30 de julho de 2010

Aurora


Chamava-se Aurora. Mas, a despeito do nome, nada tinha que lembrasse o alumbramento do sol quando rompe a manhã. Menos ainda que se parecesse com aquela moça por 100 anos adormecida. Pelo contrário. Nenhuma fada jamais lhe brindara com o dom da beleza. Desde sempre fora conhecedora de sua própria face e sabia que estava muito mais próxima da Moura Torta que da princesa.

Quando nasceu, a mãe pensara: são assim mesmo todos os bebês. Mas os anos não abrandaram suas feições. O nariz ocupava-lhe quase metade da cara. E sob os minúsculos olhos, cavavam-se olheiras fundas e negras. As orelhas curvavam-se para a frente, pedindo passagem. E também o queixo projetava-se, carregando consigo o lábio inferior. Além disso, era mirrada e pequena, o que acabava sendo uma vantagem na hora de não se fazer perceber.

Mesmo a mãe, por quem tinha tanto apreço, tratava de escondê-la das amigas mais nobres. Na escola, foram tantos os apelidos, que por pouco não esquecera o próprio nome. Habituou-se à solidão. E buscou os livros como companhia. Mas nem eles aliviavam-lhe a pena: as histórias não reservavam finais felizes para as bruxas. Recorreu aos poemas: estes, sim, entortavam palavras e teciam mantos cinzentos para as manhãs.

Fez-se desde cedo tecelã de palavras. E usava as mais feias para fazer o alinhave. Cobria de catarro as estrelas e mandava à merda as manhãs azuis. Misturava as tintas, todas. A perfeição se desfazia em sombras e monstros habitavam os espelhos dos palácios. Coletava destroços, esgotos, ratos e baratas e com eles construía seus poemas. Assinava: Aurora.

Aos poucos, as manhãs foram nascendo diferentes. E o sol, ainda que não lhe pusesse luz à face, foi aquecendo palavras no coração da moça. Um dia, quando todos já lhes conheciam os versos, ela saiu de sua toca. Os poemas, que já eram comentados em rodas literárias, ganharam um rosto. E o mais incrível: o rosto da Aurora.
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28 de julho de 2010

Cena pernambucana

Nós, pernambucanos, fazemos um teatro belíssimo. Confiram alguns clipes e vão ver as peças.

1. O palhaço Jurema e os peixinhos dourados:
Com Gilberto Brito e Andrezza Alves
Teatro Hermilo Borba Filho
Todas as quintas e sextas de Julho
horário: 20:00h
ingressos R$ 10,00 e R$ 5,00



2. O homem da cabeça de papelão
Companhia Santa Fogo
ÚLTIMAS APRESENTAÇÕES: 31 de Julho (Sábado) e 01 de Agosto (Domingo)
Teatro Apolo
20 horas



E mais:
- O amor de Clotilde por um certo Leandro Dantas: confira

- Chat:
Teatro Joaquim Cardozo;
Sábados e Domingos, 20h.
Com o grupo Teatro de Fronteira
Autor: Gustavo Ott
Direção Geral: Rodrigo Dourado

- Além disso, tem Festival de Teatro para Crianças, com uma programação maravilhosa. Confira aqui.
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23 de julho de 2010

À espera do azul


Hei de acordar azul
e meu verso será
como sorriso de criança.

Mas hoje, não.

(foto feita por moradores do Coque através do projeto CoqueVive)
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19 de julho de 2010

Minha alma na bandeija


Andarei descalça.
Apesar das feridas
e cicatrizes
que me marcam a sola dos pés.
Apesar das pedras,
dos cacos,
dos espinhos,
dos buracos.
Não vestirei sandálias nem anéis.

Eis aqui a minha pele,
meu corpo,
meu sangue,
como praça de guerra aos escorpiões.
Não farei blindar minha alma
Nem erguerei muralhas
em meus porões.

Servirei a mim mesma -
meus olhos,
minha língua,
meu coração em uma bandeija.

Deixem-lhes verter em meu peito
suas ventosas.
Não morrerei.
Farei lâminas de mim,
e tecerei fios de sangue,
regurgitarei meus olhos
e, como bicho ruminante,
os engolirei.

(Imagem de Frida Kahlo)
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9 de julho de 2010

Anjos de Piva

Ando tão fora do mundo real que agora,
somente agora,
uma semana depois,
vim saber do falecimento de Roberto Piva.
Para ele,
e seus anjos feridos,
e seus pássaros banhados em sangue,
e todos os tentáculos das cidades,
nossa homenagem.
Para nós,
os que ficamos na selva de cobras verdes,
um pedacinho dele:

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7 de julho de 2010

Rasgos


Um rasgo
no céu
risco
no papel

e as estrelas cadentes singram o ar
e estrelas decadentes sangram no altar

poemas são acrobacias de palavras deserdadas!

(PS: Colegas da blogosfera, eu recomendo para vocês uma passagem pelo Interpoética. Está de cara nova e ainda mais convidativo aos apreciadores dos desarranjos das palavras)
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5 de julho de 2010

Para uma amiga especial

Por que eu não sei o que escrever quando penso nela, e no entanto é uma amiga tão especial?
Por que as palavras falham, a voz não grita e o coração fica parado em uma imagem e um sorriso?
Deve ser, Edivane, por que você é sempre aquele ponto na frase, que parece completar o que gagueja.
Deve ser, Edivane, por que você é pouso certeiro em meus eternos vôos, pequeno descanso para asas afoitas.
Deve ser, Edivane, por que você tem as pedras que abrandam correntezas; é aquela rede que impede que o intrépido trapezista se esborrache no chão.
Deve ser, Edivane, por que seus olhos vêem os céus sem nuvens: límpido, claro, com todos os seus azuis.

Cigana de encruzilhadas: em uma mão, o talento e a criatividade de quem escreve e atua. Na outra, a mão segura e a voz firme de empresária. Entre as duas mãos,o sorriso aberto e a alma limpa, de quem não se deixa macular.
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