26 de dezembro de 2011

Paisagens de Natal


Dois corpos na esquina
crivados de balas
na véspera de Natal

Uma menina de 12 anos
a alma feita de crack
na porta da Estação

Papai Noel não anda de metrô

Ruas cheias de crianças
à espera da solidariedade de moedas:
encomendas de Natal

Lojas cheias,
banqueiros felizes,
luzes,
enfeites,
peru,
pisca-pisca
e um menino que cheira cola na noite de Natal.

Amigos secretos,
em bares repletos
sorrisos fabricados para o Natal.

Eu abdico dos dezembros...
E meu poema é mórbido
como o mundo.
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3 de novembro de 2011

Fio da vida


Habitava a casa desde sempre. Esquecida em uma encruzilhada da parede. No alto, onde as vassouras não alcançam. De lá tecia seu manto. E espiava.

De cima de seus fios, via o que havia quando as cortinas se fechavam. A confusão de pernas e corpos. Os sussurros e gemidos. As mãos que se achavam e se perdiam. A fusão. O enlace. O amor...

De cima de seus fios, via crescer o ventre da dona. Ouvia os choros do novo habitante. E de outro. E mais outro... Via a dona tentar domar a vida: limpar, arrumar, passar, costurar, cozinhar, amamentar, ensinar, alimentar. Via a dona esquecer-se da vida e a vida esquecer-se da dona.

De cima de seus fios, via o que havia quando as cortinas se fechavam. Os gritos, o choro, o quarto arrumado. O homem que saía, batendo portas. A dona sozinha. A cama vazia...

De cima de seus fios, via crescer cada habitante. E ir embora. A casa vazia. A dona sozinha...

Então, já não havia vassouras a chacoalharem o chão. E ela deixou seu manto estender-se até o baixo. E ela deixou seu manto percorrer o assoalho.

E um dia, encontraram a dona sorrindo: seu corpo gelado coberto por uma imensa teia de aranha...
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25 de outubro de 2011

Minha alma em festa

Em minhas dezenas de aniversários, não me lembro de ter ganho tantos... tantos presentes quanto ganhei este ano.
Hoje, terça-feira, 25 de outubro, ganhei mais um.
Por pouco ele não escapa de minhas mãos. Por pouco não fui levada pra longe do coração e de encontro às burocracias da vida.
Betânia me trouxe de volta.
Superei o caos no trânsito. E cheguei, na Biblioteca Popular do Coque.
A meio do caminho, a pequena Vitória me fez o primeiro afago: no caderno, as letras ainda embaralhadas, de quem dá seus primeiros passos. E o recado: “você é a professora que mais gosto. Te amo”.
Lá dentro, a festa que fez meu coração saltar para a garganta.: Eliza, Thuana, Thales, Tauã, Josafá, Ester, Leandro, Martinha, Carol, Sandra, Betânia, Jackson... E o bolo, os docinhos, as velinhas, o “parabéns pra você”.
E Josafá, lendo para mim um poema de Cecília Meireles que falava do mar. Sem saber que já era eu um oceano inteiro...
E o abraço apertado de Guega, montado em meu pescoço...
E o segredo de Thuana, em meu ouvido: “Eu gosto muito de você”
E o carinho de Betânia e Sandra que, juntas, organizaram tudo.
Minha alma ainda está em festa!
Nestas horas eu vejo que tem razão a minha amiga Magna: o afeto, de fato, faz revoluções!!!
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13 de outubro de 2011

Sobre crianças e palavras.


Palavra dói. Eu vi estampado na cara do menino, o soco firmado na voz da mãe: - Sai daí, peste!

O menino pôs o riso em desconcerto pra esconder o travo na garganta. E engoliu a peste com todas as suas feridas, moscas e putrefações.

Aqui, nesta beirada de fim de mundo, as crianças já nascem maltratadas pelas palavras. O menino é mais um que é cevado no grito. Mais um.

Silêncio nestas bandas é medo. De bala, de sirene, de barulho mortal.

O ruído outro, das palavras que maltratam, fica mais perto do coração, mesmo quando dói. E a dor é certeza de que se está vivo, mesmo quando se caminha entre sombras.

Por isso aqui, neste pedaço do esquecimento, poemas são joias raras, tenebroso desmantelo. Poemas são pedaços de silêncio, de vento que sopra, água do rio... Poemas são pássaros que ciscam no asfalto, o metrô que toca no céu...

