30 de dezembro de 2009

Balanço de fim de ano



Este foi o ano
que me pôs de ponta-cabeça,
que fez de meus sonhos avesso,
e me mostrou os homens
e a política
e o mundo
em seu lado mais cru.

Mas este foi o ano
que me fez perder e achar a esperança a cada dia
fazer dela busca incessante,
destruída e reconstruída,
a cada instante,
cada hora,
cada segundo.

Essa aprendizagem eu devo à gente do Coque,
sobretudo às crianças.
É para elas que fica o meu melhor de 2009
e minhas maiores expectativas para 2010.
Esta crônica pertence aos inquietos
e desafiantes Xande, Tales, Leandro, Maicol.
Aos sensíveis, de grito abafado no peito,
Jonatan, Martinha, Mariana, Elisa, Josafá.
Aos quase adolescentes, Ítalo, Joel, Alice, Ana.
Aos pequeninos Guega, Vitória, Ester, Bolinho.
Esta crônica pertence a Betânia e Rafael,
gente que me dá orgulho de ser gente.
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21 de dezembro de 2009

Papai Noel é a mãe!

Odeio crianças.
Odeio Natal, ano-novo e todas aquelas luzinhas piscando.
Sou gordo, feio, mal-humorado, liso e desempregado.
Aceitei aquele trabalho só pra ganhar a grana da cachaça que, esta sim, é minha amiga fiel.
Mas levantava-me, a cada dia, com a sensação de que ia à câmara de tortura.
E, de fato, assim era.
O ar-condicionado não aliviava o peso e calor daquelas roupas.
O cinto me amassava a pança.
As botas faziam calos nos pés.
E a barba, horrorosa, causava alergia e me encaroçava o queixo e as bochechas.

Mas o pior,
o mais terrível,
o maior dos castigos
era ter que sorrir para todos aqueles pirralhos.
As inocentes,
lindinhas
e sorridentes crianças que me sentavam no colo,
me puxavam a barba,
e me faziam pedidos estapafúrdios.

Um noite,
final de expediente,
vi que uma mãe puxava um guri pela mão:
- Vamos, Bolinho, aproveita que não tem mais fila. Vai lá e pede teu presente pra papai Noel.
A mulher empurrava o menino
que não parecia muito animado a sentar em meu colo.

Prostrou-se à minha frente.
Era gordo, feio e não parecia de bom humor.
Não riu.
Eu também não.
Olhou no fundo de meus olhos.
Olhei também.
Fez uma careta horrível.
Eu o imitei.
E comecei a gostar daquele pivete.
- Papai Noel, você é feio à beça.
- É, sou.
- Você é mais gordo que eu.
- É, sou.
- E você é velho.
- É, sou.
- E também é muito chato.
- É, sou.
- Então, um dia, eu vou ser um Papai Noel, igual a você.

E então sorriu.
Sorriu pela primeira vez e eu vi que era sorriso de verdade,
de felicidade.
- E porque você quer ser Papai Noel menino? Acha que é bom?
O gordinho calou.
Pensou.
Olhou no fundo de mim e de si.
Disse:
- Quando eu for Papai Noel, todas as crianças vão gostar de mim.

A partir daquele dia, nunca mais deixei de ser o melhor e mais feio Papai Noel de todos os shoppings da cidade.
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4 de dezembro de 2009

Carta aos novos rumos

É chegada a hora do Adeus!
De fazer as malas e escolher novo destino.
Olhar para trás e perceber que valeu a pena,
ainda que os sonhos tenham se desfeito em brumas.

O que vale é que enquanto neles eu acreditei,
os fiz verdadeiros.

E,
mesmo que,
de repente,
nada mais reste que frangalhos, ossos e sangue,
estou inteira
porque mataram-me sonhos,
não a possibilidade de sonhar.

A guerra não me derrubou.
Mas arrancou o solo onde eu depositara minha bandeira.

É chegada a hora de enterrar os mortos!
Jogar sobre os cadáveres
a última pá de terra.
E ver crescer sobre ela uma nova árvore.

A memória de meus sonhos não morrerá em mim.
Será adubo para novas colheitas.

Se o abismo desenhou-se à minha frente,

é hora de levantar a ponte!
Que minhas palavras sejam as engenheiras.

Não tenho medo de olhar pra trás.
Estou inteira.
Adeus!
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24 de novembro de 2009

Aos que virão a nascer

Reproduzo, a seguir, um poema de Bretolt Brecht.
Foram colhidas no blog do poeta Carlos Maia
e feitas sob medida para tempos que, afinal, mudam muito pouco.

É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua.
Uma testa lisa revela insensibilidade.
Os que riem,
riem porque ainda não receberam a terrível notícia.

Que tempos são estes,
em que uma conversa sobre árvores é quase um crime
porque traz em si o silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali,
tranquilo a atravessar a rua,
não estará já disponível para os amigos em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso.
Nada do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado
(Quando a sorte me faltar, estou perdido)

Dizem-me: Come e bebe!
Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber
quando roubo ao faminto o que como e
o meu copo de água falta a quem morre de sede?
E, apesar disso, eu como e bebo.

Também eu gostaria de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
retirar-se das querelas do mundo
e passar este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência,
pagar o mal com o bem,
não realizar os desejos,
mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!

II

Cheguei às cidades nos tempos da desordem
quando aí grassava a fome.
Vim viver com os homens nos tempos de revolta
e com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre batalhas
Deitei-me a dormir entre assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

No meu tempo, as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer.
Mas os senhores do mundo,
sem mim,
estavam mais seguros,
esperava eu.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

As forças eram poucas.
A meta estava muito longe.
Claramente visível,
mas nem por isso ao meu alcance.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

III

Vós, que surgireis do dilúvio
em que nós nos afundámos,
quando falardes das nossas fraquezas
lembrai-vos também do tempo das trevas a que escapastes.

