30 de dezembro de 2008

Roda da vida

Gira a roda da vida...

o tempo é nosso consolo
e nosso destempero
tudo se refaz e desfaz
na esperança
ou no desespero.

Eis que tudo se revela
em seu contrário
alegrias e tristezas
conquistas e perdas
real e imaginário.

As colheitas,
as semeaduras,
o que nasce e o que morre,
as coisas passadas,
as coisas futuras.

Gira a roda da vida.
Adeus, 2008!
Bem vindo 2009!
Que o tempo se re-vele,
e se re-nove.
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29 de dezembro de 2008

Salve, Via Sat

O show de Via Sat é mais que uma apresentação. É uma cerimônia!
Pácua não canta sozinho.
Ele traz consigo todas as vozes de Peixinhos.
Ele reverbera o canto de uma gente que faz da cultura sua arma.
Que ocupou com a arte um velho matadouro,
e lá assentou sua música,
sua dança,
sua biblioteca...

Pácua canta com alegria.
Ele traz à cena o entusiasmo dos que fazem da cultura sua resistência.

O show de Via Sat é uma congregação!
No palco se reúnem todas as vozes ativas da periferia.
Peixinhos. Alto José do Pinho. Morro da Conceição.
Coque. Coelhos. Alto do Pascoal.

O show de Via Sat é uma celebração!
A celebração do orgulho de nossa música,
de nossa cultura,
de nossa gente,
de Pernambuco.

Salve, Pácua! Salve, Peixinhos!
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15 de dezembro de 2008

Conto de Natal

Era uma vez um menino chamado Paulo.
Paulo tinha 14 anos e odiava o Natal.
Odiava as luzinhas, o Papai Noel, os enfeites, e tudo o que tivesse a cara do Natal.
Paulo não ganhava abraços em dias de festa.
Não tinha mãe, nem pai, nem avós.
Apenas uma tia que lhe cuidava, mas não abraçava, nem sorria.

Desde que aprendera a escrever, mandava cartas ao Papai Noel.
Mesmo hoje, quando já sabia inútil.
Pedia bicicletas, vídeogames, e todos esses presentes caros que passam na televisão.
Recebia um velho peão, uma bola meio furada, ou um trenzinho com uma roda a menos.

Era mais um dia de 24 de dezembro e Paulo estava de mau humor.
Não falou com a tia, não disse nada. Resolveu passar a noite na rua.
Estava frio e escuro.
E, como distração, o menino começou a riscar fósforos, de uma caixa que guardava no bolso, como ameaça de cigarros.

No primeiro risco, fez-se um clarão.
E, no meio do clarão, Paulo viu uma mesa farta, de comidas e bebidas, doces e salgados, toda espécie de guloseimas que um menino de 14 anos, com fome, pode desejar.
E o clarão apagou-se. Restou o escuro da rua.

Paulo acendeu mais um fósforo.
Viu brinquedos de todos os tipos, todos os que passam na televisão.
Novo fogo, ele viu roupas novas, tênis da moda.
E um a um, foi riscando os fósforos, até que restou apenas um.

Quando o último clarão se fez, Paulo viu uma menina,
criança, pretinha, cabelos encaracolados.
A menina pegou-o pela mão e o levou, pelas ruas.
E levado pelas mãos da criança, Paulo chegou em casa. Espiou.
Lá dentro, viu a tia, que chorava.
Tinha um pedaço de papel nas mãos.
Chorava.

Era a carta que Paulo enviara ao Papai Noel, o menino reconheceu.
Espiava.
Viu a tia buscar um presente, carrinho velho, de cores gastas.
Viu a tia pegar um papel, de presente, amassado, meio rasgado pelo uso.
Viu a tia embrulhar o pacote.
A tia que contava as moedas.
Que ia ao açougue, levando nas mãos os últimos tostões.
Viu a tia comprar o pedaço de galinha, e levar ao forno, e preparar a mesa.
E esperar, lágrimas nos olhos.

Paulo descobriu na tia o Papai Noel.
Quando olhou para o lado, a menina já não estava.
Paulo abriu a porta e,
pela primeira vez,
em catorze anos,
abraçou a velha tia.
Choraram juntos, durante vários minutos.
Comeram juntos.
Dormiram juntos.

E o menino descobriu que era ele quem não abraçava,
nem sorria.
E ganhou, aos 14 anos, seu melhor presente.

(baseado na fábula "A pequena vendedora de fósforos", de Andersen)
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2 de dezembro de 2008

Solidariedade

A chuva arriou inteira do céu.
A terra desceu dos morros, encheu o mundo, cobriu as telhas.
Os homens se fizeram caranguejos em seus lares de lama.
Verteram pás,
tentaram o desenterro.
As casas desceram na corredeira dos rios,
as roupas, os móveis, memórias e sonhos...
foi-se tudo, numa lavagem imensa,
como se o céu cobrasse um recomeço.

A tempestade de lágrimas saiu na TV.
Inundou outras terras,
as terras de quem morre tragado pelo sol.
E a menina, seca, chorou sem lágrimas
e tirou o raro de si
para mandar de presente aos homens ilhados.

A terra, das enxurradas, é Santa Catarina.
E a menina mora aqui,
bem ao lado,
em nossas favelas,
em nossos sertões.
Chama-se solidariedade.

(Em tempo: a Defesa Civil de Santa Catarina abriu contas bancárias para receber doações que serão revertidas na compra de mantimentos, colchões ou colchonetes, cobertores, alimentos não perecíveis e água potável. O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil, CNPJ - 04.426.883/0001-57. As defesas civis nos estados estão montando postos de recolhimento. Contribuições devem ser depositadas numa das seguintes contas:
Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7
BESC – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
BRADESCO S/A - 237 Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1)
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O atropelo das palavras

O silêncio é sábio.
Quem cala, ouve o mundo.
Ouve a vida. Os sonhos. A natureza.
Ouve até o silêncio.
Quem cala, tudo vê.
Vê, inclusive, as palavras rolarem rio abaixo,
para restar apenas na memória de quem soube olhar e ouvir.

Não tenho a sabedoria dos silenciosos.
Palavras e sentimentos me atropelam como um furacão.
Não me dão a pausa do pouso.
Se oferecem ao mundo sem que ninguém lhes convide.
Intrometidas, afoitas, amostradas e impertinentes.

Quem cala, reforça o próprio grito
quando este se faz necessário.

Que minhas tontas palavras sirvam, ao menos,
como elemento de grito para os silenciosos.
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