E é ali, no livro colorido, que o menino vomita sua peste em formato de histórias. Na ausência das letras que não lhes foram reveladas, cria um mundo pelo avesso, com bichos contentes e pedaços de azul. Depois conserta o riso e pinta a rua com seu cheiro de infância.
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4 de outubro de 2011

A mulher fantasma


Quando vem a tarde, surgem os primeiros sintomas. Uma dormência nas mãos e a sensação de estar oca. Então acontece: ela começa a desaparecer.

Os dedos buscam as teclas, mas não há dedos. Uma sombra apenas. Depois, nem mais.

Ela tenta coçar os olhos que coçam. Usa os ombros, pois as mãos já são fantasmas. E se dá conta de que não há mais olhos para coçar.

Quer chorar, mas não há lágrimas. Quer gritar, mas a boca sumiu e a voz há muito já não existe.

Então se conforma. Permanece em seu canto, muda, inerte como uma bola murcha.

Depois se dá conta de que apenas ela se percebe sombra.

Ao seu lado, outros lhe lançam perguntas, sorriem, contam piadas. E há uma voz que responde: a sua voz. Há uma boca que ri: a sua boca. Há mãos que teclam, olhos que vêem, um corpo que parece vivo: o seu. Mas só os outros o enxergam assim.

E ela permanece fantasma enquanto um outro, autômato, ocupa o seu lugar.

Todos os dias, isso acontece. Sempre à tarde.

Quando vem a noite e ela busca na escola suas crianças, sua alma retorna e ela volta a ser gente. De carne e osso. E, principalmente, de água e sangue.
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5 de setembro de 2011

Corta!!!


Quando os sorrisos na sala
se escancararem em dentes
quando o esforço da quietude
deixar-te as mandíbulas dormentes
quando bons-dias e boas-tardes
forem palavras somente
e te sentires espremido
entre retalhos de gente...

Não!
Não é necessário que aguentes!

Quando te encherem a língua
de nós e de tranças
Quando abrirem túmulos
pra tuas esperanças
Quando as palavras silenciadas
cravarem em teu estômago suas lanças
e sentires que teus passos
não acompanham a dança...

Não!
Não é necessário ser mansa!!!

Eis que setembro chega,
com sua primavera...

Já estás com o machado nas mãos:
pra que mais espera?
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25 de agosto de 2011

Margaridas


Não!
Não é deste Brasil que vos falo:
das menininhas com seus piolhos,
bocas e pernas feridas...
Nem dos jovens de olhos perdidos
privados de si
e da vida

Não.
Eu falo do Brasil das Margaridas!

Não falo dos pés que mergulham na merda
dos esgotos que passeiam nos lares
das mulheres esbofeteadas
ou dos santos, em seus altares

Nem mesmo dos vermes
na barriga da criança
ou dos bandidos
com dinheiro pra fiança

Não.
Eu falo do Brasil da esperança!

E a esperança não sai na TV.

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17 de agosto de 2011

Didiinha

Em que espelho te miras,
minha menina crescida?
se na rosa mais bela
vês só o espinho. E a ferida...

Em que espelho te miras,
minha irmã, minha menina?
que só vês a escuridão,
na noite que se ilumina...

Para sempre,
toda vida,
serás minha irmãzinha
a que brincava comigo,
de boneca,
de casinha.
Que contava de seus medos,
fantasmas,
sonhos de horror.
e revelava segredos
de solidão
e de dor...

Queria ter o poder
de te tirar da escuridão
em vão te estendo meus braços
e te ofereço minha mão.
É que a venda de teus olhos
ninguém mais pode tirar.
Em que espelho te miras, irmãzinha?
Que não vês a vida bailar...
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14 de agosto de 2011

Poemas na encruzilhada

Quando plantaram a semente
lá nas terras do Ceará
não podiam imaginar
a flor que germinaria
é flor que deita semente
lá no coração da gente
semente cor de poesia

Quando os anjos abriram bocas
nas ladeiras de Olinda
o mundo era mudo ainda
não conseguia escutar
os atabaques pandeiros
vindos de navios negreiros
fazendo a poesia ecoar

Quando caminhos se cruzaram
em redes de encruzilhada
ele marcou a estrada
e, nos poemas, criou asas
Deu-lhes cantos e imagens
buscou-lhes novas paragens
de encontros em outras casas

Quando as palavras das pedras
descolaram do chão dormente
viraram estrelas luzentes
na noite escura a cintilar
Ele então largou bandeiras
e fez das palavras primeiras
as armas com que lutar

Quando pontes se abriram
entre estes tantos caminhos
os sonhos que eram sozinhos
encontraram companhia
das pedras já descoladas
as palavras, em encruzilhadas,
tecem encontros de poesia.


