19 de maio de 2010

Infância roubada

Quando calaram-se as últimas fadas, ela se sentiu só, a criança. As amigas falavam de moda e exibiam os sapatinhos cor de rosa, com saltos. Punham maquiagem nos olhos e ensaiavam o mais novo rebolado. Ela não sabia de nada. Gostava de andar descalça e de rebolar com bambolê.

Por muito tempo, conviveu bem com o isolamento que lhe impunham as coleguinhas de sala. Tinha as fadas, sua companhia. Mas o tempo se encarregou de apagar estes rastros e fazer a solidão pesar, como cruz.

As meninas apontavam-lhe com o dedo e riam. Diziam-lhe louca, aluada, boba, abestalhada e outros adjetivos mais impróprios. Ela não dizia nada. Mas, agora, já não se sentia tão bem. Tinha nove anos e fora criança alegre. Não mais.

Chorava por ter que ir à escola, que lhe parecia uma tortura sem fim. Afundava-se nos livros para não ter que olhar as crianças a sua volta. Queria ficar em casa, com a mãe e a irmãzinha. Brincar de boneca, pega-pega, esconde-esconde. Ouvir histórias bonitas e dormir com cantigas de ninar. Mas as amigas da escola lhe roubavam a infância, a cada dia.

Quando cansou de ser sozinha, passou a imitá-las. Decorou os passos da dança e aprendeu a rebolar sem bambolê. Exigiu da mãe sapato alto, com fivela rosa. Aprendeu também a xingar, falar desaforos e olhar de banda para os que não se enquadravam.

Foi aí que as fadas, que estavam caladas, mas vivas, começaram a morrer.
Hoje, ela tem 24 anos e a alma seca, como imenso deserto.
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7 de maio de 2010

Toda mãe tem medo

Toda mãe tem medo.
Medo que o filho caia,
que se machuque,
que sofra.
Medo que o filho se perca em atalhos escuros...

Toda mãe tem medo.

A maior e mais difícil das lições da maternidade
é enganar esse medo.
É saber que ele é para sempre nosso companheiro.
E deixar que o filho caia,
que se machuque,
que sofra.
Deixar que o filho aprenda com os empurrões da vida.
Mas estar sempre perto para o que for preciso.

E, quando ele enveredar pela escuridão,
fazê-lo acender em si mesmo
a luz que lhe entregamos sempre.

Toda mãe tem sonhos:
que o filho se forme,
tenha bom emprego,
bom casamento.
E nos encha a casa de netos,
para reaprendermos a infância.

Toda mãe tem sonhos...

Mas o melhor é perceber os sonhos deles.
E quando parecerem irreais ou inoportunos,
que, mesmo assim,
a gente se deixe embarcar,
ainda que tenhamos em mãos as bóias de salva-vidas.

Porque melhor do que sonhar um mundo perfeito para os filhos,
é refazer os sonhos,
rever os valores
e ser feliz com eles.
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3 de maio de 2010

O assediador

Cuspiram em sua alma,
jato de pus,
catarro...
E enquanto aguarda a própria putrefação
ele confere as aplicações no banco
e os modelos do próximo carro.

Sua alma,
escarrada,
exala a infecção.
Ele vomita germes
e espalha nódoas.
Depois recebe a comissão.

E à sua volta,
dividem-se os homens
entre podres e insanos.
Ele lê a Veja,
frequenta a igreja,
e planeja as viagens dos próximos anos.

Sua alma,
infectada,
roubou-lhe a visão.
Do alto de seu trono de vento,
ele recebe
a carta de demissão.
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Silêncio


Eu poderia falar tantas coisas.
Falar das histórias que há pouco ouvi, de gente que adoece e perde a vida em um trabalho insano. De gente que, por um pouquinho de poder, vira capataz de gente. E de um sistema que rouba as vidas e as almas à tão baixo custo: um salário ou uma comissão. Mas estas histórias, embora tenham me marcado, já foram contadas pela jornalista.(Estarão postadas em breve no site: www.bancariospe.org.br)
Eu poderia falar tantas coisas.
Falar de minha mocinha e meu menininho: a vontade de ser gente grande, as descobertas de cada um.
Falar que, agora, também estou tentando manter atualizado o blog da Biblioteca Popular do Coque, onde há muitas histórias, sempre, pra contar.(www.bpcoque.wordpress.com)
Eu poderia falar tantas coisas.
Mas calei quase um mês inteiro.
E não tenho ânsias de falar.
Paira sobre mim um silêncio imenso.
Um deserto.
Uma catedral vazia...
Então,
deixem-me quieta,
com o meu silêncio.
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