13 de dezembro de 2007

Saudades de Rita


Ritinha, se teus olhos não fossem olhos, e sim estrelas, eu diria que eles não brilham tanto quanto o brilho dos teus olhos.

Se teus olhos não fossem olhos, e sim janelas, não abririam tantos mundos para si.

Que falta faz esse jeito de menina que cresceu antes do tempo, e deixou esse ar de travessura pendurado nas covinhas da bochecha.

Que falta faz essa criatura cheia de hiatos, este varal estendido entre um sorriso largo e um olhar bem triste.

A vida é assim: uns vão, outros ficam. E a saudade é uma ponte imensa, uma ponte sem fim, por onde a alma da gente passa, sem nunca atravessar plenamente.

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21 de novembro de 2007

Poema desenterrado

Já não sei fazer poemas. Mas um dia o fiz. Hoje, desenterrei por acaso, no fundo do baú de meu computador, um arquivinho sem título, de um tempo em que poetei. Fica o registro:

Estou suspensa sobre um abismo de fogo
não posso olhar o céu não posso olhar o chão
Estou suspensa sobre a boca do inferno
Tenho sangue nos olhos e nas mãos
Uma corda atada na garganta
e uma serpente negra a me engolir os véus
Estou suja estou presa estou marcada
a vítima e a criminosa no banco dos réus
Tirei os sapatos e enchi os pés de lama
nunca mais poderei voar
Enverguei as asas em meu próprio chumbo
e estou me afogando em meu próprio mar.
Crivada de setas e de lanças
minha alma só exala veneno
Meu amor não cura meu amor só mata
meu amor sufoca em um peito tão pequeno
Sufocada em meus plurais e labirintos,
eu sou Fedra condenada a perdição
Afrodite, me poupes de teus crimes!
sou cruel escrava do excesso de paixão
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19 de novembro de 2007

Pobreza tem cor

Algumas perguntinhas para você, de classe média, que diz que racismo não existe no Brasil:
- Na escola de seu filho, quantos negros estudam?
- E na faculdade onde você se formou, quantos havia de cor preta?
- Nos bancos onde você guarda ou já guardou seu dinheiro, quantos gerentes dessa etnia?
- E nos restaurantes que você frequenta, eles sentam à mesa, junto com os clientes? Ou estão na cozinha, a preparar o peixe e lavar a louça onde você comeu?
- Nas historinhas que você lê para seus filhos, de que cor são as princesas e príncipes?
- E nas novelas que você assiste, quantas vezes eles são mocinhos ou heróis? E quantas vezes eles estão nas cozinhas, servindo alegremente a sopa do patrão?

Agora, pergunto:
- Entre os que morrem assassinados, pela guerra do tráfico ou pela "limpeza" nas favelas, quantos são negros?
- E qual a cor da maioria das empregadas domésticas? Ou dos meninos que tentam lavar, quando você não os espanta, o pára-brisa de seu carro?
- Qual a cor das crianças que dormem no gramado do Canal de Setúbal, por onde você passa quando vai para seu apartamento na praia de Piedade?
- De que cor é a pobreza no Brasil?

Eu vos digo que a pobreza tem cor. Eu vos digo que os negros libertos foram condenados à ela. E que não basta força de vontade para escapar a isso. Por mais que diga o contrário a revista que você lê. É preciso consciência de guerreiro. É preciso guerrear, todos os dias! E as armas são a palavra, a arte, a educação de nossas crianças.
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A descoberta da leitura

Ela ainda tateia as letras.
Cada um daqueles sinaizinhos é uma mágica, uma descoberta.
Ela junta o quebra-cabeça. Tropeça nas palavras. Se irrita. Recomeça.
Troca o d pelo b. O m pelo n.
Não entende o que, em verdade, é difícil de se explicar: por que o c, perto do e ou do i, tem som de s? Para que serve o h, uma letra que não tem som algum?
Ela ainda não entende os dígrafos e mil e uma coisinhas mais...
Mas com que prazer, com que vontade ela brinca com as letras!... Como se fosse, cada uma, um brinquedo especial.
Quando a vejo assim, tão alegre na descoberta da leitura, sei que estou no caminho certo. Sei que minha filha há de crescer com a alquimia das palavras em seu coração.
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17 de outubro de 2007

