Deve ser, Edivane, por que você é sempre aquele ponto na frase, que parece completar o que gagueja.
Deve ser, Edivane, por que você é pouso certeiro em meus eternos vôos, pequeno descanso para asas afoitas.
Deve ser, Edivane, por que você tem as pedras que abrandam correntezas; é aquela rede que impede que o intrépido trapezista se esborrache no chão.
Deve ser, Edivane, por que seus olhos vêem os céus sem nuvens: límpido, claro, com todos os seus azuis.

Cigana de encruzilhadas: em uma mão, o talento e a criatividade de quem escreve e atua. Na outra, a mão segura e a voz firme de empresária. Entre as duas mãos,o sorriso aberto e a alma limpa, de quem não se deixa macular.
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22 de junho de 2010

Exílio


Primeiro, arremessaram-me um tiro ao peito.
Não morri.
O tiro, entretanto, permaneceu dentro de mim como uma pedra.

Então, tentaram arrancar-me a língua.
Não cedi.
Mas a pedra cresceu e fez montanha em minha alma.

Depois desistiram de mim.
E deixaram-me,
com minha língua,
meus olhos,
minhas mãos.

E criaram,
à minha volta,
um abismo de silêncio.

As palavras,
ignoradas,
subiram ao topo da montanha de pedra
em busca do céu ou do mar.
E não havia nada.

Foi quando entendi,
que já não precisariam arrancar-me a língua,
os olhos,
as mãos,
porque tiraram-me as estrelas que me guiavam
e nada que era meu tinha mais serventia.
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18 de junho de 2010

Adeus, Saramago

"Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta aparecem, em todo o mundo, leitores que se declaram devotos e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir.(...) Isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: ele morreu e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas".

O texto acima foi escrito por José Saramago em maio de 2009, como homenagem a Mário Benedetti. Reproduzimos suas palavras para falar dele próprio, que nos deixou nesta manhã. Suas palavras ficam. Mas fica também um legado de coerência, de quem nunca cansou de denunciar as mazelas do mundo...
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17 de junho de 2010

Pra não dizer que não falei de Copa...


Fui eu ou a seleção quem perdeu a alegria?
Quero crer que não tenha sido eu.
Mas o fato é que minha memória traz imagens bem mais gloriosas de Copa do Mundo.
Lembro de 82, tinha então dez anos. E guardo até hoje em lembrança o tamanho de minha tristeza final.
Lembro também de várias alegrias: amigos reunidos, muita bagunça, muita cachaça, muito carnaval.
Desde a Copa passada, entretanto, algo se perdeu - não sei se em mim. Apesar das ruas enfeitadas, do côro dos vizinhos e do refrão que se repete nas esquinas-rádios-e-televisões.
Não perdi, contudo, o gosto pelo futebol: meu Santinha que o diga. Por isso, quem sabe, até o final da Copa, a seleção não consiga remexer as coisas lá dentro de mim?
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Oca

Estou oca.
As palavras cavaram um abismo em mim.
A chuva não lavou minha alma,
fez um charco de lama
e nesta lama me afundei.
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1 de junho de 2010

O pequeno André

Tem seis anos e precisa de atenção.
Por isso corre.
Por isso pula.
Por isso fala tanto.
Somente por isso o pequeno André testa a paciência da única pessoa de quem dispõe: seu tio Arlindo.
Sabedor das necessidades da criança, o velho tio não grita, não ralha.
Persegue, de longe ou de perto, o menino que tomou como filho.
Sujeita-se a acompanhar o ritmo da criança, embora suas pernas e sua idade não o permitam.
E explica os desvarios do pequeno André:
- Não tem ninguém no mundo. A mãe é doente e o largou. Ninguém na família o quer. Tenho pena...
Não sabe Seu Arlindo que, se um dia houve piedade, esta já se transformou em amor. Virou sentimento paterno. Então ele fala com orgulho de seu menino, que sabe rezar, que é agitado mas não bate em ninguém, que o acompanha para onde ele vai e até o ajuda nas tarefas de casa.
Mas o garoto, que também ama o tio como se fosse pai, quer mais. Quer uma mãe, nem que seja postiça. Uma família, nem que seja de mentirinha.
Então me descobre.
E conversa comigo.
E brinca comigo.
E conta histórias comigo.
E, quando chega a hora de ir embora, quer ficar comigo.
A separação custa, em ritual de convencimento.
Volto para casa, com sua imagem presa em minha alma.
Dois dias se passam.
A imagem continua aqui.
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19 de maio de 2010

Infância roubada

Quando calaram-se as últimas fadas, ela se sentiu só, a criança. As amigas falavam de moda e exibiam os sapatinhos cor de rosa, com saltos. Punham maquiagem nos olhos e ensaiavam o mais novo rebolado. Ela não sabia de nada. Gostava de andar descalça e de rebolar com bambolê.

