29 de julho de 2011

O coelho de Rita

Nenhuma criança da cidade conhecia a origem do coelho. Estivera ali, desde sempre. Como uma árvore centenária: parado, quieto, olhos plantados no chão. Vivia solto entre as plantações, mas não ousava roer uma única cenoura, um único pé de alface.

Nenhuma criança da cidade conhecia a origem do coelho. Mas os adultos, sim. E contavam a história, boca a boca, desenhando novos detalhes a cada versão. Mas o princípio estava sempre na mesma pessoa: Dona Rita, a primeira habitante de Cidade da Lua.

Quem a conheceu, diz que era pessoa de poucos amigos. Preferia a companhia das árvores e das plantas. Mulher forte, de mãos quase mágicas, ela fazia da terra, frutos e flores. Como ninguém mais. Sozinha arava o chão, plantava, irrigava e colhia. Sozinha, percorria o imenso espaço que separa Da Lua da cidade vizinha, para vender os frutos de seu trabalho.

Foi numa destas viagens que ganhou o coelho. Veio de brinde de um comerciante, satisfeito com a safra recorde de cenouras. Rita relutou em levar o presente. Mas acabou se dando por vencida, mais para não perder o cliente do que por amor ao animal.

E o coelho ficou. E ficou... E ficou... E Dona Rita se afeiçoou a ele e dava-lhe de comer, ensinando-o a nunca roer as plantações.

Tempos mais tarde, em viagem semelhante, o mesmo comerciante entregou a Dona Rita outro brinde: uma semente. A semente cresceu em seu ventre e, quando brotou, Dona Rita pôs no fruto seu próprio nome. E deixou-lhe crescer como o coelho, entre árvores e plantações.

Quando Dona Rita morreu, a moça - sua filha - enterrou-lhe sob as plantas, para que sua alma deitasse raízes. Desde então, o coelho vela o corpo, os olhos plantados no mesmo lugar.
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27 de julho de 2011

Cityville

Perdi-me numa cidade perfeita:
sem fome,
nem miséria,
nem Polícia,
nem ladrão.
Perdi-me numa cidade de sonho
e larguei a vida
na contramão.




Esta é minha Cidade de brincadeira. Cidade da Lua não tem latifúndios, apenas agricultura familiar. Tudo é gerido coletivamente e não há Polícia, por que não é necessário. Os conflitos e problemas são resolvidos por um Conselho Comunitário. E os trabalhadores têm jornada de seis horas, mas uma delas é dedicada a realização de serviços sociais, de acordo com o potencial e desejo de cada um. Se a pessoa trabalha como gari, mas tem habilidade para o artesanato, em sua hora de serviços comunitários, desenvolve oficina de artesanato com outros moradores. Também os negócios são obrigados a prestar contrapartida social. E as coisas vão bem, porque todos têm acesso à escola, bibliotecas, livros e cultura.

Cidade da Lua é apenas um jogo - o CityVille. Uma brincadeira de criança ou um refúgio no sonho. O problema é que essas brincadeiras de computador viciam e levam a gente pra longe da vida real. Um comentário de meu caro poeta Samuca me fez despertar. E eu tive uma ideia bem legal. Não vou abandonar o brinquedo pois ele me ajuda a limpar a alma... Mas vou torná-lo objeto de histórias. Cidade da Lua vai virar cenário de literatura. E mais: interativa. Por isso, façam perguntas sobre Cidade da Lua, para que a gente possa construir, juntos, essa história.

E eu, de minha parte, lanço a primeira polêmica da cidade. Incentivados - ou pressionados - pelo comando do jogo, que fica lançando metas e desafios para os construtores de cidades, os moradores de Cidade da Lua construíram um zoológico. Mas isso acabou indo de encontro à filosofia da própria cidade, que não permite enjaular ou aprisionar qualquer ser vivo. Mas as crianças adoram o lugar e até visitantes estrangeiros vem de longe pra vê-lo. O que fazer? A discussão está lançada entre os habitantes de Cidade da Lua, que tem até a semana que vem para decidir. E está lançada também para os visitantes e para os internautas. Comentem e opinem!!!
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21 de julho de 2011

Encontro


Um elevador. Dentro, uma senhora, elegantemente vestida, com blaiser, calça de linho e sapato de salto alto. E uma empregada doméstica, com trajes mais simples e sandálias de dedo.

MADAME – O que foi isso?

EMPREGADA – Travou.

MADAME – Como?

EMPREGADA – Travou. O elevador.

MADAME – O elevador travou?

EMPREGADA – É. Acontece sempre no elevador de serviço...

(Madame olha a outra dos pés à cabeça)

MADAME – E porque você não está no elevador de serviço?

EMPREGADA – Pois é... travou.

