29 de maio de 2009

Lembranças de adolescência

Ele era lindo, loiro, despojado,
usava uma calça jeans bem justa,
e arriscava umas notas no violão.
Ela era pequena, bobinha
e cheia de romances na cabeça.
Enquanto ele ocupava as noites,
nos bares e boates,
rodeado de meninas lindas e modernas,
ela enchia seu sono de histórias de amor.
Um dia, ele deixou de freqüentar a sua rua.
Não ia mais às festinhas,
não tocava mais seu violão.
O tempo passou
e sua ausência assombrou,
como um fantasma,
as noites da menina.
O tempo passou.
A menina continuou pequena,
mas seu pensamento criou asas.
Foi quando ela resolveu enfrentar seus fantasmas.
Pegou o telefone.
Ligou.
Ele já não lembrava seu nome,
mas ela não se deixou intimidar.
E os dois marcaram para sair juntos.
Ele foi buscá-la de carro
e a levou a um barzinho simples, próximo à praia.
Eles conversaram,
lembraram histórias,
riram juntos.
Mais nada.
Cada um seguiu sua vida.
Ela cresceu, frutificou, construiu novos sonhos.
E do passado não restaram sombras, apenas lembranças.
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21 de maio de 2009

Não quero ser apenas palavras bonitas

Não.
Eu não quero.
Não quero ser apenas palavras bonitas.
Não quero escrever apenas belos poemas.
Quero que minha escrita seja como um grito,
e que mostre o mundo no que ele tem de belo e infame!!!
Quero que minha palavra sangre,
como os meninos mortos pela guerra do tráfico.
E também faça sangrar quando necessário.
Quero poder abrir todas as janelas
das famílias que se enclausuram em seu mundo de sonhos e medos.
Quero abrir minhas próprias janelas
para perceber a dor que não é minha,
e deixá-la transbordar,
como lágrimas que escorrem sob as palavras.
Declaro, aqui, minha eterna adesão à causa comunista.
Serei sempre contra os que defendem a vida como mercadoria.
Serei sempre contra os que pensam o mundo como competição.
Declaro, aqui, minha admiração pelos pequenos militantes de todo dia:
os que fazem sua revolução sem holofotes,
nas periferias,
nas escolas,
nos lares.
A partir de agora, em tudo o que lerem de Luna Freire
haverá muito mais do que as palavras.
Haverá a vontade imensa de um outro mundo,
outra ordem,
outro pensamento.
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18 de maio de 2009

Morada das cores

Meu menino vê o mundo azul.
Foi azul a primeira cor que aprendeu a distinguir.
E é de azul que se pintam seus sonhos:
- Mãe, eu quero um cavalo azul que voa. Você compra?
Não pude comprar-lhe os desejos, tais e quais.
Mas pude dar uma burrinha, dessas de carnaval, feita de chita azul.
Meu menininho lhe deu as asas e sorriu.

Minha mocinha criou um mundo cor-de-rosa,
rosa seus sapatos, suas roupas, suas meias...
rosa cor do beijo de princesas,
e dos sonhos de todas as meninas de sete anos de idade.
Deste mundo de primaveras, ela tenta afastar os espinhos:
- Mãe, por favor, não morra nunca.
Eu quero morrer antes de você.
Ou que a gente morra juntas para passearmos juntas no céu.

O mundo de meu amado é vermelho.
De um encarnado intenso e impaciente,
desses que nos queima a alma
e não espera saciar a sede.
Meu amado tem sangue de exus nas veias
e nas mãos, o vermelho das rosas.
Seu humor anda sempre a galope,
e seu abraço é uma clareira no inverno.

Com tantas cores, faço meu oratório:
Sou filha de Oxumaré,
guardiã do arco-íris, que liga a terra ao céu.
Faço de meu coração, oratório: morada das cores.
E faço do arco-íris, a morada de meus amores!!!
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11 de maio de 2009

Para minha mãe

Mãe, eu cresci.
Hoje, sou eu quem canto para meus filhos
cantigas de ninar com a lua
Mas quem me sopra a canção aos ouvidos
é uma outra voz:
a tua.

Hoje, sou eu quem corro
entre o trabalho, as crianças,
contas a pagar.
Mas a mão que me guia
está em minhas lembranças,
por que tenho tua imagem
para me espelhar.

Hoje, sou eu quem põe de castigo,
dá sermão, põe cara feia,
diz que não e diz que sim.
Mas, pela minha boca,
fala também a tua,
pois foi você quem me fez ser assim.

Hoje, sou eu que não durmo
noites inteiras,
quando as crianças adoecem.
Amanhã, esperarei acordada
que o dia as devolva
dos bares e boates,
enquanto meus sonhos anoitecem.

Amanhã, os verei se afastarem,
criarem raízes,
flores, sementes.
E sentirei que o tempo deita ramos
e se espalha, eterno,
em cada uma das gentes.
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4 de maio de 2009

Sementes de Boal



Foi-se Boal.
No entanto, quanta coisa ele deixou!!!...
Quando a gente morre, deixando tantas sementes, é como se continuasse vivendo em cada um dos frutos e ramos que brotam.
Boal, portanto, continua vivo.
Em cada grupo de teatro que pensa no palco como obra coletiva.
Em cada ator, dramaturgo ou diretor que não pensa a cena como produtora de ilusões,
mas como convite para uma tomada de posição.
Digo mais:
Boal também continua vivo um pouco mais longe dos palcos:
nas penitenciárias, assentamentos, escolas e fábricas nas quais ele e seu grupo usaram o teatro para revelar contradições, injustiças, desejos e possibilidades de mudança.
Existem algumas mudas ramificando em cada canto do país.
O coração de Boal ainda bate, no desejo verdadeiro de quem faz do teatro mais do que vaidade pessoal.
Confiram o artigo de Kil Abreu em Carta Maior. (Foto: Carta Maior)
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