24 de abril de 2009

Os sonhos de Alexandre

- Alexandre, qual seu maior sonho?
- Ter uma arma.

Quando só resta este desejo para uma criança de 13 anos, é porque seu coração desaprendeu a sonhar.
Xande é rebelde. Provoca os outros, briga, chuta, grita, quer impor sua valentia. Mas não consegue esconder a frustração por não ter ainda aprendido a ler. E, quando se permite um momento de quietude, copia as letras, as palavras, mesmo que não consiga decifrar-lhes o significado.
Xande faz-se de grande. Não quer ouvir histórias, essas coisas de criança. Mas quando as histórias são ditas, chega sorrateiro, de banda, fingindo distração.
Xande assina com nome de gangue, e desenha armas - de diferentes estilos. Mas quando as brincadeiras começam, vai sorrindo aos poucos, e entra na roda para voltar a ser o que é: um menino de 13 anos.
Quando a gente vê Alexandre assim - brincando, copiando letras ou prestando atenção nas histórias, tem certeza de que não foi o seu coração que desaprendeu a sonhar. Foram os seus olhos que desaprenderam a reconhecer os sonhos. Então, ainda há esperança. Apesar das armas, da violência, do tráfico, das drogas.
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17 de abril de 2009

Retalhos de lembranças

Dizem que alegria de pobre dura pouco. Mentira! Alegria de pobre tem a duração da lembrança. É verdade que é feita de pedacinhos, entremeados por muitos vazios. Mas, juntos, estes pedaços ficam grandes. Imensos. Da largura da saudade.

Saudade de um Coque assentado em maré, terra, uma linha de trem e muitas histórias. Histórias contadas pelas mães e avós, na frente de casa, em grupos de vizinhos, num tempo em que televisão era artigo de luxo. Um tempo em que as poucas tevês da comunidade eram disputadas por dezenas de crianças, ou mesmo adultos, que espreitavam pelas brechas das portas e janelas.

Histórias como a de seu Coque que, dizem, deu origem ao bairro. Patrono de uma família de pretos ricos, ele teria construído um palacete em meio aos casebres do local. Sua casa assentara-se no local onde, tempos depois, se ergueu a antiga delegacia. Quando, há cerca de dez anos, a delegacia foi derrubada, descobriram, sob as escavações, uma área desconhecida da casa, toda erguida no subterrâneo.

Histórias de assombração, escutadas no rádio, ou pela boca da professora - que fazia as crianças atravessarem correndo a distância que separava a escola de suas casas.

Histórias estranhas e misteriosas, como a de um homem, que praticava magia e guardava em sua casa muitos segredos. Um dia, dizem, a cabeça do homem explodiu sozinha. As crianças não podiam passar por perto, sob pena de dar de cara com aquela cena terrível de uma cabeça em frangalhos.

Histórias de homens que metiam medo, como o famoso Seu Nezinho, cinturão na mão para açoitar as moças que se entregassem pra noite. Lembranças temerosas, de uma época em que ladrões eram amarrados nos rabos dos cavalos e arrastados até cair o couro.

Histórias de homens queridos, como Seu João da mercearia, onde se comprava tudo do bom. Onde se podia comprar fiado a charque gostosa e a manteiga de verdade - tão diferente da margarina sem gosto de hoje em dia.

Histórias de aprendizagem, da difícil descoberta da leitura em famílias onde ninguém sabia ler. E do papel das professoras, para o bem ou para o mal.

Todos estes relatos foram feitos na reunião do dia 16 de abril de 2009 pelo grupo de mães do Coque, ainda em processo de criação. Foi uma tarde deliciosa, um momento raro de mergulharmos em lembranças e histórias, sem pensar na janta que temos que preparar, nas crianças que temos que levar à escola, ou em mais um capítulo da novela das oito. Muitas histórias ainda vão surgir. Hei de registrar todas elas.

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15 de abril de 2009

Conto de fadas às avessas

Esta vai para Magna, que me ofereceu o mote como inspiração. Confiram em sementeiras.blogspot.com.