MADAME – O elevador de serviço?

EMPREGADA – E este também.

Tempo. Silêncio.

MADAME – E agora?

EMPREGADA – Agora o que?

MADAME – A gente não faz nada?

EMPREGADA – Já fiz. Apertei o botão do alarme. Agora a gente espera.

Tempo. Silêncio. A empregada encosta na parede do elevador e cruza os braços.

MADAME – Demora?

EMPREGADA – No de serviço demora. Talvez aqui seja mais rápido.

Tempo. Silêncio. Empregada tenta puxar assunto.

EMPREGADA – A senhora mora no 611 não é?

MADAME – É.

EMPREGADA – Eu trabalho bem do seu lado, no 612.

MADAME – É mesmo? Eu nunca lhe vi...
EMPREGADA – Eu sei... As madames nunca nos vêem.

Tempo. Silêncio.

EMPREGADA – A senhora é patroa da Luzinete não é?

MADAME – Sou.

EMPREGADA – Como é que 'tá a filha dela?

MADAME – Como?

EMPREGADA – A filha dela... a que tem câncer...

MADAME – A Luzinete tem uma filha?

EMPREGADA – É... uma menininha de cinco anos. Tadinha... vive de médico em médico, fazendo tratamento. Nem cabelo tem, coitada. A Luzinete chora tanto...

MADAME – Mas eu nunca a vi chorando.

EMPREGADA – Eu sei. Vocês, madames, nunca nos vêem...

Tempo. Silêncio. A empregada senta no chão. A madame despe o blaiser, desabotoa a camisa até a altura do peito, deixa a bolsa em um canto, tira as sandálias, encosta na parede...

MADAME – E você, tem filhos?

EMPREGADA – Tenho, sim. Mas já estão crescidos. Tenho até netos... Meu mais novo tem quinze anos.

Tempo. Silêncio.

MADAME – Sabe... eu sempre quis ter filhos?

EMPREGADA – E porque não tem?

MADAME – Não posso. Já tentei. Meu útero não segura...

EMPREGADA – Mas a senhora já foi a um médico?

MADAME – Já. Fiz até tratamento. Mas, depois do terceiro aborto, desisti...

EMPREGADA – Sei... e porque não adota uma criança?

MADAME – É. Pode ser...

Tempo. Silêncio.

MADAME – Como é mesmo seu nome?

EMPREGADA – Lucíola.
O elevador destrava.

EMPREGADA – Opa, voltou!!!

A madame se apressa em vestir seu casaco, abotoar a camisa, calçar a sandália, pegar a bolsa. Põe-se de costas para a empregada, junto a porta. A outra fica por trás. A porta do elevador para no sexto. A madame sai sem olhar para trás.

Mais um exercício da Oficina de Dramaturgia com Maria Helena Kuhner
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13 de julho de 2011

Dois minutos



No centro do palco, foco em um ator, que aponta os dedos em riste para a plateia, como se fosse uma arma, enquanto conversa em um celular fictício.

ATOR 1 - Já. 'Tou aqui sim. Na espreita. Trouxe o calibre 38. É... é um cara só né? Eu sei. Sei... claro! Se o negócio esquentar, seria bom o fuzil 762. Mas acho que, pra esse negócio daqui, o 38 dá jogo. Pois é, vacilou né? Vamo' mostrar pros cara quem é que manda nesta parada. Eita, ele tá saindo... Vai ser agora, cara. Tô desligando!

No fundo do palco, a luz começa a delinear a sombra de um outro ator. O primeiro se vira de costas para a plateia. Aponta a arma. Dispara. O outro cambaleia até o centro do palco...

ATOR 1: Caralho!!!! Matei o cara errado, puta que o pariu!!!
ATOR 2: Jackson, seu puto! É você???]
ATOR 1 (desesperado): Fabrício???!!! Porra, mano, que foi que eu fiz??? Merda!!!! Merda!!! Morre não, mano... 'guenta aí!
ATOR 2: Te fode meu! Não vou aguentar...

Ator 2 morre. Nos braços do primeiro. Pequena pausa. Depois, ele levanta, sorrindo. O outro também desmancha os dedos em riste. Riem. São crianças.

CRIANÇA 2: Porra! Foi massa!!! Vamo' brincar de novo???
CRIANÇA 1: Ah, não! Vou lá na lan house resolver umas parada...
CRIANÇA 2: Vai, por favor! Só dois minutos...
CRIANÇA 1 (falando enquanto sai de cena): Amanhã, a gente brinca.
CRIANÇA 2 (saindo junto com o primeiro): E amanhã eu faço o traficante!

Saem. Luz vai diminuindo até que reste o escuro e o silêncio.

(Exercícios de dramaturgia para a oficina de Maria Helena Kühner)
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