6 dias atrás
21 de julho de 2011
Encontro
Um elevador. Dentro, uma senhora, elegantemente vestida, com blaiser, calça de linho e sapato de salto alto. E uma empregada doméstica, com trajes mais simples e sandálias de dedo.
MADAME – O que foi isso?
EMPREGADA – Travou.
MADAME – Como?
EMPREGADA – Travou. O elevador.
MADAME – O elevador travou?
EMPREGADA – É. Acontece sempre no elevador de serviço...
(Madame olha a outra dos pés à cabeça)
MADAME – E porque você não está no elevador de serviço?
EMPREGADA – Pois é... travou.
MADAME – O elevador de serviço?
EMPREGADA – E este também.
Tempo. Silêncio.
MADAME – E agora?
EMPREGADA – Agora o que?
MADAME – A gente não faz nada?
EMPREGADA – Já fiz. Apertei o botão do alarme. Agora a gente espera.
Tempo. Silêncio. A empregada encosta na parede do elevador e cruza os braços.
MADAME – Demora?
EMPREGADA – No de serviço demora. Talvez aqui seja mais rápido.
Tempo. Silêncio. Empregada tenta puxar assunto.
EMPREGADA – A senhora mora no 611 não é?
MADAME – É.
EMPREGADA – Eu trabalho bem do seu lado, no 612.
MADAME – É mesmo? Eu nunca lhe vi...
EMPREGADA – Eu sei... As madames nunca nos vêem.
Tempo. Silêncio.
EMPREGADA – A senhora é patroa da Luzinete não é?
MADAME – Sou.
EMPREGADA – Como é que 'tá a filha dela?
MADAME – Como?
EMPREGADA – A filha dela... a que tem câncer...
MADAME – A Luzinete tem uma filha?
EMPREGADA – É... uma menininha de cinco anos. Tadinha... vive de médico em médico, fazendo tratamento. Nem cabelo tem, coitada. A Luzinete chora tanto...
MADAME – Mas eu nunca a vi chorando.
EMPREGADA – Eu sei. Vocês, madames, nunca nos vêem...
Tempo. Silêncio. A empregada senta no chão. A madame despe o blaiser, desabotoa a camisa até a altura do peito, deixa a bolsa em um canto, tira as sandálias, encosta na parede...
MADAME – E você, tem filhos?
EMPREGADA – Tenho, sim. Mas já estão crescidos. Tenho até netos... Meu mais novo tem quinze anos.
Tempo. Silêncio.
MADAME – Sabe... eu sempre quis ter filhos?
EMPREGADA – E porque não tem?
MADAME – Não posso. Já tentei. Meu útero não segura...
EMPREGADA – Mas a senhora já foi a um médico?
MADAME – Já. Fiz até tratamento. Mas, depois do terceiro aborto, desisti...
EMPREGADA – Sei... e porque não adota uma criança?
MADAME – É. Pode ser...
Tempo. Silêncio.
MADAME – Como é mesmo seu nome?
EMPREGADA – Lucíola.
O elevador destrava.
EMPREGADA – Opa, voltou!!!
A madame se apressa em vestir seu casaco, abotoar a camisa, calçar a sandália, pegar a bolsa. Põe-se de costas para a empregada, junto a porta. A outra fica por trás. A porta do elevador para no sexto. A madame sai sem olhar para trás.
Mais um exercício da Oficina de Dramaturgia com Maria Helena Kuhner
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2 comentários:
Bela crônica de uma de nossas mazelas sociais. Presas no elevador, as vidas da madame e da trabalhora doméstica são iguais, como deveria ser do lado de fora.
Final irreprensível e verdadeiro.
Bom estar aqui novamente.
Abraços,
Dimas Lins
Em situações-limite as máscaras tendem a cair... E, depois, tudo "volta" ao "normal". Valeu demais o texto!
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