30 de dezembro de 2009

Balanço de fim de ano



Este foi o ano
que me pôs de ponta-cabeça,
que fez de meus sonhos avesso,
e me mostrou os homens
e a política
e o mundo
em seu lado mais cru.

Mas este foi o ano
que me fez perder e achar a esperança a cada dia
fazer dela busca incessante,
destruída e reconstruída,
a cada instante,
cada hora,
cada segundo.

Essa aprendizagem eu devo à gente do Coque,
sobretudo às crianças.
É para elas que fica o meu melhor de 2009
e minhas maiores expectativas para 2010.
Esta crônica pertence aos inquietos
e desafiantes Xande, Tales, Leandro, Maicol.
Aos sensíveis, de grito abafado no peito,
Jonatan, Martinha, Mariana, Elisa, Josafá.
Aos quase adolescentes, Ítalo, Joel, Alice, Ana.
Aos pequeninos Guega, Vitória, Ester, Bolinho.
Esta crônica pertence a Betânia e Rafael,
gente que me dá orgulho de ser gente.
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21 de dezembro de 2009

Papai Noel é a mãe!

Odeio crianças.
Odeio Natal, ano-novo e todas aquelas luzinhas piscando.
Sou gordo, feio, mal-humorado, liso e desempregado.
Aceitei aquele trabalho só pra ganhar a grana da cachaça que, esta sim, é minha amiga fiel.
Mas levantava-me, a cada dia, com a sensação de que ia à câmara de tortura.
E, de fato, assim era.
O ar-condicionado não aliviava o peso e calor daquelas roupas.
O cinto me amassava a pança.
As botas faziam calos nos pés.
E a barba, horrorosa, causava alergia e me encaroçava o queixo e as bochechas.

Mas o pior,
o mais terrível,
o maior dos castigos
era ter que sorrir para todos aqueles pirralhos.
As inocentes,
lindinhas
e sorridentes crianças que me sentavam no colo,
me puxavam a barba,
e me faziam pedidos estapafúrdios.

Um noite,
final de expediente,
vi que uma mãe puxava um guri pela mão:
- Vamos, Bolinho, aproveita que não tem mais fila. Vai lá e pede teu presente pra papai Noel.
A mulher empurrava o menino
que não parecia muito animado a sentar em meu colo.

Prostrou-se à minha frente.
Era gordo, feio e não parecia de bom humor.
Não riu.
Eu também não.
Olhou no fundo de meus olhos.
Olhei também.
Fez uma careta horrível.
Eu o imitei.
E comecei a gostar daquele pivete.
- Papai Noel, você é feio à beça.
- É, sou.
- Você é mais gordo que eu.
- É, sou.
- E você é velho.
- É, sou.
- E também é muito chato.
- É, sou.
- Então, um dia, eu vou ser um Papai Noel, igual a você.

E então sorriu.
Sorriu pela primeira vez e eu vi que era sorriso de verdade,
de felicidade.
- E porque você quer ser Papai Noel menino? Acha que é bom?
O gordinho calou.
Pensou.
Olhou no fundo de mim e de si.
Disse:
- Quando eu for Papai Noel, todas as crianças vão gostar de mim.

A partir daquele dia, nunca mais deixei de ser o melhor e mais feio Papai Noel de todos os shoppings da cidade.
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4 de dezembro de 2009

Carta aos novos rumos

É chegada a hora do Adeus!
De fazer as malas e escolher novo destino.
Olhar para trás e perceber que valeu a pena,
ainda que os sonhos tenham se desfeito em brumas.

O que vale é que enquanto neles eu acreditei,
os fiz verdadeiros.

E,
mesmo que,
de repente,
nada mais reste que frangalhos, ossos e sangue,
estou inteira
porque mataram-me sonhos,
não a possibilidade de sonhar.

A guerra não me derrubou.
Mas arrancou o solo onde eu depositara minha bandeira.

É chegada a hora de enterrar os mortos!
Jogar sobre os cadáveres
a última pá de terra.
E ver crescer sobre ela uma nova árvore.

A memória de meus sonhos não morrerá em mim.
Será adubo para novas colheitas.

Se o abismo desenhou-se à minha frente,

é hora de levantar a ponte!
Que minhas palavras sejam as engenheiras.

Não tenho medo de olhar pra trás.
Estou inteira.
Adeus!
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