9 de agosto de 2010

Sobre filhos e pais

PRIMEIRA CENA: Estava ali, naquela mão que atava o pai e o filho, já adolescente, todo o sentimento que se oculta sob as palavras. Não moram juntos. Mas há uma ponte invisível que os liga, apesar de tudo e de todos. No número que se gravou no celular do pai, um sinal do afeto: o menino lembrara dele antes mesmo que o sol surgisse. Lembrara dele enquanto se cercava de amigos, de jovens, de alegrias.

SEGUNDA CENA: Cedinho da manhã, a ligação. A menina está na casa da avó. Mas a lembrança do pai a acompanha.
- Painho, o que lhe dou de presente?
- Uma Ferrari, brinca o pai, em resposta.
Nova ligação, desta vez para a mãe.
- Mainha. A gente vai ter que comprar uma Ferrari pro papai...


TERCEIRA CENA:
Na praia, o menino brinca. Tem apenas três anos. Avó e tia o acompanham. Encontra uma conchinha. - É de meu pai. E, durante todo o tempo, ele cuida da concha como uma relíquia. No dia seguinte, ela estará bem guardada e ele entregará o tão rico presente.


CENAS DE MINHA VIDA:

Meu pai tem cheiro de infância.
As crianças, grandes e pequenas, o amam.
Os alunos, já crescidos, o amam.
Eu o amo, sempre e demais.
Meu pai é um contador de histórias.
Fala de seus insetos como um descobridor de magias. (ele é entomólogo)
Fala de cada coisa com uma alegria especial.
Meu pai me lembra brincadeiras.
E, quando penso nele,
penso que serei sempre aquela criança que ele jogava pra cima nas águas do mar...

3 comentários:

Srª Mendez-Calafange disse...

Luna, não tenho mais o convívio com meu pai, mas ele também tem cheito de infância. Posso tomar essa expressão emprestada de você? Escrevi um pouco sobre ele lá "em casa" e minhs irmãs disseram que eu acertei nas rememorações. Curta, querida. Curta todas as coisas boas que seu querido paizão pode te oferecer. Beijocas!

Magna Santos disse...

QUARTA CENA?
Uma menina cresce, olhando pro pai. Ele adora insetos e conta suas magias, transformando em histórias cada vez melhores. E a menina cresce. As palavras, diz ela, são como passarinhos, às vezes, escapavam-lhes dos dedos. A menina aprendeu a voar e virou contadora de histórias, tanto que acreditou em cada uma delas e hoje solta seus passarinhos onde vai e forma ninhos. Ninhos-pontes.
Ela não esquece do pai, dos pais, de todos eles e por isso precisa de 'cenas' para dar conta de tudo que pode ser, porque no ter já não acredita faz tempo.
Lindas cenas, Fabiana. Desculpe aí a intromissão. É que a gente acaba virando contadora de histórias também, quando te lê.
Beijo.
Magna

Magna Santos disse...

Fabiana, adorei o "f..."! Obrigada. Como não entrar nas tuas cenas, se tu te faz tão próxima? Certa vez, escrevi em Estuário, que me sinto esquisita quando pareço conhecer gente que, de fato, não conheço. Sou matuta, minha irmã, esse negócio de internet ainda é um ser extra-terrestre pra mim.
Beijo.
Magna

 

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