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Mostrando postagens de 2009

Balanço de fim de ano

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Este foi o ano
que me pôs de ponta-cabeça, que fez de meus sonhos avesso, e me mostrou os homens e a política e o mundo em seu lado mais cru.

Papai Noel é a mãe!

Odeio crianças.
Odeio Natal, ano-novo e todas aquelas luzinhas piscando.
Sou gordo, feio, mal-humorado, liso e desempregado.
Aceitei aquele trabalho só pra ganhar a grana da cachaça que, esta sim, é minha amiga fiel.

Carta aos novos rumos

É chegada a hora do Adeus!
De fazer as malas e escolher novo destino.
Olhar para trás e perceber que valeu a pena,
ainda que os sonhos tenham se desfeito em brumas.

Aos que virão a nascer

Reproduzo, a seguir, um poema de Bertolt Brecht,
feitas sob medida para tempos que, afinal, mudam muito pouco.

Destempero

Escutem:
eu não sou tão mansa como sugere meu sorriso!
não sou delicada como faz supor minha miudez!
Eu destempero,
enlouqueço,
transbordo,
estou sempre à beira da combustão.

Sobre política e coração

Disseram:
- Para fazer política é preciso trancar o coração.
Ele acreditou.
E fez grande sua carreira.

O mar

O mar é parte de sua vida, desde sempre.
Quando criança, fingia-se sereia.
Prendia a respiração,
mergulhava o mais fundo que podia,
e deixava o som das águas criar uma cantiga em seu coração.

Tempos do tempo

Esqueço as vezes que o tempo correu.
Sou besta como criança
e ando na corda bamba, como adolescente...

Sonho semente

A menina esqueceu um pedaço de sonho no quintal.
Sonho de infância.
Destes rechonchudos e recheados.
Com cheiro de festa e sabor de chocolate.
Colorido, com todas as cores do mundo e de fora do mundo.

Tragada pelas horas

O tempo nos talha,
atropela,
atrapalha.

trabalho trabalho trabalho
trabalho trabalho trabalho

Vaso de cristal

Um dia,
quebrei o vaso de cristal de minha mãe.
Erro fatal.
Travessura sem perdão.
Eu era adolescente ainda.
Embora soubesse que cometera um deslize,
não sabia a dimensão de meu tropeço.

Dedos de fuzil

Pei! Pei!
A criança com dedos de fuzil.
Granadas no coração.
A morte passeia seu manto sobre nossas favelas.
E por trás dos muros, ninguém vê.

Assassinato da esperança

O jogo acabou há quase duas horas.
No entanto,
cada vez que fecho os olhos,
escuto,
com meu corpo inteiro,
um coro de 30 mil vozes que gritam:
- Ah! Eu acredito!!!

Das aprendizagens

Xande está aprendendo abraços.
O menino esquivo, que sonha ter uma arma e chuta cadeiras e gentes, já se deixa beijar.
E chega junto, como quem não quer nada, a alma sedenta de carinho.

Revoada

Houve um tempo em que as palavras escapavam de mim como pássaros.
Nem o papel os prendia.

Conto no escuro

Maria Helena conhecera a luz elétrica quando tinha 12 anos de idade. Hoje, mais de dez anos depois, seus olhos farejavam abismos, acostumados aos insondáveis da noite. Como felina, ela vagava pelas ruas escuras, tecendo manhãs. 

Sobre a imensa família coral

Ser torcedor do Santa é uma dádiva e uma lição.
É tirar fôlego de cada queda para ressuscitar a esperança.
É dar asas à fênix, para ir das cinzas às nuvens.
É costurar no coração a camisa coral.

O palavrão é codinome da beleza

(Estas palavras vão para Biaggio e Cleyton, pelos deliciosos comentários do último post)

O palavrão é o avesso da hipocrisia.
Sombra-reflexo da humanidade:
no cru, no grotesco, na sua face mais verdadeira.

Bordado

As vezes, penso que minha vida vai se bordando por si só.
Uma agulha invisível,
guiada sabe-se lá por que mão,
vai juntando tecidos passados e futuros,
alinhavando memórias,
costurando fragmentos
de tempos que se somam.

Presente de namorados

Meu namorado acorda cedo todo dia,
e me desperta com beijinhos,
ou toma conta de nosso pequeno para que eu possa dormir.

Para minha Didi-inha

Quando pequena,
tinha pesadelos horríveis,
com sombras aterrorizantes que a seguiam em escadas e porões.

Lembranças de adolescência

Ele era lindo, loiro, despojado,
usava uma calça jeans bem justa,
e arriscava umas notas no violão.

