22 de junho de 2010

Exílio


Primeiro, arremessaram-me um tiro ao peito.
Não morri.
O tiro, entretanto, permaneceu dentro de mim como uma pedra.

Então, tentaram arrancar-me a língua.
Não cedi.
Mas a pedra cresceu e fez montanha em minha alma.

Depois desistiram de mim.
E deixaram-me,
com minha língua,
meus olhos,
minhas mãos.

E criaram,
à minha volta,
um abismo de silêncio.

As palavras,
ignoradas,
subiram ao topo da montanha de pedra
em busca do céu ou do mar.
E não havia nada.

Foi quando entendi,
que já não precisariam arrancar-me a língua,
os olhos,
as mãos,
porque tiraram-me as estrelas que me guiavam
e nada que era meu tinha mais serventia.
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18 de junho de 2010

Adeus, Saramago

"Não será com todos nem será sempre, mas às vezes acontece o que estamos vendo nestes dias: que, por ter morrido um poeta aparecem, em todo o mundo, leitores que se declaram devotos e que precisam de um poema que expresse o seu desconsolo e talvez também para recordar um passado em que a poesia teve lugar permanente, quando hoje é a economia que nos impede de dormir.(...) Isto, em poucas linhas, é o que está sucedendo: ele morreu e o planeta tornou-se pequeno para albergar a emoção das pessoas".

O texto acima foi escrito por José Saramago em maio de 2009, como homenagem a Mário Benedetti. Reproduzimos suas palavras para falar dele próprio, que nos deixou nesta manhã. Suas palavras ficam. Mas fica também um legado de coerência, de quem nunca cansou de denunciar as mazelas do mundo...
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17 de junho de 2010

Pra não dizer que não falei de Copa...


Fui eu ou a seleção quem perdeu a alegria?
Quero crer que não tenha sido eu.
Mas o fato é que minha memória traz imagens bem mais gloriosas de Copa do Mundo.
Lembro de 82, tinha então dez anos. E guardo até hoje em lembrança o tamanho de minha tristeza final.
Lembro também de várias alegrias: amigos reunidos, muita bagunça, muita cachaça, muito carnaval.
Desde a Copa passada, entretanto, algo se perdeu - não sei se em mim. Apesar das ruas enfeitadas, do côro dos vizinhos e do refrão que se repete nas esquinas-rádios-e-televisões.
Não perdi, contudo, o gosto pelo futebol: meu Santinha que o diga. Por isso, quem sabe, até o final da Copa, a seleção não consiga remexer as coisas lá dentro de mim?
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Oca

Estou oca.
As palavras cavaram um abismo em mim.
A chuva não lavou minha alma,
fez um charco de lama
e nesta lama me afundei.
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1 de junho de 2010

O pequeno André

Tem seis anos e precisa de atenção.
Por isso corre.
Por isso pula.
Por isso fala tanto.
Somente por isso o pequeno André testa a paciência da única pessoa de quem dispõe: seu tio Arlindo.
Sabedor das necessidades da criança, o velho tio não grita, não ralha.
Persegue, de longe ou de perto, o menino que tomou como filho.
Sujeita-se a acompanhar o ritmo da criança, embora suas pernas e sua idade não o permitam.
E explica os desvarios do pequeno André:
- Não tem ninguém no mundo. A mãe é doente e o largou. Ninguém na família o quer. Tenho pena...
Não sabe Seu Arlindo que, se um dia houve piedade, esta já se transformou em amor. Virou sentimento paterno. Então ele fala com orgulho de seu menino, que sabe rezar, que é agitado mas não bate em ninguém, que o acompanha para onde ele vai e até o ajuda nas tarefas de casa.
Mas o garoto, que também ama o tio como se fosse pai, quer mais. Quer uma mãe, nem que seja postiça. Uma família, nem que seja de mentirinha.
Então me descobre.
E conversa comigo.
E brinca comigo.
E conta histórias comigo.
E, quando chega a hora de ir embora, quer ficar comigo.
A separação custa, em ritual de convencimento.
Volto para casa, com sua imagem presa em minha alma.
Dois dias se passam.
A imagem continua aqui.
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