25 de outubro de 2011

Minha alma em festa

Em minhas dezenas de aniversários, não me lembro de ter ganho tantos... tantos presentes quanto ganhei este ano.
Hoje, terça-feira, 25 de outubro, ganhei mais um.
Por pouco ele não escapa de minhas mãos. Por pouco não fui levada pra longe do coração e de encontro às burocracias da vida.
Betânia me trouxe de volta.
Superei o caos no trânsito. E cheguei, na Biblioteca Popular do Coque.
A meio do caminho, a pequena Vitória me fez o primeiro afago: no caderno, as letras ainda embaralhadas, de quem dá seus primeiros passos. E o recado: “você é a professora que mais gosto. Te amo”.
Lá dentro, a festa que fez meu coração saltar para a garganta.: Eliza, Thuana, Thales, Tauã, Josafá, Ester, Leandro, Martinha, Carol, Sandra, Betânia, Jackson... E o bolo, os docinhos, as velinhas, o “parabéns pra você”.
E Josafá, lendo para mim um poema de Cecília Meireles que falava do mar. Sem saber que já era eu um oceano inteiro...
E o abraço apertado de Guega, montado em meu pescoço...
E o segredo de Thuana, em meu ouvido: “Eu gosto muito de você”
E o carinho de Betânia e Sandra que, juntas, organizaram tudo.
Minha alma ainda está em festa!
Nestas horas eu vejo que tem razão a minha amiga Magna: o afeto, de fato, faz revoluções!!!
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13 de outubro de 2011

Sobre crianças e palavras.


Palavra dói. Eu vi estampado na cara do menino, o soco firmado na voz da mãe: - Sai daí, peste!

O menino pôs o riso em desconcerto pra esconder o travo na garganta. E engoliu a peste com todas as suas feridas, moscas e putrefações.

Aqui, nesta beirada de fim de mundo, as crianças já nascem maltratadas pelas palavras. O menino é mais um que é cevado no grito. Mais um.

Silêncio nestas bandas é medo. De bala, de sirene, de barulho mortal.

O ruído outro, das palavras que maltratam, fica mais perto do coração, mesmo quando dói. E a dor é certeza de que se está vivo, mesmo quando se caminha entre sombras.

Por isso aqui, neste pedaço do esquecimento, poemas são joias raras, tenebroso desmantelo. Poemas são pedaços de silêncio, de vento que sopra, água do rio... Poemas são pássaros que ciscam no asfalto, o metrô que toca no céu...

E é ali, no livro colorido, que o menino vomita sua peste em formato de histórias. Na ausência das letras que não lhes foram reveladas, cria um mundo pelo avesso, com bichos contentes e pedaços de azul. Depois conserta o riso e pinta a rua com seu cheiro de infância.
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4 de outubro de 2011

A mulher fantasma


Quando vem a tarde, surgem os primeiros sintomas. Uma dormência nas mãos e a sensação de estar oca. Então acontece: ela começa a desaparecer.

Os dedos buscam as teclas, mas não há dedos. Uma sombra apenas. Depois, nem mais.

Ela tenta coçar os olhos que coçam. Usa os ombros, pois as mãos já são fantasmas. E se dá conta de que não há mais olhos para coçar.

Quer chorar, mas não há lágrimas. Quer gritar, mas a boca sumiu e a voz há muito já não existe.

Então se conforma. Permanece em seu canto, muda, inerte como uma bola murcha.

Depois se dá conta de que apenas ela se percebe sombra.

Ao seu lado, outros lhe lançam perguntas, sorriem, contam piadas. E há uma voz que responde: a sua voz. Há uma boca que ri: a sua boca. Há mãos que teclam, olhos que vêem, um corpo que parece vivo: o seu. Mas só os outros o enxergam assim.

E ela permanece fantasma enquanto um outro, autômato, ocupa o seu lugar.

Todos os dias, isso acontece. Sempre à tarde.

Quando vem a noite e ela busca na escola suas crianças, sua alma retorna e ela volta a ser gente. De carne e osso. E, principalmente, de água e sangue.
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