27 de novembro de 2012

Ascensões e quedas da esperança...

Há outras ordens por aí, acredite!
Outros espaços, outros tempos, outros mundos.
Há um menino que joga pião e sorri.
E seu sorriso ilumina a esperança.
Mas há Os tanques nas ruas, acredite!
as milícias, os homens de capuz...
há fantasmas que clamam por Justiça
e o silêncio sobre a morte
assassina a esperança.

Mas há os gritos das mulheres,
há o grito,
da mãe que foi privada de seu filho
e o sangue genocida semeou as almas
e este grito alimenta a esperança.
Mas há os programas de Tv e as novelas
a impor a mesma ordem,
o mesmo mundo
os mesmo seres autômatos cordiais
em uma repetição que fuzila a esperança.

Mas há as vozes dissonantes, acredite!
dos Mcs, dos rappers, da outra mídia.
e se derrubam um corpo, dez ou cem...
cada morte liberta vozes estranguladas
e os sussurros que não saem na TV
estes sussurros vão nutrir nossa esperança

Poema feito durante o 18º Curso do Núcleo Piratininga de Comunicação. Meu carinho e homenagem a Vito Giannotti e Cláudia Santiago; a todos os palestrantes; a Débora Silva do grupo Mães de Maio; aos meninos de Santa Marta... A foto eu peguei emprestada do Repper Fiell: uma vista do Morro de Santa Marta à noite...
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7 de novembro de 2012

Meu tempo não é este!

Assisti a entrevista de Mia Couto no Roda Viva.
Disse ele: "Há vários Moçambiques dentro de Moçambique".
Também nós temos vários Brasis.
Vários espaços e tempos diferentes que convivem em um mesmo território.
Mas há um tempo que tenta engolir os demais.
Um tempo que tudo atropela, que tudo devora, um tempo voraz.
Um tempo que não é o meu.

Falo do tempo-espaço desta modernidade dita progresso.
Este mundo em que somos todos mercadorias. Ou, no máximo, consumidores. E nada mais.
Este lugar onde reinam as rodovias largas: de praças desertas, grandes prédios e muros, crianças que brincam sós.
Este tempo de grandes obras para pouca gente e muita gente carente de obras básicas - como escolas e postos de saúde.

Como lobo feroz, e atroz, ele engole tudo o que não consegue ver: o que é pequeno, simples, o que é invisível para o mundo do consumo.

E lá se vão vilas inteiras, em que os velhos sentavam nas calçadas. Lá se vão as crianças que ainda brincavam de pega-pega e pião. Lá se vão as mulheres conversadeiras, os mercadinhos comunitários, as carroças pelas ruas, as roupas esticadas no varal... Vão transferidas para prédios-caixão, e lá enterram suas lembranças.

Cresci em uma rua onde as crianças corriam de bicicleta, os meninos jogavam bola na praça, os jovens tocavam violão nas calçadas... Continuo na mesma rua. Mas a rua não é a mesma.

Ao invés das casas onde vizinhos se encontravam e as meninas visitavam umas às outras, há escritórios e mais escritórios. Ao invés das bicicletas, os automóveis tomam as ruas, congestionando e transformando em estacionamento cada lugar onde os jovens sentavam para serenatas.

Não. Meu tempo não é este. E estou me sentindo náufraga em uma ilha plantada em mar infinito... (Na foto, moradores de Vila Oliveira, no Pina, protestam contra ação de despejo. Com JC Imagem)
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