Luta de classes

As coisas estão ficando mais claras no Brasil.
As classes estão ficando mais claras no Brasil.
E a guerra se torna mais evidente.
De um lado, os que mantém e são mantidos por esse sistema que se mantém: a elite, a classe média, a Polícia, a mídia e os três poderes.
Do outro, uma multidão de miseráveis, com diversos matizes.
Eis o maior problema desta guerra: é que, embora, os lados comecem a ficar claros, os que deveriam estar contra o sistema ainda não conhecem de que lado estão.
Parte deles quer tomar o lugar da elite e sua guerra tem essa única finalidade. A concentração de renda revolta. Mas poucos são os revoltados que querem, de fato, repartir a renda.
Outra parte não quer guerra alguma, e prefere que as coisas fiquem bem do jeito que estão.
E há as exceções, essas são as verdadeiras armas de mudança: o pessoal do hip hop nas periferias, os sem-terra, os poetas e artistas marginais.

PS: O filme Tropa de Elite não descreve a realidade. O filme Tropa de Elite narra a guerra a partir de um ponto de vista, que nós sabemos qual é. Não teria tanto marketing se o narrador fosse outro. Cuidado, rapaziada! O cineasta não é "do mal". Mas ele fabricou uma arma que está sendo poderosamente utilizada contra todos os que estão contra.
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14 de outubro de 2007

Não gosto de cinema

O cinema é fabuloso, fantástico. E, justamente por isso, eu não gosto de cinema. Quanto melhor o filme, maior a possibilidade de eu não ir vê-lo. Por que o cinema cinde minha mente e me inscreve em uma realidade diferente e estranha. Não! Isso não bom! Não estou falando em metáforas. Acontece comigo uma coisa esquizofrênica quando assisto alguns filmes. Eu passo algumas horas meio fora de mim. Alguma coisa me rasga no meio e eu passo a estranhar a mim mesma, ao meu mundo... E não é uma sensação muito boa de se viver. Se é a morte que permeia o filme, passo a senti-la bem perto, quase ao meu lado. E a maioria dos grandes filmes tem na morte uma protagonista.
Por isso não me perguntem se eu assisti Tropa de Elite. Não vi. Não quero ver. E estou começando a me irritar com o filme somente pelo fato de todo mundo ter que ver. Está nas mensagens da Internet. Está nas revistas - inclusive na capa do malfadado periódico, que se diz jornalístico, da editora Abril. Está na boca de todo adolescente, e em todo carrinho de genéricos. Acredito que seja um bom filme. E talvez fizesse um esforço e me submetesse à angústia pós-sessão se não houvesse tanto marketing.
Por ora, prefiro as exceções: aqueles filmes bons, que me fazem sentir bem. Como Central do Brasil, por exemplo. Que me revela do homem o lado solidário. Que quando cinde minha mente, me transporta para um Brasil bonito, do qual eu me orgulho.
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20 de setembro de 2007

Sobre mestres e aprendizes

Mestres ensinam com os olhos, com os gestos, com as ações.
Neles, o conhecimento é passado como em encantamentos, sem que a gente nem perceba de onde vem...
Mestres sabem ouvir e aproveitam tudo o que lhes é dito. Mesmo as palavras mais simples. Mesmo as coisas mais bobas e grosseiras.
São feiticeiros: tudo é receita de conhecimento.
Mestres não precisam que lhes digam o que sabem. São o que são: e sua cultura é silenciosa e transformadora.
A leitura é, para eles, deleite. Prazer. Curiosidade.
Não lêem para serem mestres. Lêem para sonhar e, por isso, são mestres. Por que sabem ensinar, mesmo a quem não tem asas, as des-fronteiras do vôo.
Reconhecer os mestres é simples quando se tem olhos de criança.
Creditar maestria a quem não merece é fácil, quando nos deixamos contaminar pelo olhar vaidoso do mundo liberal.
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18 de setembro de 2007

A mestra

Rosi sabe muito da vida.
Muito mais que eu.
Ela aprecia a arte por que tem estrelas nos olhos, não pelo tanto que leu ou aprendeu.
Rosi lê a vida, não apenas os livros.
Estes ela aprendeu a amar: mas eles despertam o que nela já é vivo - um imenso amor pelo ser humano.

