31 de julho de 2009

Das aprendizagens

Xande está aprendendo abraços.
O menino esquivo, que sonha ter uma arma e chuta cadeiras e gentes, já se deixa beijar.
E chega junto, como quem não quer nada, a alma sedenta de carinho.

Xande está aprendendo leituras.
O menino que juntava letras sem percebê-las,
que olhava os desenhos dos livros, ansioso por compreender o que insinuavam,
está aprendendo que pode aprender.

Xande está aprendendo a ser.
O menino à deriva,
o menino náufrago de sua própria realidade
está aprendendo a remar.
Está aprendendo a acreditar em si mesmo.

E, quando eu o vejo assim,
aprendendo,
eu também reaprendo a esperança.
E ela tem a cor da felicidade.


Leia aqui a postagem anterior sobre este mesmo personagem.
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14 de julho de 2009

Revoada

Houve um tempo em que as palavras escapavam de mim como pássaros.
Nem o papel os prendia.
Em vão, eu tentava decorar idéias, que sempre me surgiam nos lugares mais inoportunos: ônibus lotado, meio da rua, entre cervejas no bar...
Em vão, tentava prendê-las com caneta, em guardanapos ou versos de documentos.

Houve um tempo em que as palavras escapavam de mim como lágrimas.
E, nossa!!!... como eu chorava!
Tinha dentro de mim tempestades.

Nunca domei os mares nem expulsei meus passarinhos.
Mas um dia eles deixaram de voar.
Creio que a vida machucou suas asas e derrubou alguns anjos de mim.
Deixei-os sangrar alguns anos, para que suas cicatrizes deixassem marcas na minha alma.
Então, comecei a repor pena por pena para, só então, reaprender a voar.
Vez em quando, consigo alguns vôos. E estou fazendo força para ir mais alto.
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13 de julho de 2009

Conto no escuro



Maria Helena conhecera a luz elétrica quando tinha 12 anos de idade. Hoje, mais de dez anos depois, seus olhos farejavam abismos, acostumados aos insondáveis da noite. Como felina, ela vagava pelas ruas escuras, tecendo manhãs. Nada mais a fazer. Entre as faíscas da memória, ela buscava um tempo em que ainda havia circos nas ruas. Em que havia bares, shows e teatros. Em que carros e gentes semeavam ruídos na cidade iluminada.

Há exatos onze anos e cinco meses, o país começara a se apagar. No princípio, a escuridão veio aos poucos. Mas depois se apossou de tudo e varreu do mapa os últimos contornos de um país, outrora chamado Passaraj.

Foi em 17 de maio de 2001 que o governo anunciou os primeiros cortes de energia. Estava vetado o fornecimento de luz elétrica para shows, eventos desportivos e anúncios publicitários. Não havia água. Todos os rios que alimentavam as companhias hidroelétricas estavam com sua capacidade comprometida.

Aos poucos, as pessoas se acostumaram com essas ausências. Os jogos de futebol passaram a ocupar as tardes e a vida transcorreu em seus comuns. Com 12 anos, Maria Helena pouco atentou a mudanças. Apenas notou que era obrigada a ficar menos tempo frente a televisão e que a mãe começou a usar lampiões a gás.

Um dia, contudo, tudo desabou. Foi a primeira vez que a menina viu o pai chorar. Sua empresa tivera que reduzir a mão-de-obra. Entre os dispensados estava ele, após 20 anos de duros serviços prestados. Nessa época, ainda havia bares à noite e alguma luz nas casas. Mas o que os olhos de Helena não viam era o exército de excluídos que crescia e, a exemplo do pai, perdia tudo do dia para a noite.

Venderam-lhe a televisão, o rádio e a geladeira. Nada mais se guardava porque nada havia a guardar. A mesa vazia passou a fazer parte da vida tanto quanto a escuridão. As noites ficaram desertas: ninguém mais tinha coragem de enfrentar as hordas de famintos e famigerados que se avolumavam nas ruas. De dia, uma multidão de desesperados quebrava postes, invadia empresas, sequestrava políticos e saqueava mercados. A divisão de renda passou a ser feita à força porque os degradados invadiam mansões e rompiam os muros dos castelos.

Não havia mais o que fazer. O governo, acossado, fugiu para outras paragens. E o abastecimento de luz, entregue às empresas privadas, tornou-se privilégio de poucos, que ainda podiam pagar as milionárias tarifas.