(Para Magna, Valda, Dimas e Geó ou melhor:
para Sementeiras, Canto da Boca, Estradar e Inscritos em Pedra
E também para Lena, Ducaldo e Edjane, testemunhas deste encontro, novos nós nesta teia)
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8 de agosto de 2011

Poema de amor


Ele veio sem ser convidado
invadiu meu mundo
destelhou minha casa
plantou ninhos em meu ventre
beijou-me os seios e as asas
lançou-me ao abismo para ensinar-me a voar

Ele veio sem ser convidado
Enfrentou Peter Pan
Reinventou-me a vida
Sugou-me a seiva e o musgo
Fez jardins em minhas entranhas
e afastou-me da Ilha Perdida
roubou-me a boneca para ensinar-me a brincar

Ele veio sem ser convidado
e ficou.
E eu, arrastada que fui por um temporal destemperado,
fiz-me mulher ao seu lado,
e deixei o vento me guiar.
E eu, arrastada que fui por uma barca desgovernada,
ofereci-lhe minha caverna para sua morada,
e deixei seu sêmen me povoar.
Ele veio sem ser convidado
e ficou.







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29 de julho de 2011

O coelho de Rita

Nenhuma criança da cidade conhecia a origem do coelho. Estivera ali, desde sempre. Como uma árvore centenária: parado, quieto, olhos plantados no chão. Vivia solto entre as plantações, mas não ousava roer uma única cenoura, um único pé de alface.

Nenhuma criança da cidade conhecia a origem do coelho. Mas os adultos, sim. E contavam a história, boca a boca, desenhando novos detalhes a cada versão. Mas o princípio estava sempre na mesma pessoa: Dona Rita, a primeira habitante de Cidade da Lua.

Quem a conheceu, diz que era pessoa de poucos amigos. Preferia a companhia das árvores e das plantas. Mulher forte, de mãos quase mágicas, ela fazia da terra, frutos e flores. Como ninguém mais. Sozinha arava o chão, plantava, irrigava e colhia. Sozinha, percorria o imenso espaço que separa Da Lua da cidade vizinha, para vender os frutos de seu trabalho.

Foi numa destas viagens que ganhou o coelho. Veio de brinde de um comerciante, satisfeito com a safra recorde de cenouras. Rita relutou em levar o presente. Mas acabou se dando por vencida, mais para não perder o cliente do que por amor ao animal.

E o coelho ficou. E ficou... E ficou... E Dona Rita se afeiçoou a ele e dava-lhe de comer, ensinando-o a nunca roer as plantações.

Tempos mais tarde, em viagem semelhante, o mesmo comerciante entregou a Dona Rita outro brinde: uma semente. A semente cresceu em seu ventre e, quando brotou, Dona Rita pôs no fruto seu próprio nome. E deixou-lhe crescer como o coelho, entre árvores e plantações.

Quando Dona Rita morreu, a moça - sua filha - enterrou-lhe sob as plantas, para que sua alma deitasse raízes. Desde então, o coelho vela o corpo, os olhos plantados no mesmo lugar.
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27 de julho de 2011

Cityville

Perdi-me numa cidade perfeita:
sem fome,
nem miséria,
nem Polícia,
nem ladrão.
Perdi-me numa cidade de sonho
e larguei a vida
na contramão.




Esta é minha Cidade de brincadeira. Cidade da Lua não tem latifúndios, apenas agricultura familiar. Tudo é gerido coletivamente e não há Polícia, por que não é necessário. Os conflitos e problemas são resolvidos por um Conselho Comunitário. E os trabalhadores têm jornada de seis horas, mas uma delas é dedicada a realização de serviços sociais, de acordo com o potencial e desejo de cada um. Se a pessoa trabalha como gari, mas tem habilidade para o artesanato, em sua hora de serviços comunitários, desenvolve oficina de artesanato com outros moradores. Também os negócios são obrigados a prestar contrapartida social. E as coisas vão bem, porque todos têm acesso à escola, bibliotecas, livros e cultura.