Rosi sabe muito das coisas.
Muito mais do que eu.
Ela tem olhos sensíveis para os encantos da natureza.
E sabe o valor que tem a água, porque já carregou baldes de cacimbas.

Rosi tem um defeito. Um só.
Rosi não sabe que sabe.
Ou, se sabe, faz que não sabe.
Aprecia o conhecimento dos outros.
Mas não o seu.

Se ela soubesse o tanto que pode ensinar, quantos alunos não faria ver estrelas...
Eu, por exemplo, sou aluna de Rosi. E ela, talvez, só descubra quando ler esta postagem.
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17 de setembro de 2007

O público

Estranha energia esta que liga público e atores em uma peça de teatro...
É possível sentir a vibração.
É quase possível enxergar os átomos e moléculas se movimentando e cruzando os limites do palco.
O ator se renova.
Todo sacrifício, de noites e mais noites de insones ensaios, esgota-se em um piscar de olhos.
(Eu, que jurei tirar longas férias do teatro, estou prestes a descumprir meu juramento)
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22 de agosto de 2007

Tari se vai


Rita vai embora. Mais uma das minhas que se vão... Como Mariângela. Como Anamaria. A próxima, qual será? Que dom é esse, tão terrível, de ver meus amigos caminharem longe?...
Mensagens eletrônicas não tem cheiro, não sorriem nem choram. Mensagens eletrônicas não dançam ciranda no Pátio de São Pedro. Nem sobem as ladeiras de Olinda...
As lembranças sim, é verdade. E é verdade também que mensagens eletrônicas, nossas cartas modernas, fazem vivas as lembranças. Mas eu queria mais...
Não queria conversar com Anamaria e Mariângela. Queria passear com elas, falar bobagens, rir, dançar...
Em breve, terei de Rita esta mesma sensação - lembrança que me chega por e-mail.
Desta vez, Tari vai primeiro. Fica Bifa. E o tempo suspenso entre elas...
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17 de agosto de 2007

Jornal fechado

Ontem, terminei de fechar o jornal da empresa em que trabalho.
Dia pós-fechamento é dia de palavras-pontes. É dia em que trabalho folgada, posso fazer uma faxina em meu ambiente de trabalho. É dia de conferir minhas mensagens, responder aos amigos. É dia de me informar, ler os artigos da Agência Carta Maior e ver o que tem de novo nos meus blogs preferidos. Posso até dar uma fugidinha e tomar um sorvete na Fri-sabor.
Gosto de meu trabalho. Gosto por que escrevo e gosto de escrever. Gosto por que escrevo coisas nas quais acredito. E quando assim deixar de sê-lo não serei capaz de escrever. Gosto da equipe e das pessoas quase todas. E gosto por que trabalho meio expediente, o que me deixa tempo para brincar com minhas crianças. E para ser atriz.
Nem sempre é fácil, contudo. E, durante três dias a cada quinze, eu diria que me multiplico. Quisera eu que, para fechar jornal, bastasse girar a maçaneta e a chave. Tenho que juntar as matérias todas, e concluir as que ainda faltam. Tenho que definir em que página cada qual deve ficar. Cortar palavras, cozer palavras, complementar o que ainda carece de sentido ou informação, buscar ilustrações e fotos, construir títulos, subtítulos, olhos, janelas, chapéus, legendas... passar tudo para o diagramador, ler e re-ler, conferir se está tudo nos trinques antes de gravar para mandar fazer o fotolito. Fotolito é como um espelho da página, impresso em uma espécie de papel transparente, que serve para gravar a chapa que servirá para a impressão.
Além de todos estes pormenores que fazem parte desta atividade editorial, tenho ainda que dar conta do que é uma função minha, diária: redigir, editar e enviar o nosso boletim eletrônico.
E faço tudo isso de bom grado, por que gosto. Gosto mesmo. Ocorre que, nos últimos tempos, ando meio feito louca. É que, além de minha profissão de jornalista, ando às voltas com ensaios para aquilo que é minha segunda profissão: o teatro. Então tenho que correr o suficiente para dar tempo de pegar as crianças no colégio, deixá-las em casa com o pai (que não sabe dirigir), e voltar para ensaiar. Todos os dias.
Hoje o dia é suave. O tempo passa lento e sereno. E eu posso escrever tranquila, como quem borda sonhos. Agora, parei. Vou tomar um sorvete na esquina.
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8 de agosto de 2007