Pois nós,
mudando mais vezes de país que de sapatos,
atravessamos as guerras de classes,
desesperados,
ao ver só injustiça e não revolta.
E afinal sabemos:

também o ódio contra a baixeza
desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
torna a voz rouca.

Ah, nós,
que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade,
não soubemos afinal ser amáveis.
Mas vós,

quando chegar a hora de o homem ajudar o homem,
lembrai-vos de nós com indulgência.
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18 de novembro de 2009

Destempero

Escutem:
eu não sou tão mansa como sugere meu sorriso!
não sou delicada como faz supor minha miudez!
Eu destempero,
enlouqueço,
transbordo,
estou sempre à beira da combustão.

Saiam de perto.
Eu não sou elegante.
Faço gestos obscenos e digo palavras tortas.
Sou perigosa bomba,
basta apertar um botão.

Não saiam de perto os que forem meus amigos
os que sabem que meu destempero lava mágoas
e permite que eu não me afogue
em tristeza,
em decepção.
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16 de novembro de 2009

Sobre política e coração

Disseram:
- Para fazer política é preciso trancar o coração.
Ele acreditou.
E fez grande sua carreira.
Tornou-se arquiteto de discursos,
exímio articulador,
malabarista de alianças,
formulador de estratégias.
Foi ao topo.
Galgou o poder.
E, quando lá chegou,
seu coração,
trancado,
esquecera os sonhos.
E, no caminho,
seu coração,
trancado,
já não conseguia distinguir as verdades nos outros corações.
Ele perdeu-se de si.
Fez política, sim.
Em vão.
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3 de novembro de 2009

O mar


O mar é parte de sua vida, desde sempre.
Quando criança, fingia-se sereia.
Prendia a respiração,
mergulhava o mais fundo que podia,
e deixava o som das águas criar uma cantiga em seu coração.
Sua mãe tinha medo.
Sonhara,
um dia,
que a menina era tragada pelas ondas,
levada para o azul sem fim.

O mar foi entrando em sua vida, desde sempre.
Na solidão de adolescente,
buscava nas ondas namorados que não tinha,
caminhava sozinha,
enterrando os pés na areia,
a contar segredos ao mar.
E enquanto a mãe reclamava
os sumiços da moça na beira da praia,
enquanto a mãe chorava ausências
a relembrar sonhos antigos,
a velha cantiga crescia na alma da jovem.

O mar tomou-lhe a vida,
como afogamento ou naufrágio.
Mas foi um sonho bonito de se ver...
Ele invadiu aos poucos os sonhos da moça.
E ela fez-se mulher-azul,
mulher-sereia,
imensa de mar.
Vez por outra, transbordava pelos olhos,
em lágrimas desavisadas,
que vinham sem porquês.

Mas, então,
a cidade cresceu à sua volta
e puseram pedras na praia
para que seu mar não derrubasse prédios ao redor.

Hoje,
a tempestade já não avança além das cercas,
mas escorre pelos subterrâneos
enchendo a mulher de um azul sem fim.
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19 de outubro de 2009

Tempos do tempo

Esqueço as vezes que o tempo correu.
Sou besta como criança
e ando na corda bamba, como adolescente...

A vida faz questão de me lembrar de esquecer...
que o tempo correu.
Coloca em meu caminho pedaços renovados de mim.

Vejo espelhos à minha volta que subvertem o tempo
e me oferecem jovens nos quais me reconheço,
alguns anos atrás.
E com eles converso como se tempo não houvera entre nós.

Tenho pessoas à minha volta que subvertem o tempo
e guardam juventude e infância no coração de quase meio século.
E rio com as brincadeiras de meu compadre.
E me enfureço com a instabilidade adolescente de meu amado.
E vejo que, para eles, o ponteiro do relógio deixou de rodar

Por isso,
faço questão de esquecer que o tempo corre.
Por que há,
em cada tempo,
todos os tempos.

E eu sou assim, criança-jovem-e-velha
neste dia em que completo mais um ano de passagem:
16 de outubro
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5 de outubro de 2009

Sonho semente

A menina esqueceu um pedaço de sonho no quintal.
Sonho de infância.
Destes rechonchudos e recheados.
Com cheiro de festa e sabor de chocolate.
Colorido, com todas as cores do mundo e de fora do mundo.

A menina cresceu,
cada dia um pouquinho.
E uma semente germinou.
Fez-se árvore grande,
imensa,
a empurrar as outras,
derrubar os muros da casa,
deitar raízes sob os alicerces das construções.
Era preciso derrubá-la.
Ou ela destruiria tudo.

A moça agarrou-se ao tronco.
Mas removeram-na de lá.
Ela, então, teve uma idéia:
subiu o mais alto que pôde,
se alimentou das frutas que ninguém via.
Depois desceu, e deixou que derrubassem a planta grande.
Abriria os braços e elevaria os olhos ao céu
para que sua árvore dos sonhos crescesse imensa dentro de si.

Tela de Berta Andrade Malhinha
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15 de setembro de 2009

Tragada pelas horas


O tempo nos talha,
atropela,
atrapalha.

trabalho trabalho trabalho
trabalho trabalho trabalho

durante estes dias de silêncio,
meus dedos viram teclas,
autômatos,
e emparedaram as palavras vivas em meu peito.

O tempo virou relógio:
seus ponteiros eram flechas
apontados para o que era verbo em mim

e os dias passaram como avalanche,
fui tragada por uma rotina de letras murchas.

Estou de volta, finalmente.
Tenho, novamente, as rédeas de meu tempo.

PS: Minha pequena Anaís agora também tem blog.
Acessem: meussegredosanais.blogspot.com
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20 de agosto de 2009

Vaso de cristal

Um dia,
quebrei o vaso de cristal de minha mãe.
Erro fatal.
Travessura sem perdão.
Eu era adolescente ainda.
Embora soubesse que cometera um deslize,
não sabia a dimensão de meu tropeço.