Por muito tempo, conviveu bem com o isolamento que lhe impunham as coleguinhas de sala. Tinha as fadas, sua companhia. Mas o tempo se encarregou de apagar estes rastros e fazer a solidão pesar, como cruz.

As meninas apontavam-lhe com o dedo e riam. Diziam-lhe louca, aluada, boba, abestalhada e outros adjetivos mais impróprios. Ela não dizia nada. Mas, agora, já não se sentia tão bem. Tinha nove anos e fora criança alegre. Não mais.

Chorava por ter que ir à escola, que lhe parecia uma tortura sem fim. Afundava-se nos livros para não ter que olhar as crianças a sua volta. Queria ficar em casa, com a mãe e a irmãzinha. Brincar de boneca, pega-pega, esconde-esconde. Ouvir histórias bonitas e dormir com cantigas de ninar. Mas as amigas da escola lhe roubavam a infância, a cada dia.

Quando cansou de ser sozinha, passou a imitá-las. Decorou os passos da dança e aprendeu a rebolar sem bambolê. Exigiu da mãe sapato alto, com fivela rosa. Aprendeu também a xingar, falar desaforos e olhar de banda para os que não se enquadravam.

Foi aí que as fadas, que estavam caladas, mas vivas, começaram a morrer.
Hoje, ela tem 24 anos e a alma seca, como imenso deserto.
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7 de maio de 2010

Toda mãe tem medo

Toda mãe tem medo.
Medo que o filho caia,
que se machuque,
que sofra.
Medo que o filho se perca em atalhos escuros...

Toda mãe tem medo.

A maior e mais difícil das lições da maternidade
é enganar esse medo.
É saber que ele é para sempre nosso companheiro.
E deixar que o filho caia,
que se machuque,
que sofra.
Deixar que o filho aprenda com os empurrões da vida.
Mas estar sempre perto para o que for preciso.

E, quando ele enveredar pela escuridão,
fazê-lo acender em si mesmo
a luz que lhe entregamos sempre.

Toda mãe tem sonhos:
que o filho se forme,
tenha bom emprego,
bom casamento.
E nos encha a casa de netos,
para reaprendermos a infância.

Toda mãe tem sonhos...

Mas o melhor é perceber os sonhos deles.
E quando parecerem irreais ou inoportunos,
que, mesmo assim,
a gente se deixe embarcar,
ainda que tenhamos em mãos as bóias de salva-vidas.

Porque melhor do que sonhar um mundo perfeito para os filhos,
é refazer os sonhos,
rever os valores
e ser feliz com eles.
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3 de maio de 2010

O assediador

Cuspiram em sua alma,
jato de pus,
catarro...
E enquanto aguarda a própria putrefação
ele confere as aplicações no banco
e os modelos do próximo carro.

Sua alma,
escarrada,
exala a infecção.
Ele vomita germes
e espalha nódoas.
Depois recebe a comissão.

E à sua volta,
dividem-se os homens
entre podres e insanos.
Ele lê a Veja,
frequenta a igreja,
e planeja as viagens dos próximos anos.

Sua alma,
infectada,
roubou-lhe a visão.
Do alto de seu trono de vento,
ele recebe
a carta de demissão.
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Silêncio


Eu poderia falar tantas coisas.
Falar das histórias que há pouco ouvi, de gente que adoece e perde a vida em um trabalho insano. De gente que, por um pouquinho de poder, vira capataz de gente. E de um sistema que rouba as vidas e as almas à tão baixo custo: um salário ou uma comissão. Mas estas histórias, embora tenham me marcado, já foram contadas pela jornalista.(Estarão postadas em breve no site: www.bancariospe.org.br)
Eu poderia falar tantas coisas.
Falar de minha mocinha e meu menininho: a vontade de ser gente grande, as descobertas de cada um.
Falar que, agora, também estou tentando manter atualizado o blog da Biblioteca Popular do Coque, onde há muitas histórias, sempre, pra contar.(www.bpcoque.wordpress.com)
Eu poderia falar tantas coisas.
Mas calei quase um mês inteiro.
E não tenho ânsias de falar.
Paira sobre mim um silêncio imenso.
Um deserto.
Uma catedral vazia...
Então,
deixem-me quieta,
com o meu silêncio.
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7 de abril de 2010

Alice no país da modernidade

Siga-me: disse o coelho branco a uma Alice meio chapada. Ela procurou a lan house mais próxima e tentou buscar no twitter este tal coelhinho. Achou. Colou seu nome à lista de seguidores. E mergulhou para sempre num buraco imenso que se abriu em sua vida.