Escravo da vida

Para viver de sua arte, ele precisa matar a arte em si.
E me liga, triste. Não consegue dar conta do tempo que lhe falta.
Saudade de quando as queixas eram pelas passagens de ônibus que faltavam. De quando era possível ler, criar, trabalhar em grupo, estudar, ou "perder" tempo.

Para viver de sua arte, ele precisa multiplicar-se.
E aquilo que lhe dá sentido à vida, vai minguando aos poucos.

Assim se destroem os sonhos, com a força da realidade e a necessidade da sobrevivência. Assim se destroem os grupos.

Não será melhor dar um soco na realidade e passar um pouco de fome?
O que é pior: a fome de pão ou a fome de espírito?

Não sei que conselhos te dar, meu amigo.
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2 de agosto de 2007

19 segundos

Em 19 segundos, foram falhas suas tentativas de tentar parar o mundo.
Em 19 segundos, a pista chegou ao fim, e só lhe restou o muro.
Em 19 segundos, não lhe foi possível rever tristezas e alegrias: uma filha, uma mulher, um bate-papo com os amigos. Uma briga chata, o trabalho quase escravo, sua ausência na vida.
Em 19 segundos, nenhuma despedida.
Em 19 segundos, apenas a certeza do muro - ou do abismo.
18, 17, 16... sem freios, sem controle, a pista que chega ao fim
10, 9, 8... o desespero, a tentativa vã de controlar a máquina
4, 3, 2... a certeza da morte, os gritos
... o fim.

Eles não viram quão tristes as tentativas de explorar politicamente suas próprias mortes.
Eles não viram seu desespero exposto aos olhos do mundo inteiro, sob a justificativa de investigação.

Viveram para voar. Sem descanso. Sem trégua. Horas e horas de vôo.
Viveram para garantir os lucros incessantes de seus patrões.

Outros voavam com eles. Mas nenhum tinha consigo as rédeas da morte. Nenhum tinha consigo este cavalo indomável, açoitado pela ganância das empresas aéreas.

Este meu escrito é para Kleyber Lima e Henrique Stephanini, piloto e co-piloto do avião da TAM que explodiu no dia 17 de julho.
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30 de julho de 2007

Coisas da política

Júlio queria mudar o mundo. Achava que a renda era mal distribuída. E que era função sua tentar fazer as coisas mais justas. Entrou no partido com 23 anos. E muitos sonhos...
Estudou. Leu muito. Fez discursos. Ganhou reconhecimento. Representou o partido no exterior. Fez amigos importantes. Tornou-se grande articulador.


Carolina queria mudar o mundo. Achava que a renda era mal distribuída. E que era função sua tentar fazer as coisas mais justas. Entrou no partido com 23 anos. E muitos sonhos... Estudou, leu, fez discursos. Ganhou reconhecimento. Representou o partido no exterior. Fez amigos importantes. Tornou-se grande articuladora.