Fugi de seus gritos.
Fugi de mim mesma.
Fugi.
Não podia vê-la desabar seu desespero sobre mim.
É que era minha mãe, ela própria, aquele vaso de cristal.

Ninguém diria que por trás daquela mulher independente,
segura,
dona de si mesma,
havia uma menina com sonhos de princesa em seu castelo.
Eu, então, também não sabia.

Então punha os pés sujos sobre o sofá.
Deixava marcas na porta de vidro.
E desfazia em bagunças a casa habitada por sonhos de cristal.

Havia uma saleta de sombras,
janelas e cortinas cerradas.
(Para não queimar os quadros - ela dizia)
Aquele espaço, desabitado, reservava-se a visitas.
Que nunca vinham.
E o carrinho de finos licores envelhecia,
esperando ilustres convidados,
para festas de ilusão.

Um dia,
não sei exatamente quando,
minha mãe decidiu acordar.
Ela não juntou os cacos do vaso quebrado.
Tampouco o substituiu.
(Vasos de cristal não se colam, nem substituem)
Minha mãe acendeu as luzes da saleta.
Abriu as janelas.
Olhou a vida lá fora.
Depois deixou o castelo,
e viu que o mundo de verdade também pode ser bom.
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18 de agosto de 2009

Dedos de fuzil

Pei! Pei!
A criança com dedos de fuzil.
Granadas no coração.
A morte passeia seu manto sobre nossas favelas.
E por trás dos muros, ninguém vê.

Um rastro de sangue invade cada barraco.
Silenciosamente.
E se aloja sob os cadáveres do futuro
e da esperança.

Nestes escombros a morte faz sua morada
e se projeta
das palavras que não são ditas,
dos gritos que não são ouvidos,
das letras que não se lêem.

Pei! Pei!
A criança com dedos de fuzil.
E um olhar que implora por salvação!...
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9 de agosto de 2009

Assassinato da esperança

O jogo acabou há quase duas horas.
No entanto,
cada vez que fecho os olhos,
escuto,
com meu corpo inteiro,
um coro de 30 mil vozes que gritam:
- Ah! Eu acredito!!!

E o meu coração me soca por dentro,
Meu sangue ferve
e me seca a alma de esperança.
Faz-se um deserto em mim.

Futebol não é uma bobagem.
Futebol é a metáfora do mundo.
As 30 mil vozes,
a empurrar seu time até o último segundo...
As 30 mil vozes,
mudas,
roubadas de si mesmo,
testadas em sua fé e em sua força...
Estas 30 mil vozes são um retrato do Brasil.

A vida não é justa.
O mundo não é justo.
O futebol não é justo.

Aos excluídos,
aos rebaixados,
aos da série D,
o que resta é uma esperança desnutrida,
magra,
carcomida,
espancada a cada tentativa de reerguer-se do chão.

Escrevo para que minha tristeza escorra em palavras
e não ajude a matar esta que já está no chão.

Porque futebol é uma metáfora do mundo. E o mundo não é justo!!!

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31 de julho de 2009

Das aprendizagens

Xande está aprendendo abraços.
O menino esquivo, que sonha ter uma arma e chuta cadeiras e gentes, já se deixa beijar.
E chega junto, como quem não quer nada, a alma sedenta de carinho.

Xande está aprendendo leituras.
O menino que juntava letras sem percebê-las,
que olhava os desenhos dos livros, ansioso por compreender o que insinuavam,
está aprendendo que pode aprender.

Xande está aprendendo a ser.
O menino à deriva,
o menino náufrago de sua própria realidade
está aprendendo a remar.
Está aprendendo a acreditar em si mesmo.

E, quando eu o vejo assim,
aprendendo,
eu também reaprendo a esperança.
E ela tem a cor da felicidade.


Leia aqui a postagem anterior sobre este mesmo personagem.
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14 de julho de 2009

Revoada

Houve um tempo em que as palavras escapavam de mim como pássaros.
Nem o papel os prendia.
Em vão, eu tentava decorar idéias, que sempre me surgiam nos lugares mais inoportunos: ônibus lotado, meio da rua, entre cervejas no bar...
Em vão, tentava prendê-las com caneta, em guardanapos ou versos de documentos.

Houve um tempo em que as palavras escapavam de mim como lágrimas.
E, nossa!!!... como eu chorava!
Tinha dentro de mim tempestades.

Nunca domei os mares nem expulsei meus passarinhos.
Mas um dia eles deixaram de voar.
Creio que a vida machucou suas asas e derrubou alguns anjos de mim.
Deixei-os sangrar alguns anos, para que suas cicatrizes deixassem marcas na minha alma.
Então, comecei a repor pena por pena para, só então, reaprender a voar.
Vez em quando, consigo alguns vôos. E estou fazendo força para ir mais alto.
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13 de julho de 2009

Conto no escuro



Maria Helena conhecera a luz elétrica quando tinha 12 anos de idade. Hoje, mais de dez anos depois, seus olhos farejavam abismos, acostumados aos insondáveis da noite. Como felina, ela vagava pelas ruas escuras, tecendo manhãs. Nada mais a fazer. Entre as faíscas da memória, ela buscava um tempo em que ainda havia circos nas ruas. Em que havia bares, shows e teatros. Em que carros e gentes semeavam ruídos na cidade iluminada.

Há exatos onze anos e cinco meses, o país começara a se apagar. No princípio, a escuridão veio aos poucos. Mas depois se apossou de tudo e varreu do mapa os últimos contornos de um país, outrora chamado Passaraj.

Foi em 17 de maio de 2001 que o governo anunciou os primeiros cortes de energia. Estava vetado o fornecimento de luz elétrica para shows, eventos desportivos e anúncios publicitários. Não havia água. Todos os rios que alimentavam as companhias hidroelétricas estavam com sua capacidade comprometida.

