1 de setembro de 2010

O Grito

O aperto no estômago. Como fome. Como soco no ventre.
Ela parou, respirou fundo... sabia o que viria a seguir.
Procurou um lugar vazio, mas não conseguiu chegar até lá.
Ali mesmo,
em praça pública,
aos olhos dos evangélicos que entoavam coros e aleluias,
em meio às putas,
aos bêbados,
às crianças,
aos comerciantes...
ali mesmo jorraram as palavras em vômito interminável.
Vieram banhadas em sangue,
cobertas da nódoa verde que apodrecia sua garganta.
E mesmo as putas,
mesmo os bêbados,
mesmo os crentes e as crianças
sentiram ânsias de chorar.
Porque as palavras que calavam em si criaram raízes,
e quando escaparam,
arrancaram-lhe um pedaço da alma.

3 comentários:

Dimas Lins disse...

Difícil comentar esse grito, porque o texto de tão bem resolvido não deixa espaço para mais nada.

Mas ficar calado é correr desnecessariamente o risco de sentir-se como o personagem e ter de por para fora, por não caber dentro de si: bonito, muito bonito.

Dimas Lins

Magna Santos disse...

Concordo com Dimas. Porém, eu li umas três vezes, sem conseguir atinar no que dizer e ainda não sei.
Lindo, Fabiana! Lindo e forte. As palavras e a pintura são perfeitas na expressão deste não caber mais, deste expulsar.
Beijo.
Magna

Josias de Paula Jr. disse...

Palavras que criam raízes e arrancam um pedaço de alma... O que se guardou em calado fez-se árvore, pariu mais que um grito, deu à luz em recomeço.
Bonito pra danar!

 

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