Júlio e Carolina são do mesmo partido. Sonhavam as mesmas coisas. Queriam mudar o mundo.
Júlio e Carolina são de tendências opostas. Não sonham mais. Esqueceram o que queriam...
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19 de julho de 2007

Tarde demais

Marina tinha pressa. Passava das 13h30 e ela tinha compromisso às 14 horas. Olhou o relógio e fez contas na cabeça: - em dez minutos chego à parada, conto uns cinco minutos de espera pelo ônibus, mais quinze minutos para chegar à parada destino. Ainda assim, chegaria atrasada. Afinal tinha o tempo da caminhada até o local do compromisso. Apressou o passo.
Cruzou o parque. Havia pombos voando entre as árvores. Árvores antigas, frondosas. Um vento leve e suave. Crianças brincando. Marina nada viu.
Na porta da igreja, um menininho sujo tinha os olhos tristes. A mãozinha estendida, cansada de esperar trocados. Cansaço de existir... Marina não viu.
A espera na parada foi mais longa do que seus cálculos previam: sete minutos e alguns segundos. Ocupada em olhar o relógio, Marina não viu que, do outro lado da rua, um velhinho passou todo o tempo de sua espera tentando atravessar a rua. Em vão.
No ônibus, o telefone tocou: sua mãe. Falou de coisas sem importância: a irmã que viajava, as sementes que comprara para fazer mudas para o jardim, a visita ao médico. E, claro, cobranças: - você não liga, não dá notícias, etc., etc. Marina desconversou. Desligou o telefone. Tinha apenas cinco minutos.
Desceu do ônibus e apressou o passo: dois minutos para chegar. Correu. Na esquina de seu destino, um carro cruzou o sinal vermelho. Marina não viu. Não viu mais nada. E o tempo se vingou. Tarde demais para olhar a vida. Tarde demais.
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6 de julho de 2007

Palavras-pontes é cultura

Eis que, como quem não quer nada, e cheia de vergonha, avisei Urariano que começava a me aventurar neste mundo de blogueiros. É que me sinto tão... tão iniciante quando leio o Sapoti de Japaranduba ou o Estuário do Samarone por exemplos. Ando tão afastada do mundo das letras que, ao não ser pela profissão que exerço - o jornalismo - quase poderia dizer que o blog é uma tentativa de reencontro. E que, portanto, soa meio sem jeito - como quando a gente encontra um amigo de infância e faltam as palavras... Pois meu blog é meio assim: cheio de silêncios e de tentativas falhas de dizer algo que não sei o quê.

Pois bem. Nada mais natural do que a minha surpresa ao receber a mensagem de Urariano avisando que tinha me indicado como blog cultura. Na verdade, é uma espécie de prêmio-corrente, a partir do qual cada blogueiro premiado indica outros cinco, e por aí vai. Uma idéia bem interessante para se divulgar coisas boas... Enfim, ter sido indicada por Urariano é, por si, um prêmio e tanto.

Minha primeira reação, obviamente, foi uma grande alegria. Não há melhor troféu do que ser reconhecido por quem você admira. Mas ando tão pé atrás com meus próprios escritos que, depois, fiquei pensando: ... com tanta coisa boa por aí, por que eu? Será que ele, de fato, gostou destas palavras cambaleantes ou teria me indicado como forma de me ajudar a reaprender os caminhos das letras? Aí desisti de me fazer perguntas. Seja por qual motivo, a indicação me dá mais estímulo para continuar. Valeu, Urariano. E, agora, é minha vez de indicar. Aí vai:

- Estuário, de Samarone: http://estuariope.blogspot.com/
- Trança, de Flávia Suassuna: http://fsuassuna.blogspot.com/
- Blog do Ferrez: http://www.ferrez.blogspot.com/
- Strange-fruit, de Tekka: http://strange-fruit.zip.net/
Além, claro, do blog de Urariano: http://urarianoms.blog.uol.com.br/
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29 de junho de 2007

O Coque resiste!