Aos poucos, as pessoas se acostumaram com essas ausências. Os jogos de futebol passaram a ocupar as tardes e a vida transcorreu em seus comuns. Com 12 anos, Maria Helena pouco atentou a mudanças. Apenas notou que era obrigada a ficar menos tempo frente a televisão e que a mãe começou a usar lampiões a gás.

Um dia, contudo, tudo desabou. Foi a primeira vez que a menina viu o pai chorar. Sua empresa tivera que reduzir a mão-de-obra. Entre os dispensados estava ele, após 20 anos de duros serviços prestados. Nessa época, ainda havia bares à noite e alguma luz nas casas. Mas o que os olhos de Helena não viam era o exército de excluídos que crescia e, a exemplo do pai, perdia tudo do dia para a noite.

Venderam-lhe a televisão, o rádio e a geladeira. Nada mais se guardava porque nada havia a guardar. A mesa vazia passou a fazer parte da vida tanto quanto a escuridão. As noites ficaram desertas: ninguém mais tinha coragem de enfrentar as hordas de famintos e famigerados que se avolumavam nas ruas. De dia, uma multidão de desesperados quebrava postes, invadia empresas, sequestrava políticos e saqueava mercados. A divisão de renda passou a ser feita à força porque os degradados invadiam mansões e rompiam os muros dos castelos.

Não havia mais o que fazer. O governo, acossado, fugiu para outras paragens. E o abastecimento de luz, entregue às empresas privadas, tornou-se privilégio de poucos, que ainda podiam pagar as milionárias tarifas.

O tempo passou e as pessoas se acostumaram ao caos. Deixaram de gritar os miseráveis porque a penúria passou a ser de todos. Deixou de ser de alguns. Calaram os jornais. E o mundo, lá fora, esqueceu que havia um país chamado Passaraj. As empresas de fornecimento de energia elétrica se retiraram da cena de mansinho. A luz virou uma página virada da memória.

Agora, tudo estava calmo na escuridão. Helena tinha 23 anos de vida e 8 de solidão. Perdera o pai aos 14, a mãe aos 15 e a esperança aos 16. Escola não tinha desde os 13 anos e os amigos, que não sucumbiram no caos, fecharam-se em seus domínios para nunca mais sair. Helena fez da solidão sua companheira e da desgraça sua armadura. Assim protegida, poderia andar tranquila neste ponto negro suspenso no tempo.

O sossego atormentava-se apenas com a memória, que vez ou outra gritava, louca. Era ela a única que guardara uma réstia de luz. E com este fogo alimentava o grito, para falar de um tempo em que houvera vida. Em que ainda nasciam crianças e se beijavam os namorados nos jardins.

Era 15 de novembro de 2012. Helena decidiu apagar a memória e nunca mais ver a luz. Extinguiram o fogo. As sombras deixaram de incomodar. De dia, ninguém mais olharia as sobras de humanidade que resistiam sobre os escombros. O país virara um fantasma. Um ponto sem nó. Helena apagara a própria sombra para não ter que olhar estrelas sem as poder alcançar.
Desencavei este conto, que jazia em um arquivo sem nome.
Foi escrito nos malfadados tempos de FHC e seu governo do apagão
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6 de julho de 2009

Sobre a imensa família coral

Ser torcedor do Santa é uma dádiva e uma lição.
É tirar fôlego de cada queda para ressuscitar a esperança.
É dar asas à fênix, para ir das cinzas às nuvens.
É costurar no coração a camisa coral.

Torcedor do Santa não vibra sozinho, em frente à televisão.
Ele invade o campo, as ruas, os estádios rivais e cidades vizinhas.
É uma imensa família, com almas pintadas de branco-preto-encarnado.

Torcedor do Santa,
quando tem carro,
não usa a buzina para provocar o adversário,
mas para cumprimentar os irmãos de cores, tri-colores.

Torcedor do Santa sabe rir de sua própria desdita
e tirar do sorriso a munição para o próximo jogo.
Ele jamais rasga a camisa ou a esconde no armário.

Torcedores do Santa choram juntos,
vibram juntos,
viajam juntos,
resistem juntos.
E celebram, sempre, a vitória da solidariedade na imensa nação coral.

(Estive em Maceió para ver, junto com minha imensa família de milhares de tricolores, a vitória coral rumo às primeiras divisões. Santa 3 X 0 CSA).

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1 de julho de 2009

Tricolores invadem a blogosfera

Atenção, leitores, para a última notícia:
TRICOLORES INVADEM A BLOGOSFERA.
Tudo indica que os corais pernambucanos estão se unindo em rede virtual.
Os indícios estão evidentes no registro de favoritos da autora do blog palavraspontes, que se metamorfoseia sob o codinome de Luna Freire. Vejamos alguns exemplos:
Estuário, Samarone (com e): tricolor
Estradar, Dimas Lins: tricolor
Inscritos em Pedra, Josias: tricolor
Isso Eu, Biaggio: tricolor
Samuca Santos, o poeta: tricolor
Caótico, Inácio França: tricolor...
Resta investigar, ainda, alguns registros.
Não foram, por exemplo, identificados os times de Magna, do Sementeiras; Cleyton, do Cleytudo; Amanda, do Isso não aconteceu; e Urariano, do Sapoti de Japaranduba. Mas, em caso de não serem adeptos da fervorosa e revolucionária torcida branca-preta-encarnada, estão sob risco iminente de contágio.
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O palavrão é codinome da beleza

(Estas palavras vão para Biaggio e Cleyton, pelos deliciosos comentários do último post)

O palavrão é o avesso da hipocrisia.
Sombra-reflexo da humanidade:
no cru, no grotesco, na sua face mais verdadeira.
É o corpo carne,
terra,
bicho,
excremento.
Merda!
É o corpo coito,
sexo sem cortinas,
genitais expostos:
Caralho!!! Buceta!!!
Corpo que ejacula, sêmen que se espalha.
Porra!