Cidade da Lua é apenas um jogo - o CityVille. Uma brincadeira de criança ou um refúgio no sonho. O problema é que essas brincadeiras de computador viciam e levam a gente pra longe da vida real. Um comentário de meu caro poeta Samuca me fez despertar. E eu tive uma ideia bem legal. Não vou abandonar o brinquedo pois ele me ajuda a limpar a alma... Mas vou torná-lo objeto de histórias. Cidade da Lua vai virar cenário de literatura. E mais: interativa. Por isso, façam perguntas sobre Cidade da Lua, para que a gente possa construir, juntos, essa história.

E eu, de minha parte, lanço a primeira polêmica da cidade. Incentivados - ou pressionados - pelo comando do jogo, que fica lançando metas e desafios para os construtores de cidades, os moradores de Cidade da Lua construíram um zoológico. Mas isso acabou indo de encontro à filosofia da própria cidade, que não permite enjaular ou aprisionar qualquer ser vivo. Mas as crianças adoram o lugar e até visitantes estrangeiros vem de longe pra vê-lo. O que fazer? A discussão está lançada entre os habitantes de Cidade da Lua, que tem até a semana que vem para decidir. E está lançada também para os visitantes e para os internautas. Comentem e opinem!!!
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21 de julho de 2011

Encontro


Um elevador. Dentro, uma senhora, elegantemente vestida, com blaiser, calça de linho e sapato de salto alto. E uma empregada doméstica, com trajes mais simples e sandálias de dedo.

MADAME – O que foi isso?

EMPREGADA – Travou.

MADAME – Como?

EMPREGADA – Travou. O elevador.

MADAME – O elevador travou?

EMPREGADA – É. Acontece sempre no elevador de serviço...

(Madame olha a outra dos pés à cabeça)

MADAME – E porque você não está no elevador de serviço?

EMPREGADA – Pois é... travou.

MADAME – O elevador de serviço?

EMPREGADA – E este também.

Tempo. Silêncio.

MADAME – E agora?

EMPREGADA – Agora o que?

MADAME – A gente não faz nada?

EMPREGADA – Já fiz. Apertei o botão do alarme. Agora a gente espera.

Tempo. Silêncio. A empregada encosta na parede do elevador e cruza os braços.

MADAME – Demora?

EMPREGADA – No de serviço demora. Talvez aqui seja mais rápido.

Tempo. Silêncio. Empregada tenta puxar assunto.

EMPREGADA – A senhora mora no 611 não é?

MADAME – É.

EMPREGADA – Eu trabalho bem do seu lado, no 612.

MADAME – É mesmo? Eu nunca lhe vi...
EMPREGADA – Eu sei... As madames nunca nos vêem.

Tempo. Silêncio.

EMPREGADA – A senhora é patroa da Luzinete não é?

MADAME – Sou.

EMPREGADA – Como é que 'tá a filha dela?

MADAME – Como?

EMPREGADA – A filha dela... a que tem câncer...

MADAME – A Luzinete tem uma filha?

EMPREGADA – É... uma menininha de cinco anos. Tadinha... vive de médico em médico, fazendo tratamento. Nem cabelo tem, coitada. A Luzinete chora tanto...

MADAME – Mas eu nunca a vi chorando.

EMPREGADA – Eu sei. Vocês, madames, nunca nos vêem...

Tempo. Silêncio. A empregada senta no chão. A madame despe o blaiser, desabotoa a camisa até a altura do peito, deixa a bolsa em um canto, tira as sandálias, encosta na parede...

MADAME – E você, tem filhos?

EMPREGADA – Tenho, sim. Mas já estão crescidos. Tenho até netos... Meu mais novo tem quinze anos.

Tempo. Silêncio.

MADAME – Sabe... eu sempre quis ter filhos?

EMPREGADA – E porque não tem?

MADAME – Não posso. Já tentei. Meu útero não segura...

EMPREGADA – Mas a senhora já foi a um médico?

MADAME – Já. Fiz até tratamento. Mas, depois do terceiro aborto, desisti...

EMPREGADA – Sei... e porque não adota uma criança?

MADAME – É. Pode ser...

Tempo. Silêncio.

MADAME – Como é mesmo seu nome?

EMPREGADA – Lucíola.
O elevador destrava.

EMPREGADA – Opa, voltou!!!

A madame se apressa em vestir seu casaco, abotoar a camisa, calçar a sandália, pegar a bolsa. Põe-se de costas para a empregada, junto a porta. A outra fica por trás. A porta do elevador para no sexto. A madame sai sem olhar para trás.

