12 de junho de 2012

A lua e o menino


Antes mesmo de aprender a ler, o menino-poeta já lia as coisas da vida. Seus olhinhos miúdos brilhavam ao som dos poemas. E as mãozinhas franzinas desenhavam anjos e asas, enquanto ele contava histórias de amor. O menino-poeta tinha o coração cheio de flores. E, antes mesmo de aprender a ler, sua alma já sofria do encantamento das palavras.

O menino-poeta costumava nos visitar em nossa casa de livros. Procurava sempre a mesma estante, o mesmo canto, o mesmo livro: “- Cadê aquele, da lua?”.

Depois, desenhava. E, em seus desenhos, os bichos, estrelas, monstros, anjos e dinossauros estavam sempre em par, vivendo um romance muito especial.

De tanto nos visitar, o menino aprendeu a juntar letras e sons. E, de tanto juntar letras e sons, o menino aprendeu palavras. E, de tanto juntar palavras, aprendeu os livros. E no jardim de seu coração, uma nova flor nasceu.

Ah!!! Mas, se o coração era um jardim, a vida do menino-poeta era um deserto imenso. E o sol não abrandou com a descoberta da leitura. A poeira cegou seus olhos e o chão árido secou seu roseiral. Ele não era uma criança comum: era um menino-poeta com alma de flores. Mas ele não era uma criança comum, que brinca e estuda e lê e joga bola. Era um menino que tinha que trabalhar.

Na casa do menino não havia lugar para poemas nem flores. A mãe, que já tivera estrelas nos olhos, desaprendera a acalentar o coração. Tinham-lhe dito que para sobreviver há que matar as flores e os sonhos. Ela acreditou.

Agora, já não havia ternura em seus olhos e seu coração era uma pedra só. E, cumprida a função da descoberta da leitura, os livros já não serviam ao seu menino. Seu lugar não era em nossa casa de leituras. Ela precisava dele para secar as flores que ainda teimavam em resistir. Era preciso ficar longe dos sonhos e perto da vida real. E a vida era uma caixa de bombons que ele não podia comer. Um chocolate amargo, um chiclete azedo, que cobrava um preço alto demais.

E o menino deixou de visitar nossa casa. E o menino começou a murchar. Magrinho como já era, foi definhando ainda mais. Seus olhos já não brilhavam, como se lhe tivessem arrancado estrelas do céu. O menino ficou quase invisível, como se as cores do arco-íris tivessem fugido para sempre. Então choveu. Choveu muito, todas as noites. Como se, lá no céu, a lua chorasse um pranto sem fim.

Então a lua se vestiu de gente e decidiu que era a hora de visitar o menino. Levou consigo os livros-poesia. Bateu na porta. Pediu para entrar. A mãe fez cara feia, olhou de banda... mas não era mulher de espantar visita. E a lua entrou com suas poesias.

E a lua leu. E leu. E leu. E viu que os olhos do menino já eram uma fogueira em chamas. E o melhor: também na alma da mãe, um restinho de cinza ardeu.

Desde então, a lua sempre visita aquela casa. Filho e mãe continuam na labuta, sempre. Mas há um vasinho de flores na janela. E, quando sobra um tempo, eles lêem juntos a estrofe de um poema levado pela lua.

3 comentários:

Magna Santos disse...

A lua tem nome de gente. Chama-se Betânia, Sandra ou mesmo Fabiana. A lua é feita de gente. Gente que ora é cheia ora vazia, melhor, ora é cheia ora crescente, mas GENTE...LUA!
Atendeu pelo nome de batismo. Escreveu com o nome dos sonhos. Sobrenome do marido para acarinhar.
Às vezes, ela esquece do Sol, às vezes, ela lembra do mar. E no horizonte ela vê sempre um arco-íris e meninos a cintilar e esperança no olhar, mesmo partida em dores.
Ah, Luna Freire, quem tu queres enganar?
Ah, Luna Freire, que outra fé mais tu terás?
Beijão!
Magna
Obs.:eu também queria ter tua fé, mas queria mesmo era ter tua ação

Luna Freire disse...

Eita Magníssima!!! Tu sempre me devolves tantas estrelas... Pena que os desfechos na vida real nem sempre sejam como nas histórias, ainda que os sonhos teimem.

Magna Santos disse...

Mas eles teimam e muitas vezes realizam.
Nada fica perdido, Fabi. NADA. São sementes lançadas que um dia germinarão; no entanto, não no tempo que esperávamos...às vezes o trabalho é só de arar o terreno, sensibilizar a terra dura, árida, a qual muitas vezes nos ferem as mãos, maltratam a pele. Mas: nada fica perdido.
Beijo.
Magna

 

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