O palavrão dessacraliza nossa voz, nossa palavra.
É a válvula da panela que apita no fogão.
Risco no papel branco.
Soco no estômago,
cartas rasgadas,
corpo que se oferece no banquete de Jocasta:
puta que o pariu!!!

O palavrão nos afasta do santo
nos aproxima do bicho:
do bicho-homem.
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16 de junho de 2009

Bordado

As vezes, penso que minha vida vai se bordando por si só.
Uma agulha invisível,
guiada sabe-se lá por que mão,
vai juntando tecidos passados e futuros,
alinhavando memórias,
costurando fragmentos
de tempos que se somam.

Coisas que parecem esquecidas
lá estão, nos fios que se entrelaçam.
As histórias dos pescadores
que um dia aninharam meus ouvidos de jornalista
eu hoje reconto,
até sem perceber,
para os meninos da Biblioteca do Coque.

Meus grupos de teatro -
o Pano de Boca, Tróia de Taipa
e as experiências lúdicas em tempos de Arteviva -
me fizeram atriz das entrelinhas,
a costurar minhas marcas nas dobras do tecido.
Me deixaram eternamente prenhe
de sonhos solidários:
um teatro que se constrói juntos
e que, em sua efêmera passagem,
guarda para sempre nosso rosto.

A literatura de cordel, o jornalismo sindical...
em cada riacho, eu busco a margem,
e meu bordado vai se tecendo no avesso do pano.
Então,
quando penso assim,
convivo melhor com a saudade
e com esta coisa triste
que é ser atriz à deriva,
costurando em outros sonhos
o sonho de teatro de grupo,
para não deixá-lo afogar-se em uma realidade nada coletiva.
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12 de junho de 2009

Presente de namorados

Meu namorado acorda cedo todo dia,
e me desperta com beijinhos,
ou toma conta de nosso pequeno para que eu possa dormir.

Isso é um presente!

Meu namorado vive comigo há quase dez anos
e sempre me deseja,
com um fogo intenso que não arrefece.

Isso é um presente!

Meu namorado não faz de conta que é perfeito.
Tem a leveza das nuvens ou a crueza das pedras,
Mas é verdadeiro e honesto, sempre.

Isso é um presente!

Meu namorado não sou eu.
São outros seus interesses
e ele não finge gostar de tudo que é meu.

Isso é um presente!

Meu namorado toma cerveja comigo
e nos divertimos muito.
Sempre.

Isso é um presente!

Meu namorado cuida de nosso jardim
e planta peixes em nosso aquário.
Por isso eu o amo.
E nosso amor é um presente.
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1 de junho de 2009

Para minha Didi-inha

Quando pequena,
tinha pesadelos horríveis,
com sombras aterrorizantes que a seguiam em escadas e porões.

Quando pequena,
via coisas que ninguém vê
e objetos que se mexiam, sozinhos, à sua frente.

Quando pequena,
não gostava muito de estudar,
tirava notas baixas enquanto suas irmãs tinham lindos boletins.

Quando pequena,
era gordinha e morena,
enquanto elas eram alvas e esguias.

Perseguida por todas aquelas sombras,
ela não conseguia perceber
que sua inteligência era criativa, e não se prendia em notas de boletim
que sua beleza a diferenciava em seus olhos expressivos;
contrastava com a magreza branquela das irmãs.

Ela cresceu, mas as sombras cresceram com ela.
Ela cresceu, mas continuou sem conseguir enxergar a si mesma.
Ela cresceu,
e quando as sombras indizíveis não a atormentavam,
ela passou a se ofuscar sob as sombras de amores.
Não conseguiu, contudo, achar o amor dentro de si.

Ah, minha menininha grande,
põe os óculos da auto-estima e expulsa de vez estas sombras que te perseguem.
Estarás sempre cega se colocas nos outros teus olhos.
Estarás sempre triste se deslocas para os outros tuas razões de ser feliz.
A felicidade é um vagalume bem pequenino,
e, quando acende, alumia as coisas mais simples.
Mas é preciso ter olhos para enxergar o seu brilho.
Então, didi-inha, trate de procurar os teus.
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29 de maio de 2009

Lembranças de adolescência

Ele era lindo, loiro, despojado,
usava uma calça jeans bem justa,
e arriscava umas notas no violão.
Ela era pequena, bobinha
e cheia de romances na cabeça.
Enquanto ele ocupava as noites,
nos bares e boates,
rodeado de meninas lindas e modernas,
ela enchia seu sono de histórias de amor.
Um dia, ele deixou de freqüentar a sua rua.
Não ia mais às festinhas,
não tocava mais seu violão.
O tempo passou
e sua ausência assombrou,
como um fantasma,
as noites da menina.
O tempo passou.
A menina continuou pequena,
mas seu pensamento criou asas.
Foi quando ela resolveu enfrentar seus fantasmas.
Pegou o telefone.
Ligou.
Ele já não lembrava seu nome,
mas ela não se deixou intimidar.
E os dois marcaram para sair juntos.
Ele foi buscá-la de carro
e a levou a um barzinho simples, próximo à praia.
Eles conversaram,
lembraram histórias,
riram juntos.
Mais nada.
Cada um seguiu sua vida.
Ela cresceu, frutificou, construiu novos sonhos.
E do passado não restaram sombras, apenas lembranças.
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21 de maio de 2009