As mensagens eram constantes: todo dia uma, as vezes até mais. E sempre intrigantes. Como se o tal coelho soubesse exatamente aquilo que se passava no pensamento da moça. Ela mergulhou neste poço. Não conseguia mais largar a tela do computador, em um abismo que parecia não ter fim.

Um dia, não havia mensagem alguma. Uma imagem apenas, de um gato com dentes armados - para o sorriso ou para a devoração. Alice fitou a imagem e, de repente, o gato pareceu sumir na tela. O sorriso ficou boiando, imenso e terrível...

Os dentes povoaram seus sonhos durante várias noites. Até que um dia, quando ela voltou a se afundar na tela, ele não estava mais lá. O que havia era um estranho convite: Coma-me! E, logo abaixo, um endereço.

Ela sabia que não devia ir até lá. Mas foi. Disfarçada, escondendo-se entre paredes e transeuntes. Mas foi. E então, o mundo pareceu crescer diante de seus olhos. As árvores, os carros, os muros... tudo era gigantesco, como em um conto de fadas. Aflita, ela desmaiou.

Acordou meio tonta, em um velho boteco, um copo de vodca na mão. Agarrou o celular e buscou as mensagens do twitter. Estava lá, em letras garrafais: Beba-me! Alice deu um gole na vodca e teve a impressão de ser sugada pelo celular. Tornou-se pequena, muito pequena... e entrou em uma terra que ela até então não conhecia.

Seguidores de uma seita serviam chá, passando a cabaça de mão em mão. Pareciam sombras de gente. Não se falavam. Não se olhavam. Tinham olhos perdidos no infinito. Alice desviou os olhos e procurou uma saída. Achou uma porta e correu em direção a ela. Foi quando avistou o jardim.

Havia rosas, sim. Havia árvores e plantas. Havia uma grama imensa. E até frutos pelo chão. Mas não havia cores, nenhuma. Tudo era sombra, só sombra. Alice correu até as rosas e, sem querer, espetou seu dedo em um espinho. Viu seu sangue rubro colorir a rosa. Passou, então, a se picar em cada espinho, só pra ter o prazer de enxergar alguma cor.

Cada vez mais pálida, ela escutou, ao longe, o som de uma trombeta. E um exército inteiro que se postava à sua frente. Mas já não tinha forças para esboçar qualquer reação. Foram todos presos: os seguidores da seita, um senhor de chapéu, uma mulher gorda a quem chamavam de rainha e ela, Alice, foi levada a um centro de desintoxicação. Só não conseguiram encontrar o chefe da rede de tráfico: Coelho Branco.
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30 de março de 2010

Noite


Há várias noites espero que a lua me indique o caminho.
E não há nada.
A noite chega e se vai sem um único raio que me ilumine.

Agarrei-me,
em minha insônia,
à cauda de uma estrela cintilante.
Mas ela girou,
girou,
e devolveu-me ao abismo no qual estou suspensa.

Não há lua em minha noite.
E meus caminhos não amanhecem.

Qual Penélope transfigurada,
teço e desteço,
noite após noite,
cada fio de meu destino.

O desmantelo de meu mundo não me ofertou novos caminhos,
só o vazio,
a repetição autômata das mesmas teclas,
a vontade de fugir e os pés atados ao chão.

Há várias noites espero que a lua me indique o caminho.
E não há nada.
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24 de março de 2010

Legado de ternura

Seu Darcy era mais que um militante.
Era mais que um dirigente sindical.
Seu Darcy punha em cada palavra um afeto.
E arejava a rispidez da política com seu sorriso aberto.
Seu Darcy acreditava nas pessoas: com seus defeitos e qualidades.
Estava além das divisões partidárias porque tinha, em seu coração, um amor imenso pela humanidade.
Ouvir Seu Darcy, com sua voz doce e terna, era como escutar uma melodia.
Ele tinha poesia nos olhos e uma esperança contagiante.

Ontem, 23 de março, ele nos deixou.
Já vinha doente há algum tempo, uma diabete que se recusava a regredir.
Depois que sua esposa o deixou, ele também foi se deixando levar.
E a sua ausência deixou um vazio de ternura no movimento sindical.
Nossa esperança é que,
de lá,
das estrelas para onde se dirigiu,
ele ilumine cada coração com sua esperança doce e verdadeira.

Que teria dito Seu Darcy ao ver tão dividido o Sindicato que ele tanto amava?
Que teria feito ele?
De que lado teria ficado?

Eu digo que Seu Darcy seria,
sim,
sempre contrário à divisão dos trabalhadores.
Ele acreditava nas pessoas,
em cada uma delas.
E, justamente por isso,
ele não ficaria de lado algum.
Não porque tivesse receio de se posicionar,
mas porque não poderia apoiar algum dos lados
quando via ambos marcharem para o mesmo erro.
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22 de março de 2010

Aprendizagens



Estou aprendendo a não cobrar tanto das pessoas.