Mais um exercício da Oficina de Dramaturgia com Maria Helena Kuhner
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13 de julho de 2011

Dois minutos



No centro do palco, foco em um ator, que aponta os dedos em riste para a plateia, como se fosse uma arma, enquanto conversa em um celular fictício.

ATOR 1 - Já. 'Tou aqui sim. Na espreita. Trouxe o calibre 38. É... é um cara só né? Eu sei. Sei... claro! Se o negócio esquentar, seria bom o fuzil 762. Mas acho que, pra esse negócio daqui, o 38 dá jogo. Pois é, vacilou né? Vamo' mostrar pros cara quem é que manda nesta parada. Eita, ele tá saindo... Vai ser agora, cara. Tô desligando!

No fundo do palco, a luz começa a delinear a sombra de um outro ator. O primeiro se vira de costas para a plateia. Aponta a arma. Dispara. O outro cambaleia até o centro do palco...

ATOR 1: Caralho!!!! Matei o cara errado, puta que o pariu!!!
ATOR 2: Jackson, seu puto! É você???]
ATOR 1 (desesperado): Fabrício???!!! Porra, mano, que foi que eu fiz??? Merda!!!! Merda!!! Morre não, mano... 'guenta aí!
ATOR 2: Te fode meu! Não vou aguentar...

Ator 2 morre. Nos braços do primeiro. Pequena pausa. Depois, ele levanta, sorrindo. O outro também desmancha os dedos em riste. Riem. São crianças.

CRIANÇA 2: Porra! Foi massa!!! Vamo' brincar de novo???
CRIANÇA 1: Ah, não! Vou lá na lan house resolver umas parada...
CRIANÇA 2: Vai, por favor! Só dois minutos...
CRIANÇA 1 (falando enquanto sai de cena): Amanhã, a gente brinca.
CRIANÇA 2 (saindo junto com o primeiro): E amanhã eu faço o traficante!

Saem. Luz vai diminuindo até que reste o escuro e o silêncio.

(Exercícios de dramaturgia para a oficina de Maria Helena Kühner)
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28 de junho de 2011

Uma história de São João

Foi assim, numa noite de São João, que a sombra da morte lhe lançou o aviso.
Era moço ainda, em seus vinte e poucos anos. Muito o que viver.
Mas as vezes o destino é lavrador imprudente: ceifa sementes ainda mal germinadas...

Era noite fumacenta, como toda noite de bom São João.
No ar, o cheiro incandescente das fogueiras... e os pipôcos dos fogos (BUM! BUM!) estrelando luzes no céu.
Na terra, o chiado das chinelas deitando poeira sobre abraços.
E a cachaça... Ah!!! A cachaça...

Quando o álcool lavou seu juízo, resolveu saltar o fogo.
Seriam três pulos sobre a fogueira. E, depois, olhar a água da bacia para garantir sua permanência no mundo.
Era essa a tradição. Fato certo e comprovado!
Escapou do terceiro pulo com os pêlos da perna chamuscados pelo fogo.
Buscou a bacia.

No reflexo da água, procurou o rosto.
Não encontrou.
Braços e mãos e pescoço e ombros restavam sozinhos, sem uma cabeça que lhes comandasse.
Era ela, a ceifadora, a anunciar que não lhe restaria mais um ano de vida.

A tonteira da aguardente foi embora em um instante.
Restou a visão de um corpo sem cabeça a lhe martelar o juízo como os fogos no céu: BUM! BUM!

Os dias foram passando e a imagem foi, aos poucos, se apagando do pensamento.
Morreu???

Não, está vivo ainda. Mas perdeu a cabeça, sim. De amor!
Largou a família, largou o trabalho, a terra, a cachaça.
Foi embora para sempre e sua história se perdeu no mundo.

Nunca mais viveu outro São João ...
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17 de junho de 2011

Viagem aos céus

Hoje Tales pensou estrelas...
Tão lindo vê-lo sozinho, sem precisar gritar nem chamar a atenção de ninguém.
Ele juntou as letras e formou palavras, em um livro que falava das estrelas, do universo, de nós... tão pequenos na imensidão.
Hoje Tales me encheu de perguntas...
E eu fiquei feliz de poder ser sua companheira nesta viagem de foguete até o reino da lua.
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30 de maio de 2011

Espelho quebrado

Deixou-se ficar.
Parada em frente ao espelho quebrado.
As faces dispersas de si.

Moveu os lábios de uma boca sem corpo.
Piscou os olhos ausentes do rosto, alheios um do outro.
Fincou-os, ambos, na fenda que se abriu no centro, dividindo o nariz em duas metades.
E deixou cair uma lágrima.