Não quero ser apenas palavras bonitas

Não.
Eu não quero.
Não quero ser apenas palavras bonitas.
Não quero escrever apenas belos poemas.
Quero que minha escrita seja como um grito,
e que mostre o mundo no que ele tem de belo e infame!!!
Quero que minha palavra sangre,
como os meninos mortos pela guerra do tráfico.
E também faça sangrar quando necessário.
Quero poder abrir todas as janelas
das famílias que se enclausuram em seu mundo de sonhos e medos.
Quero abrir minhas próprias janelas
para perceber a dor que não é minha,
e deixá-la transbordar,
como lágrimas que escorrem sob as palavras.
Declaro, aqui, minha eterna adesão à causa comunista.
Serei sempre contra os que defendem a vida como mercadoria.
Serei sempre contra os que pensam o mundo como competição.
Declaro, aqui, minha admiração pelos pequenos militantes de todo dia:
os que fazem sua revolução sem holofotes,
nas periferias,
nas escolas,
nos lares.
A partir de agora, em tudo o que lerem de Luna Freire
haverá muito mais do que as palavras.
Haverá a vontade imensa de um outro mundo,
outra ordem,
outro pensamento.
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18 de maio de 2009

Morada das cores

Meu menino vê o mundo azul.
Foi azul a primeira cor que aprendeu a distinguir.
E é de azul que se pintam seus sonhos:
- Mãe, eu quero um cavalo azul que voa. Você compra?
Não pude comprar-lhe os desejos, tais e quais.
Mas pude dar uma burrinha, dessas de carnaval, feita de chita azul.
Meu menininho lhe deu as asas e sorriu.

Minha mocinha criou um mundo cor-de-rosa,
rosa seus sapatos, suas roupas, suas meias...
rosa cor do beijo de princesas,
e dos sonhos de todas as meninas de sete anos de idade.
Deste mundo de primaveras, ela tenta afastar os espinhos:
- Mãe, por favor, não morra nunca.
Eu quero morrer antes de você.
Ou que a gente morra juntas para passearmos juntas no céu.

O mundo de meu amado é vermelho.
De um encarnado intenso e impaciente,
desses que nos queima a alma
e não espera saciar a sede.
Meu amado tem sangue de exus nas veias
e nas mãos, o vermelho das rosas.
Seu humor anda sempre a galope,
e seu abraço é uma clareira no inverno.

Com tantas cores, faço meu oratório:
Sou filha de Oxumaré,
guardiã do arco-íris, que liga a terra ao céu.
Faço de meu coração, oratório: morada das cores.
E faço do arco-íris, a morada de meus amores!!!
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11 de maio de 2009

Para minha mãe

Mãe, eu cresci.
Hoje, sou eu quem canto para meus filhos
cantigas de ninar com a lua
Mas quem me sopra a canção aos ouvidos
é uma outra voz:
a tua.

Hoje, sou eu quem corro
entre o trabalho, as crianças,
contas a pagar.
Mas a mão que me guia
está em minhas lembranças,
por que tenho tua imagem
para me espelhar.

Hoje, sou eu quem põe de castigo,
dá sermão, põe cara feia,
diz que não e diz que sim.
Mas, pela minha boca,
fala também a tua,
pois foi você quem me fez ser assim.

Hoje, sou eu que não durmo
noites inteiras,
quando as crianças adoecem.
Amanhã, esperarei acordada
que o dia as devolva
dos bares e boates,
enquanto meus sonhos anoitecem.

Amanhã, os verei se afastarem,
criarem raízes,
flores, sementes.
E sentirei que o tempo deita ramos
e se espalha, eterno,
em cada uma das gentes.
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4 de maio de 2009

Sementes de Boal



Foi-se Boal.
No entanto, quanta coisa ele deixou!!!...
Quando a gente morre, deixando tantas sementes, é como se continuasse vivendo em cada um dos frutos e ramos que brotam.
Boal, portanto, continua vivo.
Em cada grupo de teatro que pensa no palco como obra coletiva.
Em cada ator, dramaturgo ou diretor que não pensa a cena como produtora de ilusões,
mas como convite para uma tomada de posição.
Digo mais:
Boal também continua vivo um pouco mais longe dos palcos:
nas penitenciárias, assentamentos, escolas e fábricas nas quais ele e seu grupo usaram o teatro para revelar contradições, injustiças, desejos e possibilidades de mudança.
Existem algumas mudas ramificando em cada canto do país.
O coração de Boal ainda bate, no desejo verdadeiro de quem faz do teatro mais do que vaidade pessoal.
Confiram o artigo de Kil Abreu em Carta Maior. (Foto: Carta Maior)
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24 de abril de 2009

Os sonhos de Alexandre

- Alexandre, qual seu maior sonho?
- Ter uma arma.

Quando só resta este desejo para uma criança de 13 anos, é porque seu coração desaprendeu a sonhar.
Xande é rebelde. Provoca os outros, briga, chuta, grita, quer impor sua valentia. Mas não consegue esconder a frustração por não ter ainda aprendido a ler. E, quando se permite um momento de quietude, copia as letras, as palavras, mesmo que não consiga decifrar-lhes o significado.
Xande faz-se de grande. Não quer ouvir histórias, essas coisas de criança. Mas quando as histórias são ditas, chega sorrateiro, de banda, fingindo distração.
Xande assina com nome de gangue, e desenha armas - de diferentes estilos. Mas quando as brincadeiras começam, vai sorrindo aos poucos, e entra na roda para voltar a ser o que é: um menino de 13 anos.
Quando a gente vê Alexandre assim - brincando, copiando letras ou prestando atenção nas histórias, tem certeza de que não foi o seu coração que desaprendeu a sonhar. Foram os seus olhos que desaprenderam a reconhecer os sonhos. Então, ainda há esperança. Apesar das armas, da violência, do tráfico, das drogas.
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17 de abril de 2009

Retalhos de lembranças

Dizem que alegria de pobre dura pouco. Mentira! Alegria de pobre tem a duração da lembrança. É verdade que é feita de pedacinhos, entremeados por muitos vazios. Mas, juntos, estes pedaços ficam grandes. Imensos. Da largura da saudade.

