30 de março de 2010

Noite


Há várias noites espero que a lua me indique o caminho.
E não há nada.
A noite chega e se vai sem um único raio que me ilumine.

Agarrei-me,
em minha insônia,
à cauda de uma estrela cintilante.
Mas ela girou,
girou,
e devolveu-me ao abismo no qual estou suspensa.

Não há lua em minha noite.
E meus caminhos não amanhecem.

Qual Penélope transfigurada,
teço e desteço,
noite após noite,
cada fio de meu destino.

O desmantelo de meu mundo não me ofertou novos caminhos,
só o vazio,
a repetição autômata das mesmas teclas,
a vontade de fugir e os pés atados ao chão.

Há várias noites espero que a lua me indique o caminho.
E não há nada.
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24 de março de 2010

Legado de ternura

Seu Darcy era mais que um militante.
Era mais que um dirigente sindical.
Seu Darcy punha em cada palavra um afeto.
E arejava a rispidez da política com seu sorriso aberto.
Seu Darcy acreditava nas pessoas: com seus defeitos e qualidades.
Estava além das divisões partidárias porque tinha, em seu coração, um amor imenso pela humanidade.
Ouvir Seu Darcy, com sua voz doce e terna, era como escutar uma melodia.
Ele tinha poesia nos olhos e uma esperança contagiante.

Ontem, 23 de março, ele nos deixou.
Já vinha doente há algum tempo, uma diabete que se recusava a regredir.
Depois que sua esposa o deixou, ele também foi se deixando levar.
E a sua ausência deixou um vazio de ternura no movimento sindical.
Nossa esperança é que,
de lá,
das estrelas para onde se dirigiu,
ele ilumine cada coração com sua esperança doce e verdadeira.

Que teria dito Seu Darcy ao ver tão dividido o Sindicato que ele tanto amava?
Que teria feito ele?
De que lado teria ficado?

Eu digo que Seu Darcy seria,
sim,
sempre contrário à divisão dos trabalhadores.
Ele acreditava nas pessoas,
em cada uma delas.
E, justamente por isso,
ele não ficaria de lado algum.
Não porque tivesse receio de se posicionar,
mas porque não poderia apoiar algum dos lados
quando via ambos marcharem para o mesmo erro.
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22 de março de 2010

Aprendizagens



Estou aprendendo a não cobrar tanto das pessoas.

A não ver nelas o abismo escuro,
e sim a lua que surpreende a noite.

A não ver nelas a boca que devora,
mas os dentes que esperam o momento do sorriso.

Garras afiadas também fazem cafuné.
E há em todo sanque
tanta vida,
tanta vida...

Estou aprendendo a desconfiar de minhas verdades.
E sei que esta é a melhor maneira de acreditar nelas!
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9 de março de 2010

O enforcado


O enforcado.
Lá estava ele, atado pelos pés.
Uma corda que o prendia a lugar nenhum.
Segurei a carta com firmeza.
Olhei.
E tomei, então, meu primeiro susto.

Era eu,
sim,
era eu naquela carta.
Era eu que sorria para mim mesma,
de ponta-cabeça,
uma perna cruzada
e as mãos ocultas.

Fechei os olhos com força.
Estava em transe, não há dúvidas.
Aquilo não podia ser real.
Voltei a apertar os olhos
e fitei a carta,
mais uma vez.

Meu rosto,
de enforcada,
fez uma careta e voltou a sorrir.

- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, perguntei.
- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, a carta respondeu.
- É você, a enforcada - tornei a dizer.
- É você a enforcada - retrucou a outra.

E, assim,
meio sem perceber o que fazia,
apalpei meu próprio pescoço
e descobri a corda que me atava.

Olhei para a carta.
Era apenas um desenho de tarô:
um homem de roupas coloridas atado pelos pés.

Não voltei a tocar em meu pescoço.
Nem tampouco desatei o nó da corda que me prendia...
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