O tempo passou e as pessoas se acostumaram ao caos. Deixaram de gritar os miseráveis porque a penúria passou a ser de todos. Deixou de ser de alguns. Calaram os jornais. E o mundo, lá fora, esqueceu que havia um país chamado Passaraj. As empresas de fornecimento de energia elétrica se retiraram da cena de mansinho. A luz virou uma página virada da memória.

Agora, tudo estava calmo na escuridão. Helena tinha 23 anos de vida e 8 de solidão. Perdera o pai aos 14, a mãe aos 15 e a esperança aos 16. Escola não tinha desde os 13 anos e os amigos, que não sucumbiram no caos, fecharam-se em seus domínios para nunca mais sair. Helena fez da solidão sua companheira e da desgraça sua armadura. Assim protegida, poderia andar tranquila neste ponto negro suspenso no tempo.

O sossego atormentava-se apenas com a memória, que vez ou outra gritava, louca. Era ela a única que guardara uma réstia de luz. E com este fogo alimentava o grito, para falar de um tempo em que houvera vida. Em que ainda nasciam crianças e se beijavam os namorados nos jardins.

Era 15 de novembro de 2012. Helena decidiu apagar a memória e nunca mais ver a luz. Extinguiram o fogo. As sombras deixaram de incomodar. De dia, ninguém mais olharia as sobras de humanidade que resistiam sobre os escombros. O país virara um fantasma. Um ponto sem nó. Helena apagara a própria sombra para não ter que olhar estrelas sem as poder alcançar.
Desencavei este conto, que jazia em um arquivo sem nome.
Foi escrito nos malfadados tempos de FHC e seu governo do apagão
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6 de julho de 2009

Sobre a imensa família coral

Ser torcedor do Santa é uma dádiva e uma lição.
É tirar fôlego de cada queda para ressuscitar a esperança.
É dar asas à fênix, para ir das cinzas às nuvens.
É costurar no coração a camisa coral.

Torcedor do Santa não vibra sozinho, em frente à televisão.
Ele invade o campo, as ruas, os estádios rivais e cidades vizinhas.
É uma imensa família, com almas pintadas de branco-preto-encarnado.

Torcedor do Santa,
quando tem carro,
não usa a buzina para provocar o adversário,
mas para cumprimentar os irmãos de cores, tri-colores.

Torcedor do Santa sabe rir de sua própria desdita
e tirar do sorriso a munição para o próximo jogo.
Ele jamais rasga a camisa ou a esconde no armário.

Torcedores do Santa choram juntos,
vibram juntos,
viajam juntos,
resistem juntos.
E celebram, sempre, a vitória da solidariedade na imensa nação coral.

(Estive em Maceió para ver, junto com minha imensa família de milhares de tricolores, a vitória coral rumo às primeiras divisões. Santa 3 X 0 CSA).

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1 de julho de 2009

Tricolores invadem a blogosfera

Atenção, leitores, para a última notícia:
TRICOLORES INVADEM A BLOGOSFERA.
Tudo indica que os corais pernambucanos estão se unindo em rede virtual.
Os indícios estão evidentes no registro de favoritos da autora do blog palavraspontes, que se metamorfoseia sob o codinome de Luna Freire. Vejamos alguns exemplos:
Estuário, Samarone (com e): tricolor
Estradar, Dimas Lins: tricolor
Inscritos em Pedra, Josias: tricolor
Isso Eu, Biaggio: tricolor
Samuca Santos, o poeta: tricolor
Caótico, Inácio França: tricolor...
Resta investigar, ainda, alguns registros.
Não foram, por exemplo, identificados os times de Magna, do Sementeiras; Cleyton, do Cleytudo; Amanda, do Isso não aconteceu; e Urariano, do Sapoti de Japaranduba. Mas, em caso de não serem adeptos da fervorosa e revolucionária torcida branca-preta-encarnada, estão sob risco iminente de contágio.
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O palavrão é codinome da beleza

(Estas palavras vão para Biaggio e Cleyton, pelos deliciosos comentários do último post)

O palavrão é o avesso da hipocrisia.
Sombra-reflexo da humanidade:
no cru, no grotesco, na sua face mais verdadeira.
É o corpo carne,
terra,
bicho,
excremento.
Merda!
É o corpo coito,
sexo sem cortinas,
genitais expostos:
Caralho!!! Buceta!!!
Corpo que ejacula, sêmen que se espalha.
Porra!

O palavrão dessacraliza nossa voz, nossa palavra.
É a válvula da panela que apita no fogão.
Risco no papel branco.
Soco no estômago,
cartas rasgadas,
corpo que se oferece no banquete de Jocasta:
puta que o pariu!!!

O palavrão nos afasta do santo
nos aproxima do bicho:
do bicho-homem.
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