Saudade de um Coque assentado em maré, terra, uma linha de trem e muitas histórias. Histórias contadas pelas mães e avós, na frente de casa, em grupos de vizinhos, num tempo em que televisão era artigo de luxo. Um tempo em que as poucas tevês da comunidade eram disputadas por dezenas de crianças, ou mesmo adultos, que espreitavam pelas brechas das portas e janelas.

Histórias como a de seu Coque que, dizem, deu origem ao bairro. Patrono de uma família de pretos ricos, ele teria construído um palacete em meio aos casebres do local. Sua casa assentara-se no local onde, tempos depois, se ergueu a antiga delegacia. Quando, há cerca de dez anos, a delegacia foi derrubada, descobriram, sob as escavações, uma área desconhecida da casa, toda erguida no subterrâneo.

Histórias de assombração, escutadas no rádio, ou pela boca da professora - que fazia as crianças atravessarem correndo a distância que separava a escola de suas casas.

Histórias estranhas e misteriosas, como a de um homem, que praticava magia e guardava em sua casa muitos segredos. Um dia, dizem, a cabeça do homem explodiu sozinha. As crianças não podiam passar por perto, sob pena de dar de cara com aquela cena terrível de uma cabeça em frangalhos.

Histórias de homens que metiam medo, como o famoso Seu Nezinho, cinturão na mão para açoitar as moças que se entregassem pra noite. Lembranças temerosas, de uma época em que ladrões eram amarrados nos rabos dos cavalos e arrastados até cair o couro.

Histórias de homens queridos, como Seu João da mercearia, onde se comprava tudo do bom. Onde se podia comprar fiado a charque gostosa e a manteiga de verdade - tão diferente da margarina sem gosto de hoje em dia.

Histórias de aprendizagem, da difícil descoberta da leitura em famílias onde ninguém sabia ler. E do papel das professoras, para o bem ou para o mal.

Todos estes relatos foram feitos na reunião do dia 16 de abril de 2009 pelo grupo de mães do Coque, ainda em processo de criação. Foi uma tarde deliciosa, um momento raro de mergulharmos em lembranças e histórias, sem pensar na janta que temos que preparar, nas crianças que temos que levar à escola, ou em mais um capítulo da novela das oito. Muitas histórias ainda vão surgir. Hei de registrar todas elas.

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15 de abril de 2009

Conto de fadas às avessas

Esta vai para Magna, que me ofereceu o mote como inspiração. Confiram em sementeiras.blogspot.com.



A princesa espera em uma caixinha de vidro.
Está morta. Não. Adormecida.
Um sono sem sonhos,
embalado pela esperança de um príncipe que não vem.
Sete anões velam seu corpo, dia e noite.
O tempo não corre,
a princesa não respira,
não há morte, não há vida,
apenas uma ponte de nuvens que liga os dois.

E por essa ponte vem o cavaleiro,
espada em punho, belo como o mar azul.
A cada galope, deixa pra trás um rastro de nuvens
desfeitas na escuridão.

Do lado de cá,
o tempo não corre,
a princesa não respira
e os sete anões são estátuas de jardim.

E pela ponte de nuvens vem o cavaleiro,
a escuridão às costas
e um fiapo que resta para chegar ao lado de cá.

É quando ele olha a princesa que não respira,
e vê que o tempo não corre,
e que não há morte nem vida para além das nuvens.
É quando ele se arrepende e tenta voltar.
O cavalo breca e ele se depara com a escuridão.


O dilema:
lançar-se no apavorante infinito que tudo engole
ou abraçar a princesa morta e aceitar o tempo que parou.


O príncipe lança-se no abismo.

E a princesa espera numa caixinha de vidro...
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De que são feitos os sonhos

De que são feitos os sonhos?
Há os que são feitos de nuvem,
leves como flocos de algodão,
trazem pedaços de infância,
uma pipa no céu, que pula corda com o chão.
Há os que são feitos de pássaros,
livres como uma pena no ar,
trazem vôos de desejos,
e peixes que engolem o azul do mar.
De que são feitos os sonhos?
De facas, granadas, navalhas,
a nos mostrar o sangue nas veias.
A ferida,
o pulso aberto,
a alma em transe,
um punhal cravado no coração de uma sereia.


(imagem de Salvador Dali)
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3 de abril de 2009

Liguem as TVs

Na próxima terça-feira, dia 7 de abril, a Globo deve colocar no ar, ao meio-dia, matéria sobre a Biblioteca Popular do Coque.
Liguem as tevês.
Não sei qual vai ser o enfoque.
Mas, talvez, seja uma rara oportunidade de ver as crianças do bairro, não como vítimas da violência ou como criminosos em potencial, mas como meninos lindos, que gostam de brincar, de ler, de conhecer coisas novas. Talvez seja uma oportunidade rara de ver os adultos, não como bandidos, mas como gente com a alma repleta de solidariedade.
Não sei o que a TV vai mostrar.
Sei o que meus olhos me revelam.
De toda forma, liguem as tevês.
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1 de abril de 2009

Pega na mentira

Hoje é o Dia Internacional da Mentira.
Hoje é 1º de abril.
Nesta data, o Brasil deu início à maior mentira de sua história: a ditadura militar.
Nunca se mentiu tanto,
se omitiu tanto,
se calou tanto.
Silêncio obtido às custas da censura,
da perseguição, tortura e assassinato dos que não deixaram murchar a voz dentro de si.

A pior das mentiras é aquela em que todos acreditam.
E esta face de nossa história foi assim:
enganou metade de um país e calou a outra à força.

Engano de tal monta não se constrói facilmente.
Os algozes tinham os cúmplices perfeitos: a imprensa.
E a gente sabe: ainda há quem pense que os jornais não mentem jamais.

Hoje, os tempos são outros, a censura é outra, a violência é outra.
Uma coisa não muda:
a mentira que os jornais e tevês insistem em nos impor.

Salve os blogues, sites e canais alternativos de comunicação,
que fazem multiplicar as verdades e ressuscitam os mortos dentro de nós.

