24 de novembro de 2009

Aos que virão a nascer

Reproduzo, a seguir, um poema de Bretolt Brecht.
Foram colhidas no blog do poeta Carlos Maia
e feitas sob medida para tempos que, afinal, mudam muito pouco.

É verdade, vivo em tempo de trevas!
É insensata toda a palavra ingénua.
Uma testa lisa revela insensibilidade.
Os que riem,
riem porque ainda não receberam a terrível notícia.

Que tempos são estes,
em que uma conversa sobre árvores é quase um crime
porque traz em si o silêncio sobre tanta monstruosidade?
Aquele ali,
tranquilo a atravessar a rua,
não estará já disponível para os amigos em apuros?

É verdade: ainda ganho o meu sustento.
Mas acreditem: é puro acaso.
Nada do que eu faço me dá o direito de comer bem.
Por acaso fui poupado
(Quando a sorte me faltar, estou perdido)

Dizem-me: Come e bebe!
Agradece por teres o que tens!
Mas como posso eu comer e beber
quando roubo ao faminto o que como e
o meu copo de água falta a quem morre de sede?
E, apesar disso, eu como e bebo.

Também eu gostaria de ter sabedoria.
Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:
retirar-se das querelas do mundo
e passar este breve tempo sem medo.
E também viver sem violência,
pagar o mal com o bem,
não realizar os desejos,
mas esquecê-los.
Ser sábio é isto.
E eu nada disso sei fazer!
É verdade, vivo em tempo de trevas!

II

Cheguei às cidades nos tempos da desordem
quando aí grassava a fome.
Vim viver com os homens nos tempos de revolta
e com eles me revoltei.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

Comi o meu pão entre batalhas
Deitei-me a dormir entre assassinos
Dei-me ao amor sem cuidados
E olhei a natureza sem paciência.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

No meu tempo, as ruas iam dar ao pântano.
A língua traiu-me ao carniceiro.
Pouco podia fazer.
Mas os senhores do mundo,
sem mim,
estavam mais seguros,
esperava eu.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

As forças eram poucas.
A meta estava muito longe.
Claramente visível,
mas nem por isso ao meu alcance.
E assim passou o tempo
que na terra me foi dado.

III

Vós, que surgireis do dilúvio
em que nós nos afundámos,
quando falardes das nossas fraquezas
lembrai-vos também do tempo das trevas a que escapastes.

Pois nós,
mudando mais vezes de país que de sapatos,
atravessamos as guerras de classes,
desesperados,
ao ver só injustiça e não revolta.
E afinal sabemos:

também o ódio contra a baixeza
desfigura as feições.
Também a cólera contra a injustiça
torna a voz rouca.

Ah, nós,
que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade,
não soubemos afinal ser amáveis.
Mas vós,

quando chegar a hora de o homem ajudar o homem,
lembrai-vos de nós com indulgência.

2 comentários:

Josias de Paula Jr. disse...

Há um porém, senhorinha: é só nas trevas que se pode ver a luz. Aliás, ocorreu-me um ditado chinês: "O lugar mais escuro é sempre debaixo da luz".
Há de se ter calma com o tempo...

Magna Santos disse...

Que lindo, Fabiana! Lindíssimo! Mas, Josias disse algo verdadeiro. "Precisamos" desses momentos, mesmo que dolorosos, aliás, fomos nós que os construímos e seremos nós que os destruiremos.
Há que se pedir indulgência, porque necessitamos dela no passado e no presente. Os erros de hoje, só os saberemos amanhã.
Beijo.
Magna
Obs.:olha, acabei de publicar a última parte do conto.

 

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