Não quero ser apenas palavras bonitas

Não.
Eu não quero. Não quero ser apenas palavras bonitas. Não quero escrever apenas belos poemas. Quero que minha escrita seja como um grito, e que mostre o mundo no que ele tem de belo e infame!!!

Morada das cores

Meu menino vê o mundo azul.
Foi azul a primeira cor que aprendeu a distinguir. E é de azul que se pintam seus sonhos: - Mãe, eu quero um cavalo azul que voa. Você compra? Não pude comprar-lhe os desejos, tais e quais. Mas pude dar uma burrinha, dessas de carnaval, feita de chita azul. Meu menininho lhe deu as asas e sorriu.

Para minha mãe

Mãe, eu cresci.
Hoje, sou eu quem canto para meus filhos
cantigas de ninar com a lua
Mas quem me sopra a canção aos ouvidos
é uma outra voz:
a tua.

Os sonhos de Alexandre

- Alexandre, qual seu maior sonho?
- Ter uma arma.

Quando só resta este desejo para uma criança de 13 anos, é porque seu coração desaprendeu a sonhar.

Retalhos de lembranças

Dizem que alegria de pobre dura pouco. Mentira! Alegria de pobre tem a duração da lembrança. É verdade que é feita de pedacinhos, entremeados por muitos vazios. Mas, juntos, estes pedaços ficam grandes. Imensos. Da largura da saudade.

Conto de fadas às avessas

A princesa espera em uma caixinha de vidro.
Está morta. Não. Adormecida.
Um sono sem sonhos,
embalado pela esperança de um príncipe que não vem.

De que são feitos os sonhos

De que são feitos os sonhos?
Há os que são feitos de nuvem, leves como flocos de algodão, trazem pedaços de infância, uma pipa no céu, que pula corda com o chão.

Pega na mentira

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Hoje é o Dia Internacional da Mentira.
Hoje é 1º de abril.
Nesta data, o Brasil deu início à maior mentira de sua história: a ditadura militar.
Nunca se mentiu tanto,
se omitiu tanto,
se calou tanto.
Silêncio obtido às custas da censura,
da perseguição, tortura e assassinato dos que não deixaram murchar a voz dentro de si.

Arco-íris

Tenho sete asas.
Sete cores do arco-íris.

Cinderela virtual

Adorava comentários.
Distração, nas horas vagas e noites mal dormidas, era passear por blogues e mais blogues. Em cada um deles, deixava uma impressão, uma sombra, uma marca de sua passagem.
Não pedia retorno nem deixava endereço. Só um sapatinho em cada um dos degraus desta escadaria virtual.
Em todos, esta face sem nome deixada na assinatura: anônimo.

Lata d'água na cabeça

Passou sua infância a carregar latas de água na cabeça.
Equilibrava-se nos trilhos do trem,
do Coque à fila da água.

Pedaços de mim

É hora de confessar:
não me chamo Luna, nem ao menos Freire. Ela é, entretanto, uma de minhas múltiplas faces, como a Bifa do teatro ou a Fabiana jornalista.

A usurpação da memória

O mais duro dos castigos infligidos ao espírito libertário pernambucano não foi o saldo de mais de 1.600 feridos na Revolução de 1817. Não foi, muito menos, nos ter privado da Paraiba, Alagoas ou Rio Grande do Norte - outrora partes de nosso território. Não foi a repressão cruel de cada uma das revoltas, com mortes em praça pública, ou cabeças e mãos mutiladas e expostas... O mais duro dos castigos foi a usurpação de nossa memória. 

Fadiga duplicada

Quando minha cabeça dói,
o estômago reclama
e este peso imenso desaba sobre meu corpo,
então meu pequenino chora,
faz dengo,
quer colo,
como se minha fadiga pesasse sobre ele.

Você inteira é um jardim

Ah, menina...
eu sei como é duro quando uma semente não germina!
A gente rega de sonhos, celebra a vida, a fecundação... e o sonho não prospera, a vida emperra, a flor não brota.

Contagem regressiva para o Carnaval

Metade de minha alma é feita de confetes e serpentinas. Metade de minha alma se embala no frevo e nos maracatus. A outra metade é quarta-feira de cinzas... mas esta eu faço adormecer por sob as máscaras e fantasias.

Pedaço de férias

Final de tarde na beira do mar.
O barulho das ondas.
A água quase morna.
O vento leve e o sol morrendo por trás dos coqueiros.
Doce férias...

1 minuto de silêncio

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Há imagens que não necessitam de palavras.
A pequena Somaeah Hassan, palestina, está morta. Foi uma das centenas de crianças abatidas por Israel na faixa de Gaza.