A história que passo a narrar está no blog do Samarone, http://estuariope.blogspot.com. Aconteceu na sexta-feira, antes do São João. Mas acontece todos os dias, sem que ninguém fique sabendo. Desta vez, a vítima foi Procópio, morador do Coque. Um cidadão que ousa resistir à falta de expectativas, à violência, ao tráfico. Que ousa criar uma alternativa de cidadania para sua comunidade: o Movimento Arrebentando Barreiras Invisíveis- MABI. Que ousa falar em cultura, livros, conhecimento, para um bairro cuja realidade é a violência e o abandono. Pior: ousa montar uma biblioteca para essa gente - alugar casa, pintar, refazer o telhado e conseguir a doação de livros.
Pois bem, foi esse cidadão que, como tantos outros, se viu refém no dia 23 de junho da truculência policial, que atinge cotidianamente quem é pobre, negro e vive nas periferias do Recife. Enquanto Procópio e vários amigos se divertiam, defronte de casa, duas viaturas da Rádio Patrulha chegaram. Colocaram todos contra a parede. Coisa comum para quem vive no Coque. Impensável para quem mora em Boa Viagem, Espinheiro ou Casa Forte.
Então Procópio ousou abrir a boca: pediu para baixar o som, porque não estava escutando o que os policiais queriam. Foi a deixa que esperavam. O tenente foi o primeiro a empunhar o cassetete. E, aí -que ousadia! - Procópio tentou agir como cidadão: disse que aquilo era abuso de poder. A Polícia entrou em sua casa, quebrou objetos. Com tudo isso, o ousado Procópio não se deixou abater: disse que eles não podiam entrar sem um mandado judicial. Apanhou muito. Ao ser algemado, a mãe, temendo o pior, perguntou para onde seriam levados. A resposta foi a de sempre: "Procure". Procópio e mais quatro jovens foram levados em um camburão para destino incerto. Algemados, ficaram mais de duas horas à mercê dos policiais, antes de chegarem à delegacia de Santo Amaro.
Felizmente, o final da história foi menos triste do que o de tantos outros que acontece todos os dias. Procópio é um cidadão consciente, tem amigos, conhece seus direitos. As advogadas da ONG Auçuba interromperam os festejos e foram à delegacia. O comissário saiu rapidinho e veio conversar com elas. Disse que já estava tudo sendo resolvido, que não precisava de advogado, porque era apenas "desacato à autoridade". Diante da insistência, a resposta do comissário foi simbólica. Disse apenas o seguinte:"Então, vai ser pior".Em minutos, apareceram três papelotes de maconha nas coisas de Procópio. A advogada conseguiu evitar um desastre que arrasa a vida de tantos jovens da periferia. Procópio resiste.
No próximo sábado, às 9 horas, será inaugurada a Biblioteca do Coque. Quem quiser ajudar de alguma forma, pode mandar email para o Procópio: coquevive@gmail.com. Valeu, Samarone, por tornar pública esta história.
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15 de junho de 2007

Sua bênção, mestre Ariano

Quando peço a bênção ao mestre Ariano, estou, em verdade, pedindo a bênção a todos os mestres de nossa cultura popular. Pois a obra de nosso romanceiro Suassuna não é só sua. Sua voz, como a de nossos poetas populares, carrega em si tantos ecos que não é justo falar de um autor só, mas de uma teia de autores. Sem desmerecimento a qualquer um deles.
Nos cantos e letras destes artistas, a noção de autoria perde sentido, vira letra morta, conceito burguês. Nosso povo, pelo contrário, é simultaneamente criador e criatura. Assim como nosso Ariano. Seus personagens são seus, é verdade. Mas não só. Vem de outras histórias, têm vida própria, mesmo quando os nomes diferem.
E isso é o que mais amo nessa nossa cultura: nela, o passado, presente e futuro se entrelaçam. E por isso, tenho que confessar, tenho cá minhas divergências com o Suassuna pensador, jamais o artista. Por que creio que, as vezes, ele pretende fixar o passado no mesmo ponto. Nossos artistas populares, pelo contrário, tudo recriam, mantendo o passado vivo. O passado feito presente e futuro de uma só vez. Tudo se mistura e se tranforma. E pretender manter as coisas presas num ponto é, para mim, matá-la um pouco. Por isso prefiro o Ariano romanceiro ao Ariano político. O ariano contador de histórias ao Ariano inventor de conceitos.
E peço a bênção a ele com orgulho, como me orgulho de ser brasileira, nordestina, pernambucana.
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5 de junho de 2007

Raça não existe!!!?????