Sugiro, para mais informações sobre este tema, o seguintes link: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

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Arco-íris

Tenho sete asas.
Sete cores do arco-íris.

Partida em seus espectros, a luz do sol brilha sobre mim.
Do vermelho o pulso aberto, sangue, coração à mostra.
Do laranja, ânsia de voar.
Do amarelo, a alma em brasa. A esperança verde.
O azul do mar...
O azul do mar, índigo sereno, e o violeta que toda bruxa tem.

Tenho sete asas.
Sete cores do arco-íris.

No mais, é o negro da noite que me povoa.
E tece suas asas no avesso de mim.
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31 de março de 2009

Cinderela virtual

Adorava comentários.
Distração, nas horas vagas e noites mal dormidas, era passear por blogues e mais blogues. Em cada um deles, deixava uma impressão, uma sombra, uma marca de sua passagem.
Não pedia retorno nem deixava endereço. Só um sapatinho em cada um dos degraus desta escadaria virtual.
Em todos, esta face sem nome deixada na assinatura: anônimo.

Ele adorava ler comentários.
Distração, nas horas vagas e noites mal dormidas, era passear por blogues e mais blogues. Não tanto para lhes conhecer o conteúdo. Mas para rastrear impressões, sombras e marcas.
E assim conheceu aquele anônimo.
Alguma coisa juntava aqueles rastros deixados em cada paragem.
As letras, sem nome nem face, tinham um cheiro comum, um espírito que lhe dava vida.
Por esta trilha de palavras apaixonou-se.
Sabia, pelo perfume dos textos, que o anônimo era uma mulher.
E lhe imaginava em sonhos, colorindo com seus próprios desejos aquilo que ainda não tinha cor.

Passou a segui-la desesperadamente. Como o príncipe do sapatinho de cristal.
Comentava o comentário, em cada ponto de anônima parada.
Ela tentava fugir. Buscava outros blogues, outros passeios.
Ele sempre a encontrava. E confessava sua história. Marcava seu nome, seu endereço, sua face, sem mais nenhum medo da exposição virtual.

Um outro leitor, que não está na postagem, descobriu esta história de amor.
E transformou em um blogue os rastros deixados pelos personagens.
Eles, claro, visitaram sua própria história.
E se divertiram em examinar as próprias máscaras.
A Cinderela anônima decidiu se revelar. Postou, com uma linguagem objetiva e rasteira que não lhe era peculiar: - Cara, não enche o saco. Eu sou macho. E não gosto de homens.

O apaixonado nunca mais voltou a postar.
Mas seu nome, seu rosto e seu drama ainda renderam muitas histórias.
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19 de março de 2009

Lata d'água na cabeça

Passou sua infância a carregar latas de água na cabeça.
Equilibrava-se nos trilhos do trem,
do Coque à fila da água.

A espera na fila era seu momento único de brincadeiras.
Jogava pedrinhas enquanto aguardava para encher a lata.
Voltava com ela na cabeça, cheia e pesada para uma criança,
principalmente quando é preciso andar nos trilhos.

Quando vinha o trem, era preciso baixar-se,
deitar na terra,
e muitas vezes a lata virava e a água escorria.
Era preciso reiniciar a jornada, repetida exaustivas vezes até ter cheio o tonel.

Com esta água a mãe lavava as roupas da patroa,
que a menina levava depois de limpas, à pé até a Imbiribeira.
E, de volta, trazia as roupas sujas para,
no dia seguinte,
o ciclo recomeçar.

Hoje, a menina já passou dos sessenta.
Tem os braços cansados de lavar roupas.
As roupas que sua mãe, passadas oito décadas,
ainda insiste em lavar.

Hoje, a menina tem filhos criados,
alguns perdidos: para a morte, para as prisões ou para a vida.

Hoje, a menina cria os netos,
cuidando de ocupar seus espíritos
para livrá-los de tudo o que a fez perder seus filhos.

Ela tem um sonho, um só:
"não quero morrer sem aprender a escrever meu nome".

Estes são os moradores do Coque.
Não aqueles que saem nos jornais.
Hei de estar presente quando ela, pela primeira vez, assinar o próprio nome.
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18 de março de 2009

Pedaços de mim

É hora de confessar:
não me chamo Luna,
nem ao menos Freire.
Ela é, entretanto, uma de minhas múltiplas faces,
como a Bifa do teatro
ou a Fabiana jornalista.

Tenho, da luna lua, as fases.
Tenho, de Freire, o homem que amo.
Tenho, de ambos, as letras
e aquilo que revelam as palavras-pontes.
Nada mais.

Luna Freire não tem um rosto,
uma voz,
um corpo,
nada que lhe dê existência para além das palavras.
Luna Freire é o hiato,
o vazio que me habita.

A do teatro, Bifa,
aquela que se revela na peça "Tempo que não é",
é meu reverso,
fragmento de mim.
E assim me mostro inteira: aos pedaços.
Muito prazer, minha cara Magna,
descobriste de mim algo além das letras.
A gente sempre se revela,
mesmo quando se esconde.
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17 de março de 2009

A usurpação da memória

O mais duro dos castigos infligidos ao espírito libertário pernambucano não foi o saldo de mais de 1.600 feridos na Revolução de 1817. Não foi, muito menos, nos ter privado da Paraiba, Alagoas ou Rio Grande do Norte - outrora partes de nosso território. Não foi a repressão cruel de cada uma das revoltas, com mortes em praça pública, ou cabeças e mãos mutiladas e expostas... O mais duro dos castigos foi a usurpação de nossa memória. Nossos heróis, nossos feitos bravios, nossa capacidade de luta e resistência foram banidos dos livros de história. Pior: a riqueza de nossa cultura e sabedoria foi isolada, esquecida, amordaçada. Minguaram-nos, pouco-a-pouco, a auto-estima como forma de nos manter silenciosos. Leia aqui o artigo inteiro.
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