A não ver nelas o abismo escuro,
e sim a lua que surpreende a noite.

A não ver nelas a boca que devora,
mas os dentes que esperam o momento do sorriso.

Garras afiadas também fazem cafuné.
E há em todo sanque
tanta vida,
tanta vida...

Estou aprendendo a desconfiar de minhas verdades.
E sei que esta é a melhor maneira de acreditar nelas!
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9 de março de 2010

O enforcado


O enforcado.
Lá estava ele, atado pelos pés.
Uma corda que o prendia a lugar nenhum.
Segurei a carta com firmeza.
Olhei.
E tomei, então, meu primeiro susto.

Era eu,
sim,
era eu naquela carta.
Era eu que sorria para mim mesma,
de ponta-cabeça,
uma perna cruzada
e as mãos ocultas.

Fechei os olhos com força.
Estava em transe, não há dúvidas.
Aquilo não podia ser real.
Voltei a apertar os olhos
e fitei a carta,
mais uma vez.

Meu rosto,
de enforcada,
fez uma careta e voltou a sorrir.

- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, perguntei.
- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, a carta respondeu.
- É você, a enforcada - tornei a dizer.
- É você a enforcada - retrucou a outra.

E, assim,
meio sem perceber o que fazia,
apalpei meu próprio pescoço
e descobri a corda que me atava.

Olhei para a carta.
Era apenas um desenho de tarô:
um homem de roupas coloridas atado pelos pés.

Não voltei a tocar em meu pescoço.
Nem tampouco desatei o nó da corda que me prendia...
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28 de fevereiro de 2010

O Tricolor voltou



Uma brasa.
Uma centelha.
Uma faísca.
E o fogo ardeu sobre o estádio,
e o brilho subiu aos céus e alcançou a lua,
e a lua resplandeceu, imensa,
a iluminar a dança dos pés tricolores.

A menor fagulha,
que andava esquecida sob a madeira seca,
cresceu,
fez-se um brasão
para reacender a fogueira
que aqueceu 17 mil corações.

Não mais apenas uma esperança teimosa -
luzinha tênue
que insiste em sobreviver nas trevas.
Agora, o Santa Cruz é uma chama intensa,
de fogo e de brasa,
de sol e de lua.

Santa Cruz 6 X 1 Sete de Setembro. O tricolor voltou!!!

(Foto: CoralNet)
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24 de fevereiro de 2010

Portas

Viu-se,
no meio do caminho de sua vida,
preso em um quarto sem janelas nem móveis.
Duas portas, apenas.
E duas chaves em sua mão.

Testou a primeira.
E viu a porta abrir-se para um outro quarto,
exatamente igual.

Testou a segunda.
E deparou-se com uma escuridão imensa
a devorar-lhe os olhos,
com os dentes do medo.

Duas chaves.
Duas portas.
Duas opções.

Passaria sua vida de quarto em quarto,
testando eternamente as mesmas possibilidades...

... ou arriscaria tudo na noite imensa,
a ofertar abismos e janelas???
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10 de fevereiro de 2010

Urso PédeCana


O Urso PédeCana é alegria desinteressada.
É vontade de beber e brincar.
A cachaça de anis batisma os chegantes.
Curtida artesanalmente pelo próprio urso,
tem como tempero o destempero,
próprio de todo bom carnaval.
Mas o batismo mesmo vem depois,
no sobe e desce das ladeiras,
na abordagem nada sutil aos transeuntes:
"O urso quer beber, quem não der vai se fuder"
E assim a gente enche a cara.
E assim a gente se esbalda.
Quer vir?
Venha!
Em Olinda, na terça-feira gorda, a partir das 9:30 horas.
Saída da Rua Joaquim Cavalcante, 330 (Próximo a Igreja da Boa Hora).
Confira o mapa aqui

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8 de fevereiro de 2010

Calada pela vida


Em tempos de férias, as palavras calam.
E a vida toma o lugar delas.
Não há palavra que modele na boca
o gosto do peixe frito
ou da cerveja gelada.
O cheiro das algas ou da terra molhada de chuva.

Literatura maior é um sol desenhado na areia
para espantar tempestades.
É o mergulho nas ondas,
os sorrisos das crianças,
caminhadas de mãos dadas na beira-mar.

Então,
quando a gente volta ao mundo real,
estas palavras ainda ecoam.
E não há nada a falar...

Depois, é o carnaval.
E a alegria reina novamente, absoluta.
E não há espaço para dizer mais nada.

(Em resposta ao comentário de minha colega virtual, Magna das sementes)

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