A princesa espera em uma caixinha de vidro.
Está morta. Não. Adormecida.
Um sono sem sonhos,
embalado pela esperança de um príncipe que não vem.
Sete anões velam seu corpo, dia e noite.
O tempo não corre,
a princesa não respira,
não há morte, não há vida,
apenas uma ponte de nuvens que liga os dois.

E por essa ponte vem o cavaleiro,
espada em punho, belo como o mar azul.
A cada galope, deixa pra trás um rastro de nuvens
desfeitas na escuridão.

Do lado de cá,
o tempo não corre,
a princesa não respira
e os sete anões são estátuas de jardim.

E pela ponte de nuvens vem o cavaleiro,
a escuridão às costas
e um fiapo que resta para chegar ao lado de cá.

É quando ele olha a princesa que não respira,
e vê que o tempo não corre,
e que não há morte nem vida para além das nuvens.
É quando ele se arrepende e tenta voltar.
O cavalo breca e ele se depara com a escuridão.


O dilema:
lançar-se no apavorante infinito que tudo engole
ou abraçar a princesa morta e aceitar o tempo que parou.


O príncipe lança-se no abismo.

E a princesa espera numa caixinha de vidro...
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De que são feitos os sonhos

De que são feitos os sonhos?
Há os que são feitos de nuvem,
leves como flocos de algodão,
trazem pedaços de infância,
uma pipa no céu, que pula corda com o chão.
Há os que são feitos de pássaros,
livres como uma pena no ar,
trazem vôos de desejos,
e peixes que engolem o azul do mar.
De que são feitos os sonhos?
De facas, granadas, navalhas,
a nos mostrar o sangue nas veias.
A ferida,
o pulso aberto,
a alma em transe,
um punhal cravado no coração de uma sereia.


(imagem de Salvador Dali)
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3 de abril de 2009

Liguem as TVs

Na próxima terça-feira, dia 7 de abril, a Globo deve colocar no ar, ao meio-dia, matéria sobre a Biblioteca Popular do Coque.
Liguem as tevês.
Não sei qual vai ser o enfoque.
Mas, talvez, seja uma rara oportunidade de ver as crianças do bairro, não como vítimas da violência ou como criminosos em potencial, mas como meninos lindos, que gostam de brincar, de ler, de conhecer coisas novas. Talvez seja uma oportunidade rara de ver os adultos, não como bandidos, mas como gente com a alma repleta de solidariedade.
Não sei o que a TV vai mostrar.
Sei o que meus olhos me revelam.
De toda forma, liguem as tevês.
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1 de abril de 2009

Pega na mentira

Hoje é o Dia Internacional da Mentira.
Hoje é 1º de abril.
Nesta data, o Brasil deu início à maior mentira de sua história: a ditadura militar.
Nunca se mentiu tanto,
se omitiu tanto,
se calou tanto.
Silêncio obtido às custas da censura,
da perseguição, tortura e assassinato dos que não deixaram murchar a voz dentro de si.

A pior das mentiras é aquela em que todos acreditam.
E esta face de nossa história foi assim:
enganou metade de um país e calou a outra à força.

Engano de tal monta não se constrói facilmente.
Os algozes tinham os cúmplices perfeitos: a imprensa.
E a gente sabe: ainda há quem pense que os jornais não mentem jamais.

Hoje, os tempos são outros, a censura é outra, a violência é outra.
Uma coisa não muda:
a mentira que os jornais e tevês insistem em nos impor.

Salve os blogues, sites e canais alternativos de comunicação,
que fazem multiplicar as verdades e ressuscitam os mortos dentro de nós.

Sugiro, para mais informações sobre este tema, o seguintes link: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15896

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Arco-íris

Tenho sete asas.
Sete cores do arco-íris.

Partida em seus espectros, a luz do sol brilha sobre mim.
Do vermelho o pulso aberto, sangue, coração à mostra.
Do laranja, ânsia de voar.
Do amarelo, a alma em brasa. A esperança verde.
O azul do mar...
O azul do mar, índigo sereno, e o violeta que toda bruxa tem.

Tenho sete asas.
Sete cores do arco-íris.

No mais, é o negro da noite que me povoa.
E tece suas asas no avesso de mim.
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