22 de junho de 2010

Exílio


Primeiro, arremessaram-me um tiro ao peito.
Não morri.
O tiro, entretanto, permaneceu dentro de mim como uma pedra.

Então, tentaram arrancar-me a língua.
Não cedi.
Mas a pedra cresceu e fez montanha em minha alma.

Depois desistiram de mim.
E deixaram-me,
com minha língua,
meus olhos,
minhas mãos.

E criaram,
à minha volta,
um abismo de silêncio.

As palavras,
ignoradas,
subiram ao topo da montanha de pedra
em busca do céu ou do mar.
E não havia nada.

Foi quando entendi,
que já não precisariam arrancar-me a língua,
os olhos,
as mãos,
porque tiraram-me as estrelas que me guiavam
e nada que era meu tinha mais serventia.

3 comentários:

Poeta Carlos Maia disse...

Belíssimo poema, Fabiana, posso publicá-lo no meu blog?

Grande Abraço!

Magna Santos disse...

Mas isso é de um desamparo total, Fabiana. Talvez a falta de referência atual na nossa política, ou melhor, na política dos outros, daqueles que fazem da nossa casa, lugar de absurdos, agressões, não a nós que ainda temos algo, mas àqueles que sofrem pela mentira e a ganância, aos excluídos. No final, nos sentimos assim: exilados mesmo dos nossos sonhos, digo, da possibilidade real de sermos melhores.
Beijão!
Magna

Sylvia Araujo disse...

Coisa bonita e intensa, Fabiana!
Que as estrelas, mesmo escondidas, continuem a nos guiar.

PS: Li teu comentário n´O Bule, na entrevista do "Mala"sola, e a identificação foi tão grande que precisei vir aqui te sentir e deixar um beijo enorme.

 

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