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Mostrando postagens de 2011

Paisagens de Natal

Dois corpos na esquina
crivados de balas
na véspera de Natal

Fio da vida

Habitava a casa desde sempre. Esquecida em uma encruzilhada da parede. No alto, onde as vassouras não alcançam. De lá tecia seu manto. E espiava.

Minha alma em festa

Em minhas dezenas de aniversários, não me lembro de ter ganho tantos... tantos presentes quanto ganhei este ano.
Hoje, terça-feira, 25 de outubro, ganhei mais um.

Sobre crianças e palavras.

Palavra dói. Eu vi estampado na cara do menino, o soco firmado na voz da mãe: - Sai daí, peste!

A mulher fantasma

Quando vem a tarde, surgem os primeiros sintomas. Uma dormência nas mãos e a sensação de estar oca. Então acontece: ela começa a desaparecer.

Corta!!!

Quando os sorrisos na sala
se escancararem em dentes
quando o esforço da quietude
deixar-te as mandíbulas dormentes
quando bons-dias e boas-tardes
forem palavras somente
e te sentires espremido
entre retalhos de gente...

Margaridas

Não!
Não é deste Brasil que vos falo:
das menininhas com seus piolhos,
bocas e pernas feridas...
Nem dos jovens de olhos perdidos
privados de si
e da vida

Didiinha

Em que espelho te miras,
minha menina crescida?
se na rosa mais bela
vês só o espinho. E a ferida...

Poemas na encruzilhada

Quando plantaram a semente
lá nas terras do Ceará
não podiam imaginar
a flor que germinaria
é flor que deita semente
lá no coração da gente
semente cor de poesia

Poema de amor

Ele veio sem ser convidado
invadiu meu mundo
destelhou minha casa
plantou ninhos em meu ventre
beijou-me os seios e as asas
lançou-me ao abismo para ensinar-me a voar

O coelho de Rita

Nenhuma criança da cidade conhecia a origem do coelho. Estivera ali, desde sempre. Como uma árvore centenária: parado, quieto, olhos plantados no chão. Vivia solto entre as plantações, mas não ousava roer uma única cenoura, um único pé de alface.

Encontro

Um elevador. Dentro, uma senhora, elegantemente vestida, com blaiser, calça de linho e sapato de salto alto. E uma empregada doméstica, com trajes mais simples e sandálias de dedo.

Dois minutos

No centro do palco, foco em um ator, que aponta os dedos em riste para a plateia, como se fosse uma arma, enquanto conversa em um celular fictício.

Uma história de São João

Foi assim, numa noite de São João, que a sombra da morte lhe lançou o aviso.
Era moço ainda, em seus vinte e poucos anos. Muito o que viver.
Mas as vezes o destino é lavrador imprudente: ceifa sementes ainda mal germinadas...

Viagem aos céus

Hoje Tales pensou estrelas...
Tão lindo vê-lo sozinho, sem precisar gritar nem chamar a atenção de ninguém.

Espelho quebrado

Deixou-se ficar.
Parada em frente ao espelho quebrado.
As faces dispersas de si.

Entrevista com Maria Maria

- Como é seu nome?
- Maria.

- Maria de que?
- Maria. Maria.

Assassinato da infância

Suas vinte Barbies,
suas trinta Pollys,
e os bebês que falam andam e cantam em inglês...

Sonho de carnaval

Carnavalizar a vida.
Virar o mundo de ponta-cabeça.
Fazer da realidade o sonho bêbado de um folião...

Ressurreição

Então renasci. Cruzei a ponte que me separa do abismo. Cindi a nuvem negra em gotas de orvalho. E espalhei nos ventos as cinzas de mim.