Não sei se me orgulho ou me envergonho de minha profissão.
Prefiro não dizer que sou jornalista quando leio, por exemplo, a manchete da Veja mais recente: "Raça não existe".
Esta é a mais nova campanha da nossa "isenta" mídia. Pretende derrubar o programa de cotas nas universidades instituído pelo Governo Federal. Usa, para isso, o argumento da miscigenação para tentar nos convencer de que preto e branco não têm diferença.
Você, que é branco, de classe média, responda: quantos negros há na sua escola? Ou universidade? Ou na empresa em que você trabalha? Ou no banco onde você deposita seu dinheiro?
Não precisaria sequer fornecer as estatísticas. Mas vou fazê-lo: negros morrem de causas violentas duas vezes mais do que brancos; são 64% da população pobre e 69% da população indigente; apenas 26% dos negros vivem em moradias adequadas; 28,5% deles concluíram o ensino médio; só 22% dos empreendedores brasileiros são pretos; um branco ganha, em média, o dobro do que ganha um negro; a taxa de desemprego é de 11,8% contra 8,6% dos brancos.
De acordo com o ranking dos melhores países em desenvolvimento humano de 2004, o Brasil ocupa o 69º lugar. Se o Brasil fosse um país apenas de brancos, a posição do país seria a 46°. Se fosse um país 100% negro, a sua posição seria a 97º.
A miscigenação existe, não é balela. Mas o racismo é tão evidente quanto a miscigenação. Existe um componente de classe em nosso racismo, é verdade. Mas, responda: quem é maioria em nossas favelas, qual a raça?
A Veja vende a informação e a classe média compra porque lhe é oportuna. Afinal, eles, os negros, estão tirando vagas de nossa elite branca. E é mais fácil usar esse papo de "mistura das raças" para tirar de nossos ombros o peso de nossa origem - branca, colonizadora, escravocrata. Melhor seria assumir nossa identidade para tomar rédeas de nosso destino. E reconstruir nossa história por um caminho diverso do que foi traçado por nossos antepassados.
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1 de junho de 2007

Privatização das almas

Mais grave que a privatização dos bancos,
mais grave que a privatização das telefônicas,
das companhias elétricas, das universidades, da assistência à saúde,
mais grave que todas as privatizações
é a privatização das almas.
De nossa postura diante do mundo, da forma de criarmos nossos filhos, de nossas relações com os colegas, de nossas idéias, de nós.
E é aí que o neoliberalismo, capitalismo, tucanismo, imperialismo, norte-americanismo... avançam a passos mais largos. Seja nos Estados Unidos de George Bush, no Brasil de Lula, ou em qualquer um que não assuma sem covardias a pretensão de ser outro, outro "ismo".
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Primeiros passos

Estou reaprendendo a escrever.
Permitam confessar: um dia já soube fazê-lo. E achava que era hábil no que fazia...
Como pode, então, a palavra murchar dentro da gente?...
Talvez apenas durma e espere a necessidade do grito.
Peço-lhes que sejam compreensivos, como a gente costuma ser com uma criança que apenas engatinha. Ou um carro de auto-escola que transita a 30 km/h.
Para começar, devo dizer que entitulei meu blog "palavras-pontes" e depois me arrependi.
Ponte??? Como, se mal sei caminhar?
Triste prepotência... resquícios dos tempos em que escrevia...
Mas não vou mudá-lo. Até porque o homem que amo, que me levou a criar este blog e me cobra diariamente alguma tentativa, fez esta arte sobre as águas que aí estão, no cabeçalho. Então, fiquem as águas... tentarei não morrer afogada.
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