31 de março de 2009

Cinderela virtual

Adorava comentários.
Distração, nas horas vagas e noites mal dormidas, era passear por blogues e mais blogues. Em cada um deles, deixava uma impressão, uma sombra, uma marca de sua passagem.
Não pedia retorno nem deixava endereço. Só um sapatinho em cada um dos degraus desta escadaria virtual.
Em todos, esta face sem nome deixada na assinatura: anônimo.

Ele adorava ler comentários.
Distração, nas horas vagas e noites mal dormidas, era passear por blogues e mais blogues. Não tanto para lhes conhecer o conteúdo. Mas para rastrear impressões, sombras e marcas.
E assim conheceu aquele anônimo.
Alguma coisa juntava aqueles rastros deixados em cada paragem.
As letras, sem nome nem face, tinham um cheiro comum, um espírito que lhe dava vida.
Por esta trilha de palavras apaixonou-se.
Sabia, pelo perfume dos textos, que o anônimo era uma mulher.
E lhe imaginava em sonhos, colorindo com seus próprios desejos aquilo que ainda não tinha cor.

Passou a segui-la desesperadamente. Como o príncipe do sapatinho de cristal.
Comentava o comentário, em cada ponto de anônima parada.
Ela tentava fugir. Buscava outros blogues, outros passeios.
Ele sempre a encontrava. E confessava sua história. Marcava seu nome, seu endereço, sua face, sem mais nenhum medo da exposição virtual.

Um outro leitor, que não está na postagem, descobriu esta história de amor.
E transformou em um blogue os rastros deixados pelos personagens.
Eles, claro, visitaram sua própria história.
E se divertiram em examinar as próprias máscaras.
A Cinderela anônima decidiu se revelar. Postou, com uma linguagem objetiva e rasteira que não lhe era peculiar: - Cara, não enche o saco. Eu sou macho. E não gosto de homens.

O apaixonado nunca mais voltou a postar.
Mas seu nome, seu rosto e seu drama ainda renderam muitas histórias.

1 comentários:

Cleyton disse...

Caraleo, que texto mag´nífico Fabi. Beijão.

 

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