Ela correu pelo olho esquerdo, margeando a senda.
De repente, o buraco.
A pequena gota abismou-se no espaço e ela moveu as mãos ao espelho, tentando livrar a lágrima da queda no infinito.

Livrou.
Viu que a pequena gota continuou sua descida pelo fragmento inferior do espelho.
Mas nas mãos,
restou uma lágrima de sangue que o espelho não refletiu.
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28 de abril de 2011

Entrevista com Maria Maria

- Como é seu nome?
- Maria.

- Maria de que?
- Maria. Maria.

- Não tem sobrenome?
- Sei lá. Devo ter. Esqueci...

- A senhora tem algum documento?
...

Ela procura alguma coisa no meio de uma mala antiga de couro, que ornamenta o lugar que escolheu para morar: a porta de um casarão abandonado. Ali, ergueu-se uma casa diferente. O piso é de papelão e jornal. Um velho guarda-sol protege da chuva, sol e vento. Revistas amontoadas, um boneca de pano e a maleta completam a decoração. Ela desdobra uma certidão de nascimento, desgastada pelo tempo.

- Não tem família?
- Não.

- E casa?
- É essa aqui.

- A senhora é feliz?
- Hã?

- A senhora é feliz?
- Como assim?

- Feliz. Sente alegria?
- Sinto sim, as vezes. Uma comida boa que me dão, um café quentinho. As vezes um vento bom, meio morno... e as estrelas... as estrelas me dão muita alegria.

- Só isso?
- Não. Outras coisas. O silêncio quando todos dormem, até os carros e os cães. Andar por aí, olhar as coisas.

- E tristeza, sente?
- Sinto fome as vezes. Também queria ter um homem pra mim. E um bebê.

- Acredita em Deus?
- Gosto de ir na igreja quando está vazia... ele mora lá não é? Gosto.

- Por que as revistas? Você sabe ler?
- Leio as gravuras. Gosto de olhar...

PS: Esta é uma entrevista de ficção. Qualquer semelhança com a realidade não passa de mera coincidência.
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7 de abril de 2011

Assassinato da infância

Suas vinte Barbies,
suas trinta Pollys,
e os bebês que falam andam e cantam em inglês...
estão mortos
estão mofados
não brincam
não andam
não tem mais nome
nem vez
Seus brinquedos estão nas telas
computadores
celulares
e nas meninas que vão ao shopping e aparecem nas TVs.

Estrangularam a infância em um shopping lotado
e na praça vazia
deixaram o corpo,
enterrado.
E quem passa por lá
as vezes ouve
as vezes vê
sombras de brincadeiras
de pega-pega
de esconder...

Nos destroços do balanço
do escorrego
e da gangorra
um suspiro de menina
que mesmo viva
talvez morra

Assassinaram a infância
em um pátio escolar
e com ela todos os sonhos
de ser famosa
e popular

Esquartejaram a infância
em um programa de televisão
mas ainda há quem procure
onde esconderam
o coração.
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14 de março de 2011

Sonho de carnaval

Carnavalizar a vida.
Virar o mundo de ponta-cabeça.
Fazer da realidade o sonho bêbado de um folião...
Descer aos pulos as ladeiras dos sonhos
Reger uma orquestra de loucos
e trocar a máscara
e ser todas as máscaras
e embaralhar os limites do sim e do não.

Depois beijar o Homem da Meia Noite
e seguir o bloco
e ser parte pulsante desta multidão
Até fazer das cinzas de uma quarta-feira
a semente de um novo coração.

(Quanto tempo falta para o próximo carnaval???)
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17 de fevereiro de 2011

Ressurreição

Então renasci. Cruzei a ponte que me separa do abismo. Cindi a nuvem negra em gotas de orvalho. E espalhei nos ventos as cinzas de mim.

Então renasci. Cruzei a ponte que me separa das águas. Amarrei tempestades em navios assombrados. Mergulhei no oceano de mim.

Lancei anzóis num rio de sonhos perdidos. Pesquei um fóssil. Uma pedra. Um sapato. E a sereia sorriu no fundo do mar. Por que sonhos não se pescam, se plantam. E há uma longa espera até a germinação.

Então deitei sementes no solo e no vento. E elas haverão de brotar em mim uma primavera...

Construí novas pontes, para celebrar a passagem.
Construí novas pontes para celebrar a plantação.
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