9 de março de 2010

O enforcado


O enforcado.
Lá estava ele, atado pelos pés.
Uma corda que o prendia a lugar nenhum.
Segurei a carta com firmeza.
Olhei.
E tomei, então, meu primeiro susto.

Era eu,
sim,
era eu naquela carta.
Era eu que sorria para mim mesma,
de ponta-cabeça,
uma perna cruzada
e as mãos ocultas.

Fechei os olhos com força.
Estava em transe, não há dúvidas.
Aquilo não podia ser real.
Voltei a apertar os olhos
e fitei a carta,
mais uma vez.

Meu rosto,
de enforcada,
fez uma careta e voltou a sorrir.

- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, perguntei.
- Que faço eu, aí, de ponta-cabeça?, a carta respondeu.
- É você, a enforcada - tornei a dizer.
- É você a enforcada - retrucou a outra.

E, assim,
meio sem perceber o que fazia,
apalpei meu próprio pescoço
e descobri a corda que me atava.

Olhei para a carta.
Era apenas um desenho de tarô:
um homem de roupas coloridas atado pelos pés.

Não voltei a tocar em meu pescoço.
Nem tampouco desatei o nó da corda que me prendia...

1 comentários:

Poeta Carlos Maia disse...

Belíssimo post, Luna, Belíssimo!!!

Parabéns!!!

 

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